‘Trabalhadora da educação não é cuidadora de crianças’

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Bate-papo realizado pela APP Sindicato e Prefeitura debateu a identidade da mulher trabalhadora da educação e a naturalização da dupla jornada

Mariana Guerin

Foto em destaque: Lucas Fermin/Seed

O encontro “A Identidade da Mulher Trabalhadora na Educação” discutiu, na manhã deste sábado (5), em Londrina, o papel e a falta de protagonismo da mulher no mercado de trabalho, em especial as construções sociais em torno da educação.

O bate-papo foi transmitido, ao vivo, pelo Facebook da APP Sindicato Londrina (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná), que organizou a ação em parceria com a Secretaria da Mulher Trabalhadora e Direitos LGBT+. A mesa intitulada Vozes Plurais também integra a programação do Mês da Mulher, da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (SMPM), com apoio do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (CMDM).

Participaram da mesa a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Liange Doy Fernandes, a vereadora Lenir de Assis e a professora adjunta da Universidade Estadual de Londrina (UEL) na área da Educação Adriana Farias.

Entre as participantes também estavam a advogada trabalhista, sindical e previdenciária Luara Scalassara e a dirigente regional da Secretaria de Formação Política Sindical e Cultura da APP, Sueli Lopes. Elas discutiram a identidade da mulher trabalhadora da educação, que ainda é vista como cuidadora pela sociedade, e a naturalização da dupla jornada.

Trabalhadora da educação: ‘Docência é vista como trabalho improdutivo’

Para a advogada Luara Scalassara, além de importante para a sobrevivência do indivíduo, o trabalho é uma indicação de pertencimento e autorrealização. “É uma expressão de vida, de escolhas e desempenha um papel central na identidade da mulher.”

Ela pontua que a entrada da mulher no mercado de trabalho tem sido um processo contínuo desde a Revolução Industrial, que marcou também a naturalização da dupla jornada. “Mesmo a mulher tendo conquistado esse espaço do trabalho, não foi possível a ela flexibilizar as atividades que ela desempenhava até então. E começou a exercer a dupla e até a tripla jornada.”

Segundo Luara, hoje mais de 50% das brasileiras estão inseridas no mercado de trabalho e a profissão de docente nasceu como um prolongamento do trabalho materno, assim como o trabalho doméstico, que ainda são vistos socialmente como empregos improdutivos e incapazes de gerar capital. “Por isso a docência, em muitos aspectos, ainda é desvalorizada e sofre com a falta de infraestrutura.”

Com relação à educação infantil, a mulher ainda é vista como cuidadora das crianças. “Ainda existe uma visão romantizada de que a mulher deve educar e cuidar e fazer isso por amor, como se as necessidades de sobrevivência dessas mulheres não fossem gritantes. É um trabalho essencial e que precisa ser muito bem remunerado”, opina a advogada.

Ela questiona o fato de o trabalho de educadora ser definido como uma vocação feminina. “Esse discurso naturaliza uma hierarquia de papeis na sociedade e não podemos ser coniventes com isso. Precisamos nos fazer presentes nas lutas femininas, principalmente em reconhecimento de direitos.”

Luara explica que até a década de 1980, o magistério era considerado um ofício especial, que garantia aposentadoria às professoras após 20 anos de atuação. Essa lei foi modificada e hoje a mulher precisa exercer o trabalho exclusivo de professora por 25 anos para poder se aposentar. “É um retrocesso que mostra a perda de direitos que antes eram respaldados pela Justiça do Trabalho, já que a profissão é bastante desgastante.”

De acordo com a advogada, a desigualdade em ambiente de trabalho é mais visível quando se trata de critérios objetivos, como o salário e o reconhecimento da penosidade da atividade, mas é preciso pensar nas questões da desigualdade de gênero, que são subjetivas.

Luara cita que a pesquisa Percepções sobre a Violência e o Assédio Contra Mulheres no Trabalho, realizada em 2020 pelo Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva, aponta que 76% das mulheres já foram vítimas de violência no ambiente de trabalho. Durante a pandemia, 34% das mulheres perderam o emprego, 44% tiveram redução salarial, 56% tiveram redução de jornada e salário e 64% ficaram com medo de perder o emprego.

“Esses dados mostram a precariedade e a desvalorização da mulher e que em momentos de crise, quem mais sofre são as populações mais vulneráveis. Ter a clareza da identidade como trabalhadora da educação é primordial, pois essa identidade tem que ser vista também como uma identidade política.”

“É preciso ser intolerante a qualquer tipo de precarização, violência de gênero e lutar pela inclusão efetiva de mulheres trans, negras, indígenas, pobres, cisgênero, com deficiência, enfim, de todas as mulheres”, propõe a advogada.

‘Merecemos ocupar os lugares que ocupamos’

A secretária Liange Fernandes questionou o fato de as gerações crescerem sem saber o verdadeiro papel da mulher na sociedade. “Somos várias, somos múltiplas. E não devemos favor a ninguém. Lutamos por nossas conquistas e merecemos ocupar os lugares que ocupamos.”

