O Rio sobreviverá

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Enquanto esperava o Sol da manhã deste dia, “…Porque hoje é sábado…”, vi contas.

Antes usávamos nossa inteligência e decoreba nos somatórios, nas multiplicações, subtrações – palavra muito em voga no Brasil e em especial no Rio de Janeiro, quem o diga o Ministério Público Federal e Estadual – e divisões. Meio a meio, 10%, quinzinho, Malaquias…

Achava um saco a caligrafia, a tabuada então… até hoje faço contas nos dedos (desde sempre – quem não?), benditos dedos que mais parecem um soroban.

Nos anos 1970 e 1980, ostentação mesmo era ter uma HP. Aquela história do ‘enter’ era de lascar. Havia necessidade de se fazer um curso básico, só para tirá-la da capinha marrom. Utilizá-la só para os doutos filhos de Pitágoras e Turing.

Por cá tínhamos os recém-chegados Cássios, relógios multifuncionais; marcavam horas, tinham alarmes e, pasmem, faziam contas. Ostentação é pouco diante de tantas funções. Comprávamo-los na Caneta Moderna da galeria do Avenida Central. Tudo bem, nada de operações complexas ou equações integrais, ou diferenciais. Quebravam um galho na hora de conferir um troco, somar as compras do supermercado, multiplicar os pontos do biribinha básico, na casa dos amigos e, dividir a conta do boteco da esquina.

Vieram os celulares e neles embarcados as calculadoras. Complexas, capazes de fazer cálculos mais intrincados ainda. Aposentamos as maquininhas de R$ 1,99 compradas na Rua da Alfândega, 25 de Março ou Santa Efigênia. Afinal, por mais finas que chegaram a ser, o celular manteve ‘tudo ao mesmo tempo agora’.

Rodaram e rondaram em minha cabeça, equações, Euclides, Einstein, integrais, Cecil Thiré,  teoremas, Pitágoras, Descartes, ‘A Mágica do Saber’, Teorema, Pasolini, Malba Tahan, 1º grau… talvez sono da noite mal dormida, talvez devaneio, talvez maresia do vizinho insone.

Parece que na Cidade Maravilhosa, o teorema prático é multiplicar sem somar ao povo tão sofrido, dividir a comissão que, outrora foi de frente, encimada pelos baluartes do samba, vivenciada pelos mestres bambas, coreografadas, atualmente, pelos mais experientes corégrafos, somar ao saldo bancário e adicionar mais um bem a coleção de tantos.

É tanto descalabro, é tanta insensatez, tantas contas multiplicadas em percentuais, que o diga Quinzinho, rachadinhas meio a meio, ou, quem sabe, muito mais. Divisões na calada da noite, números/valores estratosféricos, somatórios de pares, noves fora, ímpares também, dez por cento, um verdadeiro MMC na vantagem do MDC. É a Lei de Gerson. Maldita Lei.

Tem a história dos conjuntos, que aprendemos juntando patinhos e marrequinhos, das frações – a velha e cansada pizza, dos números naturais… pizza? Hummm, pizza, ‘prá’ tudo se acabar na quarta-feira, numa batucada maneira, ali na esquina da desilusão com avenida Barnabé. Velhos Ademares!

A quem reclamar? Ao bispo? Não, ao bispo não! É ‘pra’ lá de uma má ideia. Ao juiz? Vejamos Provérbios: 24:24 “Um juiz que declare inocente um malfeitor será condenado pela sociedade e repudiado pela nação.” Valendo?

Oh Mestre, fazei com que se calcule mais: adicionar que ser adicionado, somar que ser somado, dividir com quem, de fato, necessita, adicionando sempre. Multiplicar em prol de outrem totalmente desprovido e, de forma alguma, subtrair jamais.

Do jeito que a coisa anda, não sobrará ninguém para apagar a luz e fechar a porta. “…Como alguém que lhe apagasse a luz/Vedasse a porta e abrisse o gás…”.

O Rio sobreviverá!

Prevenção do suicídio fiquemos atentos – CVV ligue 188.

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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