Luzia Yamashita é a primeira mulher a presidir a Acel

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Professora responsável pela criação do Curso de Comunicação Social da UEL, ela prepara um livro sobre a imigração okinawana no Brasil

O talento da professora Luzia Mitsue Yamashita Deliberador é fazer história por onde passa: desde a criação do curso de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL), nos anos 1970, universidade da qual foi vice-reitora, até a criação do Centro Universitário Cidade Verde (UNIFCV), em Maringá, onde atua hoje como diretora de ensino e extensão.

Seus talentos passam ainda por sua pesquisa sobre a imigração okinawana no Brasil, que deve virar livro, e a coordenação, há 23 anos, de um grupo de idosos da Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel), da qual acaba de tornar-se a primeira mulher a ocupar a presidência do clube. “Minha trajetória levou a isso”, justifica.

“Eu era vice-presidente há anos. Não tinha como não ser. É apenas a continuidade de um trabalho cultural, social e esportivo sério. Há um respeito muito grande ao meu trabalho. E não é uma questão de ser mulher ou não: quem fizesse o trabalho sério iria assumir”, opina Luzia.

“Eu vejo com muita naturalidade, muita responsabilidade. A Acel não é um clube social, é muito mais um clube cultural, no sentido de não só divulgar e mostrar para a sociedade londrinense a cultura japonesa como também de fazer um papel fora, no Japão, mostrando o que é que esses imigrantes e seus descendentes têm feito em Londrina. A Acel é um clube que prioriza muito esporte e cultura. Isso difere bastante dos demais clubes e aumenta muito a responsabilidade também.”

Foto: Divulgação/UEL

Luzia conta o segredo do sucesso: ‘Estudar sempre’

Nascida em Uraí, Luzia é filha de imigrantes japoneses. “Meu pai imigrou com sete anos e minha mãe foi concebida no Japão, mas nasceu em Cambará, três meses depois que meus avós chegaram aqui. Os dois foram criados como japoneses”, conta a professora.

Ela cresceu na propriedade rural da família ao lado dos pais e dos irmãos – são seis mulheres e um homem -, em meio à produção de café. Mas o destino dos filhos não foi o campo: “Todos os filhos estudaram”, destaca.

“A minha infância foi bem simples. Nasci e fui criada num sítio. Com uns cinco anos, nos mudamos para Cambé, onde estudei até uns nove anos numa escola municipal que ficava no sítio do meu pai, no quilômetro 9 da estrada da prata. Ele acabou doando para o município o terreno.”

“Terminado o quarto ano, meu pai matriculou todos os filhos no Colégio Londrinense, mas como eu não tinha idade para cursar a quinta série, eu tive que estudar um ano a mais até entrar no antigo ginásio.”

“Estudei no Colégio Londrinense até o terceiro ano do segundo grau, passei no vestibular em Piracicaba, na USP, e fui embora para lá para fazer faculdade”, relembra a professora, que além de atuar como pró-reitora de extensão e lecionar na pós-graduação em Comunicação Comunitária na UEL, hoje mantém a UNIFCV, a qual atende mais de 30 mil alunos, sendo 28 mil na modalidade ensino à distância.

Com raízes rurais, cultivadas em uma família bastante unida, que se reunia todos os sábados no sítio dos pais, hoje Luzia divide seu tempo entre as obrigações como diretora de ensino e extensão na UNIFVC e os cuidados com a mãe, de 96 anos.

“Minha família é muito unida. Os sobrinhos e os netos da minha mãe sempre foram criados muito juntos. Todos os sábados todos os irmãos iam de Londrina para o sítio do meu pai e da minha mãe e passávamos a tarde de sábado e jantávamos antes de voltar”, recorda Luzia, que admira a união entre os sobrinhos e primos. “São muito bonitos, parecem irmãos.”

“Minha mãe tem 15 netos, oito bisnetos e são muito ligados. Para nós, Natal é uma coisa sagrada, sempre foi toda a família: minha mãe, meu pai, com sete filhos, 15 netos, hoje os agregados e mais os bisnetos. Está dando 46 pessoas. Todos têm conhecimento da vida um do outro, ajuda quando pode”, comemora.

