Uso da linguagem inclusiva de gênero requer hábito

Publicado por

Além de incluir todas as identidades no discurso, linguagem neutra cria alternativas para performances de gênero que não são contempladas pela norma culta da língua portuguesa

Mariana Guerin

Foto em destaque: Sharon McCutcheon/Pexels

A linguagem inclusiva de gênero, também conhecida como linguagem neutra, tem como objetivo incluir todas as identidades no discurso, principalmente aquelas que não se limitam ao masculino e feminino. Seu uso requer um aprendizado gradual, um treino contínuo, até se tornar uma questão de hábito.

A língua é algo vivo. Se mantém mutável, permitindo diversas possibilidades de uso, no tempo e no espaço. E expressa a maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas, mudando e reinventando-se como as pessoas que a praticam.

Segundo a estudante de Ciências Sociais Urse Lopes Brevilheri, mulher não-binária e transativista, essa “nova” linguagem abarca duas necessidades, uma delas é o uso da sintaxe neutra, que é algo previsto pela norma culta da língua portuguesa.

“Falar boa noite a todas as pessoas, por exemplo, estende o cumprimento a pessoas que se utilizam de qualquer conjunto de linguagem, não só o associado ao masculino ou o associado ao feminino”, descreve.

Outros exemplos são o uso de ‘estudantes’, ‘docentes’, ‘população’, entre outros termos generalistas. “Nestes casos, as frases concordam normalmente com o gênero gramatical do termo. ‘Pessoas’, apesar de ser do gênero gramatical feminino, não pressupõe que todos os componentes sejam femininos ou se apropriem de conjuntos que utilizam pronomes ela e flexões com terminação em -a.”

Ainda conforme Urse, há críticas na comunidade trans não-binária sobre suas limitações quando referindo-se a pessoas específicas que não utilizam pronomes ele ou ela. “Se existe professor e professora, por que tenho que ser somente docente, pessoa que dá aula, etc.”, questiona.

Outra discussão levantada pela linguagem inclusiva de gênero é o uso da neolinguagem que, segundo a transativista, trata-se das propostas de alternativas que não são encontradas na norma culta.

“Nesse sentido, a neolinguagem promove a criação de neopronomes, novas flexões e, em alguns casos, novos artigos”, diz a estudante, que produz um curso de introdução à neolinguagem e linguagem neutra no tratamento de pessoas LGBTQIA+.

Urse explica que dentro da neolinguagem existe uma dupla intenção de aplicação: “Uma muito comum é a busca por uma alternativa ‘neutra’ que possa ser utilizada em substituição ao masculino universal, por exemplo, apropriando-se de ‘todes’ para se referir a pessoas de todo gênero”.

Outra aplicação é quando não se sabe ou não é relevante o gênero da pessoa a quem se direciona a fala. “Nesse sentido, não há necessariamente um consenso sobre qual a melhor alternativa.”

“Por isso eu defendo a questão da neolinguagem não ser algo possível de proibir, porque justamente é uma discussão/demanda e não algo dado, como o governo às vezes coloca o que se convencionou chamar de linguagem neutra”, opina a estudante.

Segundo ela, nos últimos anos, o Sistema Elu tem ganhado espaço e se popularizado como o principal sistema de neolinguagem como alternativa neutra. Ele consiste no uso da flexão -e, como amigue, alune, todes, e do neopronome elu, como “elus são muito legais”.

Urse reforça que a neolinguagem é a valorização dos conjuntos de linguagem pessoal, ou seja, os pronomes que as pessoas reivindicam para si próprias. “Eu defendo o uso do modelo APF (Artigo, Pronome, Flexão), através do qual qualquer pessoa pode transmitir quais pronomes utiliza, ou seja, qual seu conjunto de linguagem.”

“Para entender: os conjuntos mais comuns contemplados pela norma seriam a, ela, a e o, ele, o. No primeiro caso, quer dizer que a pessoa utiliza artigo a, pronome ela e flexão a. ‘A Fulana é minha amiga. Ela é fantástica’. No segundo caso, quer dizer que a pessoa utiliza artigo o, pronome ele e flexão o. ‘O Fulano é meu amigo. Ele é fantástico’. São, respectivamente, os chamados pronomes femininos e pronomes masculinos.”

Urse compara com o contexto anglófono, que tem o inglês como língua oficial, no qual comumente se indicam somente os pronomes he/him, she/her. “Mas no contexto da língua portuguesa, em que há artigos e flexões, o modelo APF se mostra útil, apesar de ter ainda suas limitações. Ainda assim, permite indicar com maior possibilidade de descrição”, diz a transativista.

Além de utilizar a, ela, a, Urse faz uso de um conjunto que se parece com o feminino, mas utiliza um neopronome e evita uso de artigo: -, ila, a. “‘Urse é minha amiga, ila é fantástica’. Note como, neste caso, para indicar o não-uso de artigos, coloca-se um traço no espaço que referir-se-ia a artigo. Também não me importo que usem pronome elu comigo, mas nem toda pessoa não-binária utiliza tal pronome”, destaca a estudante, lembrando de outros neopronomes populares, como ili, êla, éle, el.

“Eu entendo que o uso dessa linguagem tem a ver não só com a inclusão, mas como um projeto societário de inclusão de pessoas e identidades que estiveram historicamente lançadas às margens, consideradas inválidas.”

“É sobre um movimento de libertação, sobre oportunidade para corpos e vozes que nunca tiveram, principalmente para dispor sobre a própria forma de se referir a si. Para além disso, toda a questão de combate ao machismo estrutural que se destaca na linguagem, no próprio uso do ‘masculino universal’, por exemplo”, avalia Urse.