Ela destacou os 30 anos da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres de Londrina, celebrados este ano. “Londrina se preocupa com essa mulher vítima de violência doméstica. Até pouco tempo atrás, nós não poderíamos estar aqui, falando sobre nossos direitos, sobre as nossas conquistas. Tem muitas mulheres que ainda hoje não podem estar aqui porque não as deixam. As têm como posse, como propriedade.”

“E a nossa secretaria trabalha justamente para que as nossas mulheres se reconheçam como detentoras desses direitos, porque nós temos direito a uma vida sem violência, temos direito a trabalhar, temos direito a viver”, diz Liange, citando os programas municipais de acolhimento a mulheres vítimas de violência, que promovem a inserção delas no mercado de trabalho.

Causa da sub-representação feminina está no patriarcado

A vereadora Lenir de Assis lembrou que este ano também são comemorados os 90 anos da conquista do voto feminino no Brasil. “Nossa luta vale a pena e tem que ser celebrada”, declarou a vereadora, citando a ousadia da professora Celina Guimarães Viana, que foi à Justiça, em 1927, pleitear o direito de votar, antes mesmo dele ser aprovado, em 1932.

Para Lenir, vivemos uma luta de classes e um momento de retrocesso de direitos e conquistas e de muito ódio e violência contra mulheres, negros e população LGBTQIA+. “Querem nos tirar o direito de sonhar, de sorrir, de planejar nossas famílias, nossa juventude.”

“Essa luta por direitos é de longa data, mas as mulheres não ocupam esse lugar invisível onde querem colocá-las. Elas lutam e fazem com que a luta seja de outras que vêm à frente”, afirma a vereadora. Para ela, conversar com a juventude é fundamental “para que saibamos, exatamente, quem quer nos oprimir”.

“Que cada uma de nós possamos ser articuladoras de outras e outras e outras, para que essa luta continue e nós possamos avançar na conquista dos nossos direitos. Nenhum direito a menos”, completa a vereadora.

Ela tem por objetivo estimular mais mulheres a fazerem política. “Ao mesmo tempo em que somos a maioria do eleitorado brasileiro, 53%, estamos entre os países com a menor participação feminina na política. Entre 192 países, ocupamos o número 142.”

“Reconhecemos as causas dessa sub-representação, que é o patriarcado, a desigualdade estrutural política, a desigualdade de gênero e as mais variadas formas de discriminação. Essa é a realidade contemporânea da mulher na política brasileira”, aponta Lenir.

‘Mulher deve existir sem pedir desculpas’

Para a professora Adriana Farias, “a mulher deve existir sem pedir desculpas”. Ela lembra que a universidade nem sempre foi um espaço de direito para as mulheres, por reproduzir uma ordem capitalista, mesmo a escola sendo um espaço de transformação social.

Para Adriana, são inúmeros os instrumentos de opressão criados pela política atual “para que se cumpra um projeto de sociedade, de ser humano, de educação voltado à classe burguesa, que nos impõe, cotidianamente, a forma de pensar, de fazer, de cumprir as nossas atividades”.

A professora reforça que a educação infantil não pode ser naturalizada como uma escolha das mulheres, por sua condição de mãe. Segundo ela, isso é reflexo do capitalismo e deve ser combatido. “Lutar contra o machismo é ser anticapitalista.”

“É fundamental que as nossas lutas estejam pautadas na desnaturalização do que as mulheres devem sentir, do que elas devem cumprir, dentro de um modo de ser histórico, de uma organização familiar monogâmica nuclear burguesa. Precisamos pensar que essa organização pode ser feita de diferentes formas.”

Pesquisa comprova feminização do magistério

A professora de História Sueli Lopes apresentou uma pesquisa autoral sobre a participação feminina na política, em especial no sindicalismo. Ela estudou oito militantes paranaenses, com recorte geracional, desde a década de 1980 até 2020.

A pesquisa comprovou a tese de feminização do magistério, já que apenas 38% dos professores do Ensino Fundamental e 40% do Ensino Médio do Paraná são homens. Ainda segundo o estudo, desde sua criação, em 1947, a APP Sindicato teve apenas cinco mulheres na presidência, em 29 gestões.

“São homens falando para mulheres. É o machismo se impondo numa área majoritariamente composta por mulheres. Mas as servidoras engajadas resistem apesar da opressão”, opina Sueli.

Segundo ela, o sindicato é um instrumento de luta e resistência para a discussão de políticas sociais e políticas públicas. “A resistência é diária em defesa da educação pública, gratuita e laica, antirracista, não-sexista e não-misógina. Sonho pela sororidade, que é construída, de fato, pelas mulheres de mãos dadas, fortes na resistência e na empatia, contra qualquer tipo de violência”, finaliza a professora.

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