Garantir a educação dos filhos sempre foi a prioridade dos pais de Luzia e ela seguiu à risca as recomendações: “Minha adolescência sempre foi estudar”.

“Como todo imigrante, eles, na medida em que decidiram ficar no Brasil, tinham como prioridade a educação dos filhos como forma de ascensão e de ser aceito na sociedade brasileira. Então, minha infância, minha adolescência, sempre foi estudar, nenhuma regalia, como estar com os colegas da escola, mas foi uma adolescência muito tranquila”, rememora.

Apesar de não passear muito, ela gostava de ir ao cinema e de ver shows de vez em quando. “Quando fui estudar fora, férias era voltar para casa”, diz Luzia, explicando que ser filho de imigrante japonês no Brasil implica num modo único de se expressar.

“Você tem que ser correto, você tem que ser pontual, você é uma série de coisas a partir da educação que os pais passam. A gente tem alguns princípios que eles passam que são muito fortes na nossa personalidade, que é a questão do respeito aos outros, respeito aos mais velhos.”

“Meu pai era uma pessoa que se sentia agradecida ao país por tudo que recebeu, de valorizar o que nós temos no país que nós estamos, enfim, tudo isso foi passado para a gente, na nossa personalidade, com muita ênfase”, diz Luzia.

“O que me marcou é que eu sabia que tinha que estudar e tinha que me sair bem profissionalmente. Era isso que sempre foi passado para a gente. Nada de você ficar perdido na vida, você tinha metas.” E ela cumpriu – e ainda cumpre – muitas metas.

Formou-se em Economia Doméstica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba (SP), e fez mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).

Disciplina e comprometimento compõem rotina frenética

Luzia afirma que não gosta muito de falar sobre si, mas conta que sua rotina é bastante atarefada. Ela tem costume de acordar cedo, “sempre antes das 7 horas”, e quando pode lê jornais. Pratica caminhada e academia quando a agenda permite.

“Segunda à noite eu venho para Maringá e de terça a sexta à noite trabalho na UNIFCV. No sábado e na segunda cedo eu faço academia”, comenta a professora, que costuma passar os fins de semana com a mãe.

“Sábado eu compro as coisas que minha mãe gosta, levo para ela. Domingo dou banho, cuido dela, porque durante a semana minhas irmãs cuidam. Além disso, às segundas, eu administro o sítio da minha mãe, que é de onde ela tem a renda dela há 23 anos.”

Às segundas ela também se reúne com os coordenadores voluntários do grupo de idosos da Acel. “É um ritmo muito corrido. Em Maringá eu trabalho de manhã, à tarde e vou ter duas noites para trabalhar também. Sou mantenedora, entrei como sócia 16 anos atrás, então tenho que dar minha contribuição.”

Nas horas de folga, que são poucas, Luzia gosta de ouvir músicas, ver filmes. “Eu sempre gostei de música, dança, mas eu nunca tive muito lazer. Meu passatempo favorito era assistir filme, ouvir música, ler alguma coisa.”

Como vai muito ao Japão em função da pesquisa sobre a imigração okinawana, ela decidiu aprender canto japonês. “No Japão todos convidam a gente para ir para o karaokê e eu tinha vergonha de cantar”, confessa.

Entre os sonhos realizados, ser professora é o maior deles: “Eu amo sala de aula. Eu posso estar doente, eu melhoro, saro em sala de aula. Isso de ver um aluno crescer na sua disciplina, crescer com você é uma das coisas que me dá mais prazer”.

“E trabalho voluntário, por isso que eu estou há 23 anos à frente do grupo de idosos. Em 1998 não existia realmente um respeito ao idoso, então a gente tinha que criar uma cultura de valorização e tratá-los como cidadãos. E resolvemos trabalhar com os idosos de origem japonesa porque é uma cultura que respeita muito o idoso.”

