‘Qual outro sinal você precisa pra perceber que não é pra você ir ao Rio nestas férias?’

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Crônicas das férias pandêmicas parte três

Alvoroço no retorno a Congonhas. Todes em descontroles múltiplos sacam seus celulares para avisar a não sei quem, são tantes, sobre o que houve: SOBREVIVEMOS! Tripulação mascarada trimilicando pelas poltronas, meio sufocada, por tudo, que não é pouco. O falatório é encorpado por choros de crianças e bebês irritados com a situação. Uma criança aplaudiu quando a aeronave pousou. Meu coração acompanhou as palmas daquelas mãos.

Sem celular e sem ter jeito de pedir o celular para a madame do lado, que tenta resolver os esquemas pra cuidarem dos seus velhos. Não dava para pedir. Quando avisam no serviço de som, que os passageiros que desejassem desembarcar era só falar com a tripulação em terra. TERRA! Estava tão seduzido, nem tanto pela palavra, mas pela sensação de segurança. Meu elemento terra gritando aterrissagem e desembarque. A aeronave iria voltar para o Rio, tão logo houvesse condições metereológicas por lá. Mas só depois de abastecer. Quanto combustível havia sobrado deste bate e volta às terras cariocas?

Dirigi-me ao ônibus que nos levaria ao saguão. – Agora você pega seu celular pessoalmente. Despediu-se a madame. Eu com mala, sacolas e chapéu tentando passar pelo corredor tomado por pessoas fazendo sei-lá-o-que. – Com licença! Com licença! No ônibus uma passageira –  aquela que berrava no avião – mal conseguia respirar. Uma espécie de crise de pânico ou ansiedade. Era amparada pelos vizinhos de poltrona. E eu tinha que avisar, pelo menos, meu amigo no aeroporto a me esperar. Estaria ele ainda lá? Nem havia informado o voo, nem cia, nem nada… num ímpeto, pedi a uma jovem mãe de duas adolescentes o empréstimo do seu celular. Instagram e feito. Pelo menos sabia que estava vivo, mas não chegaria naquela noite. Loja da cia aérea. Remarcação de voo. Táxi (os motoristas de táxi tem uma conversa tão desinteressante às vezes – mas qual conversa mesmo me interessaria naquela altura dos acontecimentos?) Chuva. Flat de sempre a me acolher (havia vaga, graças aos orixás). Senti-me em casa.

Uma lan house pelo amor das deusas!  Procurar por uma lan house é como desejar fichas telefônicas para falar num orelhão. Ninguém nem entende e quando compreende, olha pra você como se fosse um ET do século passado (e eu sou). Depois de uma investigação a la 007, achei uma lan house ainda resistente e aberta. Aviso irmã, amigo, amor, sobrinha. – Estou bem! E pra comemorar vou até o fast food de macarrão da praça de alimentação do shopping onde me encontro, pra celebrar estar vivo. Confuso, não consigo escolher sozinho os acompanhamentos. A confusão é disfarçada pela simpatia falante e um pouco alterada. Viro amigo dos funcionários do restaurante. Rimos. Peço que o cozinheiro capriche no queijo e nas torradas. Pedi cinco pacotes e fui atendido. Um total de 15 torradinhas – um exagero. Nada melhor que um bom prato de bolonhesa para ter certeza que estou vivo. Bem vivo e faminto!  

Outro dia e de volta à casa da irmã. Não sem antes ter que brigar pra embarcar no busão que saía às 11h, mas a atendente do guichê não queria me vender passagem, pois faltava três minutos apenas. AAAAAAAA! Voadoras acionadas e eu na estrada. A mãe me recebe com a frase que nunca mais saiu da minha cabeça: – Qual outro sinal você precisa pra perceber que não é pra você ir ao Rio nestas férias? Ela que já havia lançado questionamentos, cada vez que via o telejornal comigo, diante do disparo dos casos de Covid: – Você tem certeza que vai mesmo para o Rio? – Você se preservou tanto até agora e vai se expor bem agora com a Ômicron? Ri, meio sem graça e nervoso, entre as lambidas dos cachorros que fizeram a maior festa ao me ver. Conto tudo com humor. Invento ao sobrinho neto que fui eu quem pedi para o piloto voltar, só pra resgatar meu celular. Ahhhhhhh, meu celular… que reencontro emocionante com parte de mim, ciborgue assumido. Acoplo novamente ao meu corpo e digo que vou amarrá-lo com arame em meu pescoço, como se precisasse, como se já não fosse parte de mim definitivamente. Minha prótese preferida e essencial. Pensando bem, acho que o celular perde para o óculos de grau.

Dia de voltar ao Rio. Saio cedo da casa de minha irmã. Confiro mil vezes se estou levando o celular e lá vamos nós. Mas tantos sonhos estranhos me deixaram cabreiro de ir de avião. Acordei com essa dúvida, que se dirimiu assim que olhei pro céu e consultei o clima tempo. Tudo carregado de nuvens escuras e previsão de chuvarada no Rio novamente. Decido ir de ônibus. Leito. PFF2 ajustada, cortando a bochecha. Sigo.

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.

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