‘Umbanda na Terra do Café’ resgata a história dos terreiros de Londrina

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Projeto tem patrocínio do Promic e contará com livro, documentário, site, debates e palestras, com o intuito de buscar e valorizar as vozes da umbanda na cidade

Mariana Guerin

O projeto “A Umbanda na Terra do Café: entre Trajetórias e Histórias para Construção da Tolerância”, que possui patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) e deve ser lançado este mês pela Atrito Arte Artistas e Produtores Associados (AARPA), propõe uma reflexão sobre racismo cultural e intolerância religiosa, dando luz à história da umbanda em Londrina.  

Segundo a produtora cultural Chris Vianna, coordenadora-geral do projeto, “a ideia é incentivar a formação cidadã para o respeito e reforçar a importância da valorização da pluralidade religiosa, por meio do intercâmbio de conhecimentos, além de ações educativas voltadas à preservação da nossa memória histórica e cultural”.

Chris reforça que o racismo cultural e a intolerância religiosa atingem principalmente expressões ligadas às culturas afro-brasileiras. “Este preconceito decorre do desconhecimento da origem dessas religiões e manifestações, bem como da falta de informações sobre o papel por elas desempenhado.”

“Será apresentado o cotidiano da umbanda em Londrina, passando por suas trajetórias e histórias, e destacando personagens importantes que participaram da construção da cultura umbandista na cidade”, destaca Chris, lembrando que o projeto será realizado em parceria com o Laboratório de Estudos sobre Religiões e Religiosidades (LERR) da UEL.

A iniciativa contemplará a publicação de um livro, com textos do escritor Maurício Arruda Mendonça e fotos de Yashiro Yamasu; a produção de um documentário sob direção do cineasta Carlos Fofaun, que ficará disponível no YouTube, e a construção de um site.

Também serão realizados 15 debates e palestras em terreiros, escolas de capoeira e no Centro de Letras e Ciências Humanas da UEL. O projeto direciona-se também ao público jovem e alunos do Ensino Médio. Para isso, serão selecionadas, por meio de editais, cinco escolas de diferentes regiões de Londrina.

Um primeiro debate, que aconteceria no Museu Histórico nesta quarta, foi adiado porque uma das participantes testou positivo para a covid-19. Dele participariam a Mãe Josi de Yemanjá, que há 22 anos atua como mãe de santo no Terreiro Manoel de Umbanda, em Londrina, e sua neta Kattelyn Monte Paiva, estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina (UEL), que teve sua iniciação na umbanda ainda na infância. Conforme a coordenadora, o evento deverá acontecer ainda em fevereiro.

Umbanda como caminho para a construção da tolerância

Mãe Josi de Yemanjá conta que sua história na umbanda começou em casa, com seus pais e sua avó, que foi dona de um terreiro em Nova Santa Bárbara. “A gente cresceu dentro do terreiro, então a minha história sempre foi de carinho, amor, caridade na umbanda. Eu amo a umbanda.”

Conforme ela, o dia a dia na umbanda consiste em colocar a caridade em prática: “É ver as pessoas chegando no terreiro precisando de caridade, desesperadas, e vê-las saindo bem, depois do trabalho dos orixás. É a caminhada que a gente procura fazer todos os dias: de ajuda, de união, de amor”.

Segundo a mãe de santo, tendo os orixás como guias, os terreiros se tornam uma grande família, unida na autoajuda e compreensão. “Pelo menos na minha casa, os meus filhos não são de sangue, mas são do meu coração e amo todos. Essa é a caminhada.”

A discriminação religiosa, na opinião dela, acontece pela falta de conhecimento. “É preciso mudar isso de criança, tirar essa força negativa da umbanda conforme a criança vai crescendo. Essa coisa de que umbanda é macumba. A intolerância acabará a partir do momento que todo mundo se unir e respeitar as outras religiões, todos estamos no caminho de Deus”, opina.

Kattelyn Monte, neta da mãe de santo, conta que apesar de ter tido contato com outras religiões, foi escolhida pela umbanda. A religião agrega os princípios fundamentais que ela carrega em seu caráter hoje.

“A humildade e o amor me tornaram uma pessoa melhor porque hoje eu consigo ver uma pessoa necessitada e estender minha mão, tentar ajudar e não passar por ela como se ela fosse invisível.”

“É também ter a humildade de sentar-se com aquela pessoa, escutar o que ela está passando e tratar ela com amor, enxergar uma pessoa ali. Eu acho que esses princípios agregam demais na profissão que escolhi seguir porque eu preciso desses fundamentos para ser uma médica humana”, avalia Kattelyn.

Ajudar o outro a se reerguer é o que ela mais gosta dentro da umbanda. “A pessoa voltar com gratidão e querer ajudar outras pessoas é a parte mais prazerosa de fazer parte da umbanda. A gente acaba se tornando irmandade.”

“O momento de gira é extremamente prazeroso, você está dividindo aquela vibração com seus irmãos de terreiro. É ter uma amizade, poder compartilhar experiências. A gente acaba se tornando uma grande família e isso é excepcional”, descreve a estudante. 

Para ela, a intolerância religiosa e o racismo andam pelas mesmas vias porque se originaram na mesma época: “Aquelas pessoas eram vistas como exóticas e o que era produzido por elas, o que era expresso por elas, também tinha esse mesmo peso”.

“Naquele período em que o que era certo era ser católico foi gerado um estereótipo errado sobre outras religiões e que se perpetua até os dias atuais. A gente entra em choque hoje em dia por ainda ter discursos de alguns líderes religiosos que fortalecem esses estereótipos e que acabam gerando e fortalecendo ainda mais essa intolerância com o diferente.”