Luzia recorda que a partir do trabalho realizado pela Acel com 350 idosos de origem japonesa, o prefeito da época criou a Secretaria Municipal do Idoso de Londrina. “Começaram a ter muitos grupos de idosos em Londrina e hoje são 12.”

Entre as principais atividades ofertadas pela Acel está a visita anual à Expo Japão. “Nós fazemos atividade na Expo Japão para todos idosos do grupo da Prefeitura, convidamos idosos dos asilos, fazemos uma tarde festiva para eles, com gincanas, animação.”

“Eles conhecem a Expo Japão e um pouco da cultura japonesa e ao mesmo tempo eles passam a tarde com recreação, canto, músicas, dança, enfim, passam uma tarde agradável. Isso nós já fazemos há 17 anos.”

“Também fazemos a tarde para alunos de escolas municipais da periferia, sempre convidamos em torno de 450 crianças e 450 a 500 idosos para a Expo Japão. Nesses trabalhos eu me realizo muito porque acho que o ser humano não é só trabalhar, você tem que se dedicar e doar alguma coisa para a sociedade”, reflete.

“Nós somos privilegiados de poder ter frequentado universidade pública. Eu estudei em graduação, mestrado, doutorado na Universidade de São Paulo. Nunca paguei nenhuma folha de papel, então eu acho que eu tenho que dar retorno para sociedade, isso me realiza muito”, completa a presidente da Acel, que também gosta muito de viajar e conhecer outras culturas.

“Eu faço um trabalho com Okinawa, que é uma ilha no Japão. Fiz uma pesquisa sobre os idosos okinawanos que vieram para o Brasil. Por que que saíram no Japão, como foi a viagem, quais as principais dificuldades ao chegar ao Brasil, como eles estão, como está a geração dos filhos e netos deles.”

“São 17 okinawanos e esse livro estou escrevendo com um professor do Peru, que fala sobre o Peru, e um professor de Okinawa. Eu acho que é um privilégio poder conhecer outras culturas, poder falar sobre eles, ter todo esse contato”, celebra.

‘A gente não pode parar nunca’

Luzia reconhece que já realizou muita coisa na vida: “Nas minhas disciplinas, Comunicação Comunitária e Mídia Cidadã, eu faço muito trabalho em entidades sociais que lidam com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, então já fiz muitos projetos com alunos de Jornalismo e Relações Públicas, tanto na especialização em Comunicação Popular Comunitária na UEL, como também no curso de Jornalismo das Faculdades Maringá”.

“Já consegui, inclusive, nas leis municipais de Sarandi e Maringá, incluir que todas as escolas municipais tenham rádio escola, o uso da mídia em sala de aula. Agora, com a pandemia, isso foi muito mais forte. As escolas me pedindo para capacitar professores em como usar essa mídia em sala de aula”, cita a professora.

Para ela, como comunicadora, suas principais conquistas passam pela criação do curso de Jornalismo e Relações Públicas da UEL e por tantos anos formando profissionais de quem se orgulha muito.

“Pessoas que não são apenas profissionais, mas cidadãos que têm um comprometimento com a sociedade em que vivem. Isso é realmente uma das coisas com as quais eu fico muito feliz”, comenta Luzia, que já foi homenageada por mais de 50 turmas em sua vida acadêmica.

“Eu sempre fui tratada pelos alunos não como sendo uma professora, mas uma educadora. Eu acho que é a minha maior realização e o resultado de um trabalho comprometido, dedicado e de gostar de fazer tudo isso.”

Outro orgulho da professora é seu trabalho com os idosos. “Acho que nós mudamos muita coisa em Londrina sobre a cultura do idoso. Sempre a gente tem desafios. Acho que sonhar sempre. Porque na medida em que você tem sonhos, tem projetos, se você está correndo atrás, você é uma pessoa viva, não está parada no tempo. A gente não pode parar nunca.”

*Mariana Guerin é jornalista em Londrina. Adoça a vida com palavras e quitutes

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