Salve Sebastião

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Pedimos tuas bênçãos para terras cariocas, que rogues por nós no teu dia! Pedimos que rogues por nós todos os dias do mês, de janeiro a janeiro porque em fevereiro tem Carnaval. Benze essa Cidade Maravilhosa que te tem como padroeiro e protetor, seja como São Sebastião ou com o Orixá Oxóssi, muitas vezes como ambos nessa ‘mistura’ de religiosidades perfeita que é o Rio.

Tua história poderia ser contada por um pernambucano que aportou em terras cariocas aos quatro anos, muitos séculos depois que por cá aportastes batizando esse paraíso. Ele viveu seus outros 64 por aqui. Escrevia, e como escrevia. Chamavam-lhe ‘Anjo’, tinha o dom da dramaturgia. Era fervorosamente, religiosamente torcedor do Fluminense, ironia do destino cruel e inescrupuloso, morreu, não atrapalhando o sábado, mas o domingo, à tarde pasmaceira e encalorada. À noite, faria treze pontos na Loteria Esportiva, num ‘bolão’ de jornalistas do jornal O Globo e seu irmão Augusto Rodrigues. A vida imitou sua arte.

Esse roteiro de tua vida, um emaranhado e intrincado roteiro, começou na França, te sagraram ‘Sebastian dans Narbonne’, – do grego ‘Sebastós’, significando ‘o divino’, ‘o venerável’ ou do latim ‘Sebastianus’, nome dos habitantes de uma cidade antiga da Capadócia chamada ‘Sabastia’, que quer dizer ‘sagrado’-, mas fizeste história no Império Romano, nas tropas do imperador Diocleciano sendo promovido a membro da Guarda Pretoriana. Diocleciano que não era chegado a um cristão, mandava prendê-los e arrebentá-los, diante de sua teimosia em não os torturar, mandou fazê-lo a ti. Tua gesta foi arrepiante, quantas flechas? Aliás, o que importa mais ou menos uma para quem já está todo espetado. Qual o quê, não sucumbiste, Irene te encontrou. Santa Irene! Voltaste, mas aí não teve jeito: o ‘prende e arrebenta’ funcionou, à Luciana, santa dos olhos de mar, restou lavar teu corpo e levá-lo sem vida, para as catacumbas. Mais tarde, o imperador barra-pesada fez o mesmo com teu companheiro Jorge, o da Capadócia, talvez de Sebastia, desta feita com óleo fervente.

Num ‘time lapse’ percorreremos doze séculos chegando às Terras de Santa Cruz, era primeiro de janeiro de 1502, lá estavam o português Gaspar de Lemos e italiano Américo Vespúcio a mando do rei de Portugal Dom Manuel, viram aquela ‘foz’ gigantesca, pensaram será um rio (erro de pessoa)? Será uma ria (erro de grafia) – acidente geoformológico de um vale fluvial em volta da foz de um rio? Não se sabe ao certo, tudo especulação em se tratando de marinheiros experientes. O fato é que resolveram chamar de Rio de Janeiro.

A trama continua… chagam aqui teus compatriotas, 53 anos depois, comandados por Nicolas Durand de Villegagnon e se alinharam com os Tupinambás. Uma turma feliz que andava nua pelo meu país e utilizava o arco e flecha como arma. Passados dez anos vem o Estácio de Sá, que funda a Muy Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em tua homenagem. Era primeiro de março. Passados dois anos, exatamente no dia vinte de janeiro, teu dia, foram travadas sangrentas batalhas a Uruçu-mirim (atual praia do Flamengo – SRN) e Paranapuã (atual Ilha do Governador). Botaram teus patrícios para ‘courir’, em compensação o governador-geral foi mortalmente ferido num dos olhos. Advinha como, se é que posso pedir isso a um santo, uma flechada que o levou ao etéreo um mês depois.

Tu tens tudo a ver com essa cidade, com o primeiro samba gravado e lançado em um 20 de janeiro, concebido por Donga e Mauro de Almeida na casa da Tia Ciata, na Praça Onze, que nas rodas de santo te evocavam como Oxóssi, o Rei das Matas. Temos por aqui a maior floresta urbana do mundo, a da Tijuca. Também no dia 20 foi inaugurada a TV Tupi do Rio de Janeiro, antiga Guanabara – que em tupi quer dizer ‘braço de mar’, cujo ‘garoto propaganda’ é um índio com um arco e flecha; terá sido provocação do Chatô?

Somos honrados em te termos como padroeiro. Não somos tão felizes quanto eram os índios que aqui estavam. Praias maravilhosas – sem ficar ‘crowd’ e cheias de ‘haole’, frutas em abundância, todo mundo nu ao Sol se doirando à beira-mar, baleias e golfinhos engarrafando a Baía da Guanabara, violência quase perto de zero a não ser quando tribos inimigas capturavam um ‘alemão’. Aí a coisa ficava feia, mas aqui é Rio e tudo funcionava sem humilhação, na calma e no diálogo. O desafortunado ficava solto pela taba, fugir podia, mas desonraria sua tribo. Recebia tratamento vip; tinha a melhor oca da tribo, podia se deitar com a índia que quisesse na cama que escolhesse, o suprassumo da caça, pesca e colheita ficava com ele, até que um belo dia ‘D’, numa hora ‘H’, era chamado ao centro da taba, recebia pedras que poderiam ser atiradas em seus algozes acompanhadas de xingamentos, nada muito diferente do Maracanã atualmente, quando um deles, já de saco-cheio daquela lenga-lenga e com mais o que fazer, lhe mandava o tacape no quengo, numa bordoada fatal. Virava o jantar da turma. Pelo número de participantes do tal ‘banquete’, era uma ‘unha’ para cada e lambam-se.

O Sol diariamente ‘acorda’ nas amadas terras Leais e Heroicas, pedindo bênçãos a São Sebastião. A Muy Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro agradece a ti, nosso padroeiro e retribui com toda a sua beleza natural!

Que uma luz brilhante invada o Rio, suas florestas, matas e praias em formação auriverde trazendo novamente a paz de um Shangri-lá e a tua força continue nos guardando!

Amém, Axé, Òké Aro!!! Arolé! Salve!

*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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