Homem é condenado a 28 anos por feminicídio da ex-namorada

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Renan Júlio Bueno Fogagnollo assassinou a tiros Ingrid Fernanda Costa Ferreira, de 17 anos, em Londrina

Cecília França

Foto em destaque: Renan Fogagnollo/Reprodução PMSC

Renan Júlio Bueno Fogagnollo, 26 anos, foi condenado pelo tribunal do júri da Comarca de Londrina, nesta quinta-feira, a 28 anos de prisão pelo feminicídio da ex-namorada Ingrid Fernanda Costa Ferreira, então com 17 anos. Após um julgamento de quase oito horas e muitas discussões entre acusação e defesa, os jurados acataram a denúncia do Ministério Público de feminicídio com duas agravantes: motivo torpe e mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima.

O crime ocorreu no dia 25 de outubro de 2019, no residencial Flores do Campo, zona norte de Londrina, porque Renan não aceitava o fim do relacionamento, ocorrido poucos dias antes. De acordo com a denúncia do MP, ele entrou atirando na casa onde Ingrid estava com a mãe, o padrasto e uma irmã de dez anos. Dois tiros acertaram a jovem e foram fatais. O autor fugiu, mas foi localizado dias depois no estado de Santa Catarina.

As Néias-Observatório de Feminicídios Londrina acompanharam o julgamento e emitiram nota ressaltando a tentativa da defesa do acusado de emplacar a tese da legítima defesa da honra camuflada como “homicídio privilegiado”.

“Assim como em julgamentos anteriores acompanhados e analisados pelas Néias, os argumentos da defesa de crime cometido sob forte emoção se repetiram, associando Renan à imagem do homem trabalhador traído pela companheira amada, que sofria pressão psicológica por ser insistentemente nomeado como ‘corno’. Notou-se também a insistência em associar o réu ao pressuposto de paciente psiquiátrico, incapaz de exercer autocontrole. Ele foi descrito como uma criança que sofreu bullying devido ao sobrepeso e um adolescente diagnosticado como caso de TDAH e usuário de sertralina. Destacou-se, ainda, que o ato foi situado como reflexo de um momento de desespero e sob efeito de cocaína.”, detalhou a organização.

“Tais associações deslocam o debate sobre o ato em si para a análise da conduta do criminoso, ou seja, de sua ‘maneira de ser’, e da conduta da vítima; conduta esta recriminada pela defesa e justificadora do crime. Deste modo, os argumentos estão respaldados em perspectivas individualizantes e morais, sendo seus crimes cometidos como reflexos de irregularidades psicológicas. Os jurados rejeitaram tais argumentos, assim como Néias também os rejeita.”.

Ingrid em foto de arquivo pessoal/Reprodução Tem Londrina

O observatório destaca que o titular do Ministério Público no julgamento recorreu ao caso emblemático de Doca Street, feminicida de Ângela Diniz, para lembrar que a legítima defesa da honra já era combatida na década de 1980.

“Destacamos a atuação do Ministério Público em desfavor das tentativas da defesa de camuflar a tese da legítima defesa da honra sob o argumento de violenta emoção. O promotor Thiago de Oliveira Gerardi evocou, em plenário, o julgamento emblemático de Doca Street, feminicida de Ângela Diniz, para lembrar que já na década de 1980 essa tese estava sendo rejeitada. Lembrou, então, que ela acabou enterrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por violar a dignidade da pessoa humana.”, diz a nota.

O observatório lamenta, no entanto, a revitimização promovida pela defesa. “Decisão justa em um julgamento no qual Ingrid foi revitimizada e sua mãe, presente no plenário, praticamente apontada como a causadora de sua morte por não ter ‘criado a filha direito”’ A defesa não poupou esforços em espezinhar mãe e filha, situando Renan, o verdadeiro responsável, no campo do desequilíbrio, da imaturidade, da pressão social. Havia mais preocupação em zelar pelo futuro do homem que em fazer justiça pela morte da mulher.”

Renan Fogagnollo está preso há dois anos e segue em regime fechado. A uma emissora de TV, a defesa afirmou que irá recorrer da sentença.

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