Ciscando como pinto na farofa de dendê

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Estarrecido aqui, na minha quarentena de covid – sim, meus caríssimos leitores, apesar de todos os cuidados, a danada me encontrou -, assisti nesta segunda-feira, 31 de janeiro, um presidente se lambuzando, espalhando farofa de dendê aos ventos e aos quatro cantos do seu entorno. De tão dantesca e tosca a imagem que me chegava, abeirei-me a imaginar a possibilidade de uma alucinação provocada pelo vírus ou pelos medicamentos que venho fazendo uso para combatê-lo. Não era!

Achar que popularizar, “se tornar povo”, é ter esse tipo de postura foi o mais amargo dos erros, a mais estranha maneira de “popularizar-se”. Pobreza nunca foi sinônimo de sujeira, pobreza nunca foi sinônimo de maus-modos. Pobreza nunca foi sinônimo de simplicidade. Pobreza mata, pobreza humilha, pobreza sucumbe a honra do ser humano.

Nos anos 1990, viajei à trabalho por grande parte do Nordeste brasileiro. Atravessei o sertão em tempos de seca, em tempos de retirantes pelas estradas afora. Famílias que fugiam do “Sol inclemente” na esperança dele se “arretirá”. Era um chão fumegante em que as imagens se transformavam liquefeitas. O Pai do Baião, em uma única estrofe, resumiu o que se via: “…Que braseiro, que ‘fornaia’/Nenhum pé de ‘prantação’//‘Inté’ mesmo a asa branca/Bateu asas do sertão…”. Uma dor, que de tão doída eu sentia n’alma. Não aquela de sonhar-te, mas a perdida.      

Não foi fácil, parávamos em povoados que pareciam cenários saídos de algum filme de Fellini ou Almodóvar. As imagens poeirentas eram um misto de Mad Max com alguma película Steampunk. O Sol não dava trégua, retumbava em minha pele como um grande maçarico. Sempre, por mais que faltasse, e, creiam, faltava muito, éramos convidados para uma prosa acompanhada de um copo d’água e, quando muito, um café. Nunca me senti tão honrado e privilegiado, pois sabia que ali habitava, de forma subliminar, “O Óbolo da Viúva”. As mesas eram, quando haviam, muito bem postas com toalhas limpas. Os copos, na maioria das vezes de requeijão, cuidadosamente lustrados. Lembro bem das canequinhas de barro ou ‘Mãe Ágata’, desgastadas pelo tempo, buscadas nas “cristaleiras”, a “roupa de domingo” oferecida com muito orgulho a este singelo fotógrafo vindo da cidade grande.

Compartilhavam com muita polidez, boas maneiras e bons modos o pouquíssimo que tinham. Muitas vezes nada – meia-lata de farinha e água. A explicação tem lógica: farinha e água incham e trazem a sensação de saciedade. Vi seres humanos comendo calango – uma espécie de lagarto que habita a caatinga -, passado na farinha d’água, mas nunca os vi espalhando o precioso néctar pelo chão. O pouco que tinham era gentilmente compartilhado. Vi mães deixando de se alimentar para estancar a dor que insistia em habitar os estômagos pueris. Como I-Juca-Pirama de Gonçalves Dias: “…O velho no entanto/sofrendo já tanto/de fome e quebranto,/só queria morrer!…”. Meninos eu vi!

Experimentei palma, um cacto oriundo do México, que dá no agreste. Uma fibra aguada, mas que alimenta. Comi-o em pratos limpos, mesa com bilha, copos, farinha. Não havia talher, apenas uma faca compartilhada por todos. Em silêncio e com modos, todos saborearam o que, naquele momento, era uma iguaria dos deuses, não sem antes orarem pela comida que Deus havia posto à mesa e agradecerem ao Padim Rumão Batista Cícero.

Não captei muitas imagens, na maioria das vezes as lágrimas embaçavam a ocular da câmera. Foram as tais fotos que não fiz.

Vendo as imagens toscas de um chefe de nação se besuntando com farofa de dendê me levou as palavras atribuídas ao querido Joãosinho Trinta: “Quem gosta de miséria é intelectual, o povo gosta de luxo”. Não estava de todo errado, mas, na verdade, o povo anseia pior uma vida melhor, por comida na mesa, por saúde, saneamento, educação. O povo quer comer seu churrasco com farofa dignamente, com respeito ao alimento.
Achar que popularizar é estar na sujeira, em meio à porcaria é no mínimo – porque não há nada abaixo de mínimo – vilipendiar, subestimar a inteligência do povo, dos humildes.

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Mateus 11:28-30

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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