Opinião: Júri faz justiça, ainda que tardia, a Vanessa e Cenira

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José Laurentino da Silva Primo foi condenado hoje a 12 anos de prisão, 11 anos após os crimes

Por Néias-Observatório de Feminicídios Londrina

Em um julgamento sem as presenças das vítimas nem do réu, na manhã de hoje, José Laurentino da Silva Primo foi condenado pelo Tribunal do Júri da Comarca de Londrina a 12 anos e 6 meses de reclusão e 7 meses de detenção pela tentativa de homicídio duplamente qualificado de Vanessa Cristiane Batista Gomes e pelo crime de lesão corporal contra sua ex-sogra, Cenira Batista Gomes.

A sentença chega 11 anos após os crimes; atrasada, como tudo neste processo. As duas mulheres foram atacadas por José Laurentino em 6 de outubro de 2010, com uma garrafa quebrada. Vanessa e Cenira não foram encontradas para receberem as intimações para o júri. Sabe-se que saíram de Londrina em busca de proteção e, 11 anos depois, não sabemos sequer onde estão vivendo, provável estratégia delas para garantir a própria segurança.

Os jurados puderam ouvir as vítimas em depoimentos gravados em 2018, já quase uma década após os crimes. Ouvimos uma Vanessa emocionada dizer: “Ele nunca gostou de mim. Isso não era amor”. Amor não mata; sequer tenta matar.

A ausência das vítimas foi apontada como “falta de interesse” pela defesa do acusado, que também tratou de desqualificar tanto as lesões sofridas quanto a violência existente no relacionamento de Vanessa com José Laurentino. Chegou a suplicar pela absolvição diante da ausência das partes interessadas e da “necessidade” do acusado de seguir sua vida com a nova família.

Como bem lembrou a assistente de acusação, estamos em uma sociedade machista, que ameniza a violência contra as mulheres para que homens possam seguir suas vidas em paz. Os jurados – cinco mulheres e dois homens – tiveram esse entendimento ao reconhecer que os danos psicológicos de uma tentativa de feminicídio*, e mesmo de uma lesão corporal, não são breves, não se esvaem com o tempo.

Néias-Observatório de Feminicídios Londrina vê a condenação de hoje como uma resposta adequada à violência de gênero contra as mulheres e clama por mais celeridade nos trâmites dos processos, para que Vanessas e Ceniras não precisem se esconder por décadas para se sentirem sob proteção.

*O crime ocorreu antes da existência da Lei do Feminicídio, mas tem todas as suas características

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