Linguagem inclusiva de gênero: ‘se trata de adições à gramática’

A estudante de Ciências Sociais cita o Guia Para Linguagem Neutra, escrito por Ophelia Cassiano, como um dos manuais mais completos sobre a linguagem inclusiva de gênero. Sua última atualização aconteceu em 17 de janeiro de 2022. O guia contabiliza mais de 80 regras gramaticais sobre a linguagem inclusiva de gênero, além de reflexões sobre o tema.

A obra explica que “para reconhecer, representar, respeitar, reivindicar e validar a existência de pessoas não-binárias, intersexo e gênero não-conformantes, é necessária a criação de novas regras gramaticais para ‘quebrar’ a binariedade imposta no idioma”.

“Ativistas e educadories em vários países já estão fazendo isso. Não se trata somente de mudanças na gramática. Se trata de adições a ela. Adicionando adaptações e melhorias, para inserir essas pessoas, e não mais exclui-las. Pois, até hoje, o idioma tem culpa e uma dívida pré-histórica pelo apagamento da existência delas na nossa educação. Devemos aprender, seja por dever ou dívida. Elas merecem viver e estarem presentes no mundo”, justifica Ophelia, no texto.

Linguística: resistir não é ser impermeável à mudança

O professor de linguística Luiz Carlos Schwindt, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em seu artigo “Sobre gênero neutro em português brasileiro e os limites do sistema linguístico”, publicado na Revista da Abralin (Associação Brasileira de Linguística), em novembro de 2020, destaca que ser resistente à mudança, consciente ou deliberada, não significa ser impermeável.

“O grau de permeabilidade parece depender da pressão dos fatores sociais e da naturalidade dos processos envolvidos na mudança. Um movimento deliberado de mudança no sistema gramatical depende de clareza coletiva sobre o referente semântico das formas inovadoras e da consciência de que, seja qual for esse referente, sua representação formal será sempre um recorte categorial.”

“É preciso que as pessoas conheçam e sejam capazes de identificar no mundo, de forma mais ou menos tácita, o significado de categorias como cis, trans, não binário etc. para que as marcas linguísticas que as designem se estabeleçam no uso.”

“Mesmo assim, uma gramática que conte apenas com o/a/e designando, respectivamente, masculino, feminino e não-binário, ainda que amplie as possibilidades de representação linguística de entidades do mundo, seguirá não dando conta de todas as possíveis segmentações ou subsegmentações de gênero social”, completa o professor.

Gênero no Brasil está atrelado à colonização binária e heteronormativa

O professor Iran Ferreira de Melo, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, atualmente leciona na Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde pesquisa a interface entre gênero, sexualidade e linguagem dos estudos críticos do discurso e da linguística aplicada ao ensino e aprendizagem de língua portuguesa.

Para ele, a linguagem inclusiva de gênero representa as diversas manifestações discursivas que empreendem modos de resistência e autoafirmação. “As pessoas que não se enquadram dentro do chamado discurso ou da linguística vão buscar reconhecimento fora das gramáticas sociais normativas de gênero e sexualidade”, declara.

Ele lembra que a ideia de gênero para a realidade brasileira é construída a partir de um processo de colonização binário e heteronormativo, que resultou no apagamento de outros modos de performar que já existiam no Brasil antes mesmo da chegada dos portugueses.

“Numa sociedade como a nossa, marcada pelo capital, gênero é fruto de um exercício de uma historicidade colonial, é resultante do processo de colonização que nós vivemos.”

“A gente teve imposição cultural por meio da língua, inclusive de povos que não eram aqueles que viviam aqui e não foram escravizados”, completa o professor, destacando como exemplo o modo como os descobridores descreviam os indígenas nas cartas que eram enviadas à corte portuguesa.

“Nessas cartas, as pessoas que eram vistas pelos comentadores não eram designadas como homens ou mulheres. As pessoas indígenas eram corpos: machos e fêmeas.”

Iran explica que gênero é uma construção que se produz ao longo da história e está ligado à maneira de estabelecer relação com o outro. “A herança cultural dos povos que nos colonizaram vê gênero a partir de dois aspectos: masculino e feminino. Mas a gente também estabelece rótulos dentro desses dois aspectos.”

“Isso tudo se dá pela linguagem, se dá pelo discurso, então toda essa gama de possibilidades que a gente estabelece nas relações com as outras pessoas, no exercício dessa história de colonização, não ocorre sem linguagem, seja a linguagem do discurso, a linguagem do corpo e por aí vai”, completa o professor.

Como fomos colonizados a partir de uma visão binária, que estabelece as subjetificações e os corpos como sendo dicotômicos, muitas vezes opostos, quem não se reconhece dentro das normas precisa criar modos disruptivos de se comunicar. “Desde objetivos de nomeação, utilização das vestimentas, de formas de tratamento, passando por tentativa de criar modos de pronominalização antropônimos (nome de batismo) etc.”, elenca Iran.

Segundo ele, pensar que a não-binaridade não é necessariamente uma característica identitária, mas uma característica performativa, ou seja, que trata da performatividade da pessoa na sociedade, mostra que o uso da linguagem neutra pode ser uma forma potente “de negação de uma história completamente construída na base dos processos de colonização e subjetivação que a gente vive em nossa cultura”.

Leia também:

Governo veta projetos culturais com linguagem neutra

Conselhos pedem sanção a vereador por ofensa a servidora

Pessoas trans usam a arte para dizer: ‘Basta de nos matar’

Deixe uma resposta