Organizações se mobilizam após estupro de mulheres no Zerão

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Duas mulheres foram sequestradas por um homem no local e violentadas; Frente Feminista inicia campanha e Conselho da Mulher pede informações

Cecília França

Foto em destaque: Evento da Frente Feminista em 2020/Isaac Fontana

O recente estupro de duas mulheres sequestradas no Zerão, em Londrina, tem mobilizado entidades e organizações de defesa dos direitos das mulheres por mais segurança e por uma mudança cultural que ponha fim a crimes de gênero. A Frente Feminista de Londrina lançou uma campanha pública pelo fim da cultura do estupro, que deve ter desdobramento nas próximas semanas, e o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (CMDM) busca mobilizar integrantes da rede de enfrentamento à violência para traçar estratégias.

Na madrugada de 9 de janeiro, as duas mulheres, de 19 e 30 anos, tiveram o carro invadido por um homem quando saíam do Zerão. Ele as obrigou a dirigir até a zona rural de Sertanópolis, onde os estupros ocorreram. No dia 13, a Delegacia da Mulher divulgou um retrato falado do suspeito. A investigação segue sob sigilo, mas segundo a assessoria da Polícia Civil, “até o momento não houve prisão”.

O CMDM deve divulgar manifestação pública hoje sobre o caso. Elaine Galvão, da Comissão de Enfrentamento à Violência do Conselho, explica que o caso levou a entidade a se reunir para traçar estratégias. Em reunião, a comissão definiu que ouvir as instituições que compõem a rede de apoio a mulheres vítimas de violência em Londrina é uma das prioridades, a fim de entender como tem funcionado o fluxo de atendimento.

“Também temos uma preocupação com a forma como a cobertura é feita por alguns veículos da mídia”, diz Elaine. Para lidar com isso, o Conselho pretende promover, em março, um evento voltado para profissionais da imprensa.

‘Mexeu com uma, mexeu com todas’

A Frente Feminista de Londrina iniciou na última sexta-feira a campanha #mexeucomumamexeucomtodas em suas redes sociais, com o objetivo de pautar a violência de gênero. A Frente recusa abordagens simplistas que classificam o caso de estupro no Zerão como um mero problema de segurança pública.

“A violência contra mulheres e meninas no Brasil é parte estruturante da sociedade patriarcal, na qual os homens dispõem de livre acesso aos corpos das mulheres”, expõe a Frente no primeiro post “O que é cultura do estupro?”.

“Há uma naturalização e respaldo social para que as mulheres sejam violentadas. A partir da lógica da cultura do estupro, os homens são ensinados que os corpos das mulheres lhes pertencem (…) Não podemos sair de casa com roupa curta, não podemos ficar na rua até tarde, tudo para que a gente evite ser violentada.”

Como saída para superarmos essa estrutura violenta, a Frente Feminista aponta a educação de gênero como “medida necessária para que a conscientização sobre a importância do respeito às mulheres seja propagada e disseminada pelas gerações.” Como entrave, aponta o avanço do conservadorismo na sociedade e, em particular, nos poderes legislativos e executivo.

Rede de apoio foi essencial para vítimas

Uma pessoa próxima das vítimas do estupro conta à Lume que as mulheres receberam os primeiros atendimentos de saúde no Hospital Zona Norte e passaram por exame no Instituto Médico Legal (IML), mas que toda a sequência de cuidados foi proporcionada pela rede pessoal de apoio.

“Infelizmente o atendimento do hospital esteve bem aquém do esperado. Elas receberam medicação contra ISTs e gravidez, mas o tratamento das feridas foi não condizente com a situação de duas mulheres que haviam passado pelo que elas passaram. No IML, não sei se pelo fluxo de trabalho deles lá, também teve pouco trato. O restante do atendimento foi totalmente viabilizado pela rede de apoio delas, psicológico, áté remedios para dor”, detalha.

Sem dependessem apenas do atendimento proporcionado pelo Estado, ela acredita que as vítimas estariam desassistidas. “Estariam carregando mais esse trauma de, além de ter acontecido o que aconteceu com elas, não ter tido o apoio necessário”, classifica.

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