Abertas inscrições para grupo terapêutico só para homens em Londrina

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Sessões serão quinzenais e terão valor social de R$ 60 por mês; objetivo é reunir diversas vivências num único espaço para debater masculinidade

Mariana Guerin

Foto em destaque: Pixabay

Terá início no próximo sábado (19) um grupo terapêutico exclusivo para homens cis e trans, mediado pelo psicólogo Matheus Fortes. O encontro acontecerá quinzenalmente em Londrina e os participantes poderão pagar uma tarifa social de R$ 60 mensais. Haverá possibilidade de bolsas para quem não puder contribuir. As inscrições podem ser feitas pelo WhatsApp (43) 99951-6878.

Matheus Fortes é psicólogo e psicanalista e cursa Mestrado em Masculinidades pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ele explica que o objetivo de um grupo terapêutico consiste na promoção de um espaço de escuta, acolhimento, diálogos e trocas sobre questões pessoais, subjetivas e também sociais, estruturais e, portanto, coletivas.

“No espaço de um grupo terapêutico é possível estabelecer processos de identificação em que, a partir da fala do outro, de alguma experiência ou situação que este outro tenha vivenciado, é possível que eu me veja em situação parecida ou já tenha passado por aquilo e que, a partir dos desdobramentos desses diálogos, possa se estabelecer um processo de aprendizado, de ressignificação das nossas próprias concepções sobre a vida e sobre o mundo.”

Em suas pesquisas e vivências como psicólogo clínico, Matheus aprendeu que o ideal hegemônico de masculinidade e virilidade que perdura nas sociedades há séculos é pautado principalmente na violência, invulnerabilidade (síndrome do Super-Homem) e no silenciamento e repressão das questões subjetivas de sofrimento psíquico.

“Viver sob a égide deste ideal culminou numa crise de saúde pública, da qual os homens são o público-alvo com maior predominância”, opina o psicólogo, citando que os homens também apresentam maiores índices de dependência de álcool e outras drogas quando comparados às mulheres.

“Além disso, têm uma expectativa de vida de sete anos a menos e apresentam maiores índices de distúrbios emocionais como ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Os homens também apresentam maiores índices no número de suicídios e de mortalidade por causas externas, principalmente em acidentes automobilísticos.”

Matheus reforça que, no grupo terapêutico, o participante pode desabafar sobre qualquer questão sem medo de represálias, cancelamento ou julgamento. “A ideia é que possamos aprender uns com os outros e que possamos produzir outros sentidos, diferentes daqueles que nos foram impostos durante nossas existências.”

“É imprescindível que se estabeleça uma dinâmica coletiva de respeito, sinceridade, parceria, transparência e responsabilidade uns com os outros. E que, desta forma, o grupo possa contribuir de alguma maneira para a melhoria da qualidade de vida não só dos homens, mas da população como um todo”, declara.

A ideia da formação de um grupo terapêutico direcionado para homens em Londrina surgiu da própria trajetória do coordenador como homem, pai, psicólogo e pesquisador no campo de estudos feministas, de gênero e das masculinidades.

“Nessa trajetória, em contato com mulheres feministas, com militantes LGBTQIA+, com livros e materiais que problematizam questões de gênero e sexualidade, percebi que uma das principais características da masculinidade hegemônica, aquele ideal limitante que define o ser-homem, é o silêncio, ou seja, o não-dizer sobre os próprios sentimentos, angústias, alegrias e tristeza e que este silenciamento tem efeitos nefastos na vida dos homens e das pessoas convivem com eles”, justifica Matheus.

Ele também passou a analisar os diálogos entre a maioria dos grupos de homens pelos quais circula e percebeu uma pobreza simbólica de assuntos, que giram sempre em torno das mesmas temáticas: futebol, dinheiro, trabalho, carros, pornografia e objetificação das mulheres. “Além das rivalidades que são representadas pelo constante bullying de uns com os outros e das piadinhas homo/transfóbicas, machistas, misóginas e assim por diante”, cita.

De acordo com o psicólogo, as demandas são diversas, porque as masculinidades são diversas. “A demanda de um homem branco classe média é completamente diferente da demanda de um homem preto de periferia. A demanda de um rapaz de 20 anos é distinta da demanda de um homem de 72. Assim como a demanda de um homem trans tem suas particularidades e a demanda de um homem cis também.”

“Mas existe sim um pano de fundo em comum que é o que a masculinidade hegemônica impõe. Ela, como todo ideal, está aí para ser alcançada. Mas a partir do momento em que esse ideal é alcançado, ele deixa de ser um ideal e está sempre se modificando para que não seja alcançado, ou para que seja alcançado apenas por uma minoria detentora de inúmeros privilégios”, explica Matheus.

Ele cita algumas características da masculinidade hegemônica: “Para ser aceito socialmente como homem sem sofrer nenhum tipo de pressão, violência ou exclusão, eu preciso basicamente de um emprego bem remunerado, de um carro, de um corpo musculoso e, de forma alguma, eu não posso brochar.”

“Resumidamente, estas são as características necessárias para ser considerado um homem viril. Mas é importante ressaltar que questões étnico-raciais, de gênero e sexualidade também influenciam bastante nos processos de violência que muitos homens sofrem por serem negros, gays, trans num país extremamente conservador e racista”, frisa.