“Falta um pouco de conhecimento para saber o que de fato acontece dentro da religião. As pessoas partem do que elas ouvem de líderes que elas consideram corretos e com uma palavra que tem um peso muito grande e assim vai se propagando essa intolerância de partir do seu ponto de vista, do que você acredita como certo para julgar o outro como errado.”

“Outro ponto muito importante é que hoje, o país sendo laico constitucionalmente, a gente vê que ainda faltam muitas condições para que as diferentes correntes religiosas possam conviver em harmonia. Observando o cenário religioso hoje, a gente vê que duas religiões prevalecem com respaldo muito maior”, destaca Kattelyn.

Segundo ela, “a gente vê um plenário com duas bancadas muito fortes, vê nos órgãos da lei ainda o reforço de ter o símbolo da cruz reforçando essa questão do cristianismo. Então, de certa forma, isso reforça para a visão do que aquilo se tornar errado, se tornar, ainda assim, minoria.”

Personagens notáveis: religião agrega trabalhos sociais e políticos

O projeto “A Umbanda na Terra do Café” abrange diversas manifestações relacionadas à religião de matriz africana, começando pela investigação da história dos terreiros que surgiram para o atendimento de um significativo número de pessoas em Londrina e cidades vizinhas. Para isso, será resgatado o cotidiano da umbanda em Londrina, dos primórdios aos dias atuais, apresentando personagens importantes no processo de construção da cultura umbandista na cidade.

Entre eles, estão o Pai Roberto de Ogum, Pai de Santo do terreiro Ilê Axé Estrela Guia, do Jardim das Palmeiras; Pai Sena de Ogum e Mãe Josi de Yemanjá, coordenadores do Centro Umbandista Manuel de Umbanda, localizado no Jardim Califórnia, entre outros.

Segundo a coordenadora de pesquisa do projeto, Fernanda de Abreu, um dos aspectos mais importantes do trabalho é dar voz a sujeitos locais que, historicamente, nunca foram ouvidos.  “Buscar essas vozes da umbanda na cidade, registrá-las e valorizá-las é muito gratificante. Com isso, promove-se uma forma de justiça social. O compartilhamento de vivências expande nossas referências culturais e históricas e, especialmente, nos enriquece enquanto sociedade.”

Fernanda teve contato com a umbanda na adolescência, pela internet, assistindo a vídeos de entrevistas com entidades de umbanda. “Ali eu percebi que tinha um conhecimento e uma sabedoria muito grande e tive muita vontade de ver como era a umbanda na prática. Então eu comecei a visitar terreiros e toda a ritualística da religião me encantou, mexeu com alguma coisa dentro de mim.”

“Eu escolhi fazer parte da umbanda porque algo em mim foi chamado, tocado, é até difícil de explicar em palavras, mas a visão de mundo da umbanda, de ser uma religião que tem tudo a ver com o social, o político, eu vejo muita política na umbanda também, foi um conjunto de fatores que me levaram para a religião.”

Segundo Fernanda, a umbanda ensina as pessoas a enxergarem o mundo de uma maneira plural. “Por ela mesmo a ser uma religião plural, pelos terreiros não serem homogêneos entre si, tem uma diversidade cultural muito grande, então acho que esse é um primeiro ponto positivo, de conseguir reconhecer a pluralidade e a diversidade.”

“No meu dia a dia, a umbanda me ajuda a entender o mundo e me ajuda a conseguir viver de uma maneira melhor, a entender como as coisas funcionam não só no plano físico e material, mas o que transcende esse plano material”, completa a pesquisadora.

O que ela mais gosta da religião é a noção de comunidade: “Um terreiro é uma comunidade, é uma família. Então, a partir do momento em que alguém se dispõe a entrar nesse espaço sagrado do terreiro, ela passa a fazer parte de uma família e ela é acolhida não só de maneira material como também de maneira espiritual”.

“Esse acolhimento que a umbanda proporciona, inclusive de pessoas que socialmente são excluídas, como as minorias sociais, é algo que é muito bonito.”

Para Fernanda, a base da intolerância também é a falta de conhecimento. “Uma das estratégias que a gente busca para combater a intolerância é a propagação do conhecimento, é fazer o conhecimento circular.”

“A partir do momento em que a gente vai desmistificando alguns aspectos das religiões de matriz africana, a gente contribui para que a intolerância religiosa se modifique na sociedade.”

“Isso tem tudo a ver com o projeto, buscar propagar a história da umbanda em Londrina, como umbanda funciona, para ir tirando esses preconceitos que as pessoas têm muitas vezes porque não conhecem como de fato é a ritualística da umbanda, o que que é praticado, quais são os princípios éticos de um terreiro”, destaca a pesquisadora.

Conforme ela, a importância do projeto está em seu aspecto inovador porque a história da umbanda em Londrina ainda não foi registrada. “Ela está viva pela história oral, só que essa história oral precisa ser registrada para que fique para a posteridade.”

“A importância não é só local, mas regional e até nacional porque Londrina é a segunda maior cidade do estado do Paraná e um polo no Norte do Estado e umbanda tem relevância, peso, importância na cidade. Os terreiros de umbanda de Londrina fazem um trabalho muito importante de acolhimento da população”, ressalta Fernanda.

Para ela, um dos desafios da pesquisa é conseguir alcançar todos os terreiros do município, já que Londrina é uma cidade com grande contingente populacional. “Por isso contamos com a divulgação do projeto entre a comunidade umbandista e a população em geral.”

Com informações do N.Com

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