Machismo estrutural é a causa da angústia masculina

Ele reforça que apesar de as demandas que chegam na clínica serem diversas, existem alguns pontos em comum por trás do sofrimento e angústia dos homens. “Problemas que estão relacionados principalmente a insatisfações com suas performances nos âmbitos da sexualidade e do trabalho, questões familiares, conjugais, sobre paternidade, bullying e outras inúmeras violências e traumas que sofreram e praticaram em suas vidas.”

“Isto ocorre por conta, principalmente, do machismo estrutural, que nos ensina desde cedo que para ser ‘homens de verdade’ precisamos ter valores morais específicos e seguir determinadas regras de conduta. Acredito que o caminho seja questionar: o que é ser homem de verdade? Vale a pena ser homem de verdade? Será que talvez o caminho que temos que percorrer não deva ser o caminho oposto? Talvez devamos não nos preocupar em ser ‘homens de verdade’, mas sim em sermos menos ‘homens de verdade’”, argumenta.

Ele destaca que houve um agravamento das doenças psíquicas na pandemia em toda a população brasileira e que entre os homens ele é menos comentado porque eles sequer reconhecem a pandemia como um agravante do adoecimento.

“A gente tem que fazer todo um trabalho de percepção porque existe uma ideia individualista, bem articulada pela lógica neoliberal, de que nós somos responsáveis pelas nossas próprias vidas e, portanto, nós somos responsáveis pelo nosso próprio sofrimento. Não necessariamente. Nós estamos inseridos em determinados contextos sociais, políticos, econômicos, então tem uma série de fatores que contribuem para o nosso adoecimento psíquico e a pandemia foi fator determinante para esse agravamento”, avalia Matheus.

Terapia em grupo: homens devem se encontrar em suas diferenças

O grupo terapêutico propõe dois encontros por mês, no Espaço Justo Coworking (Avenida Duque de Caxias, 1726, sala 115). A princípio estará aberto para oito participantes e se a demanda for maior, será aberto um novo grupo. “Para aqueles homens que não tiverem a possibilidade de pagar pelo meu trabalho, isso não será um empecilho, muito pelo contrário, serão muito bem-vindos”, avisa o psicólogo.

Ele reforça que a ideia é que os homens se encontrem em suas diferenças, sejam eles cis, trans, LGBTQIA+, negros, indígenas.

“Essa ideia de que a gente tem a mesma vivência é uma ideia generalista. Cada sujeito tem a sua própria história de vida, que é distinta da dos demais. Claro que a gente sempre tem um pano de fundo em comum entre homens cis e entre homens trans, mas a ideia não é discutir de forma separada.”

“Até quando a gente vai ficar tentando separar algo que é inseparável? Nós vivemos em sociedade e as nossas atitudes têm efeitos nas vidas das pessoas. Vão ser muito interessantes essas trocas, essas vivências, esses diálogos, que vão ser estabelecidos ali”, afirma o psicólogo, reforçando que o grupo será um espaço coletivo para eles cuidarem da saúde mental.

“Seria muito mais rica a participação de homens cis e homens trans juntos numa roda de conversa. Pessoas cis têm que discutir transgeneridade e as pessoas trans já vivem criticando a cisgeneralidade, então a gente tem que conversar sobre o gênero, para que a gente possa desconstruir, desmistificar preconceitos, medos, receios, traumas.”

Para Matheus, a importância da terapia está em saber nomear sentimentos, algo que, para os homens, ainda é tabu. “Quando o ser humano está em um estado de sofrimento, fica tudo mais difícil e quando a gente está angustiado, é difícil viver e por isso é difícil se relacionar com os outros e consigo mesmo, ainda mais se a gente fala de masculinidade.”

“Muitas vezes não há espaço para a fala masculina, muitas vezes não há espaço para o sofrimento e quando a gente não lida com esse sofrimento, quando não procura se defrontar com ele, esse sofrimento continua lá, sem ser elaborado, e a gente não caminha, fica sempre preso na mesma questão, repetindo pensamentos.”

Fala ajuda a identificar sentimentos

“O processo de terapia é imprescindível para a construção de uma autoestima, para o fortalecimento da autoconfiança e quando a gente está bem com a gente mesmo, a gente muda com outro, se abre mais, e ficamos menos presos às nossas inseguranças”, descreve Matheus.

“As pessoas têm ideia de que a terapia vai resolver todos os problemas, mas não. Na terapia, a gente vai aprender a lidar com as nossas questões, vai aprender a identificar elementos que colaboram para o nosso sofrimento e vai saber conviver com as próprias angústias e medos.”

“Angústia é aquilo que a gente não consegue nomear e é através da fala que a gente aprende a identificar o que está sentindo. Principalmente os homens não sabem nem nomear os sentimentos e é a terapia que vem dar esse espaço. A partir do dizer, nós vamos nos tornando pessoas mais conscientes da nossa própria história e assim a gente vai tendo mais possibilidade de seguir por outros caminhos, de se relacionar conosco e com os outros de formas diferentes”, ensina o psicólogo.

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