Viver a ilusão de que ser homem basta?

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Um desejo só não basta, não mesmo!

Não bastam músicas enaltecendo a mulher, não bastam poemas enobrecendo a beleza e a delicadeza da mulher, aliás é sempre isso, sempre esses “predicados” são valorizados e enobrecidos. Não bastam textos e crônicas enumerando as “qualidades” das mulheres. Não bastam matérias e mais matérias relatando os “feitos” praticados por mulheres… Nada disso basta se, de fato, todo o machismo arraigado e disfarçado ainda está presente. De que adianta tantas belas palavras se a misoginia e o sexismo continuam latentes como o ovo da serpente?

Será mesmo necessário que “…Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória/Mudando como um deus o curso da história/ Por causa da mulher...”, como encantou Gilberto Gil? Será necessária uma “Receita de Mulher” descrevendo “As muito feias que me perdoem/Mas beleza é fundamental...”, Vinícius? Será que precisamos de uma “porção mulher” para entender a alma de outro ser humano? Será que o “eu não sou machista, mas… isso é coisa de mulher” continuará imperando? Será que o “eu não sou sexista, mas só podia ser mulher ao volante…” se manterá perpetuado? Será que o “eu não sou misógino, mas ela é cheia de mi-mi-mis, também pudera: é mulher, né…!” se manterá eternamente? Será que uma delicadeza ou gentileza será sempre “sinal verde” para uma cantada cafajeste, desrespeitosa e inconveniente? Será, que será?

Hoje é um dia para se lembrar que há outros 364 Dias Internacionais da Mulher, porque todos os dias devem assim ser. Hoje eu não vou dizer o quanto você é incrível por ser mulher! Você que é avó, guerreira, mãe – muitas vezes pai também -, companheira, trabalhadora, namorada, deusa, amiga, colega, musa, conhecida, tia, madrinha, amante… Hoje eu não vou dizer o quão você é incrível na sua dupla jornada – algumas vezes tripla – nem sempre, ou melhor, na maioria das vezes, mal remunerada em relação aos homens [por que?]. Hoje eu não vou dizer que você é ímpar na sua pluralidade, que você é singular na existência plena. Hoje eu não direi que até a “Flor do Lácio” é machista onde sempre prevalece o masculino. Hoje eu não direi que, não é só hoje, mas nos outros 365 dias, de anos bissextos, e 364 dias de anos comuns, devo lhe render homenagens e gritar vivas e mais vivas aos quatro cantos do Universo.

Hoje não lembrarei que a existência masculina se dá única e exclusivamente pela sua essência e por meio do teu ventre sagrado. Hoje não farei apologia à igualdade de direitos. Hoje não renderei eloquência a Clara Zetkin e Alexandra Kollontai pela sugestão de uma jornada anual de manifestação pelo direito de voto para mulheres. Hoje não direi que “não é não”, que “seu corpo suas regras”, “que suas roupas e seu jeito de vestir” não são passaporte para investidas grosseiras, abusivas e violentas.

Hoje não direi que é necessário acabar com a culpabilidade da vítima e lembrar que, em qualquer circunstância, ELA É VÍTIMA! Hoje eu não direi que esta data internacional é significativa e marcada por grandes vitórias há mais de 100 anos. Hoje não lhe darei parabéns! Hoje não mandarei um buquê de flores colhidas a pouco. Hoje eu não mandarei uma caixa de chocolates “Godiva”. Hoje não enviarei presentes, distribuirei rosas, não farei discursos, não escreverei odes às ninfas e sacerdotisas. Hoje não citarei nomes antológicos como Bertha Lutz, Chiquinha Gonzaga, Mietta Santiago, Carlota Pereira de Queirós, Maria da Penha, Juliana Faria, Zezé Motta, Pagu, Nise da Silveira, Laudelina de Campos Melo, Rose Marie Muraro, Leila Diniz, Nisia Floresta, Lota de Macedo Soares, Elizabeth Bishop, Ruth de Souza, Nair de Tefé, Marielle Franco, Celina Guimarães Viana… Hoje não farei nada disso, absolutamente nada…

Hoje eu me aproprio de Nise da Silveira: “É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade…” e de Renato Russo: “…Sou fera, sou anjo e sou mulher/Sou mãe e filha, /Sou tua deusa, meu amor/Do ventre nasce um novo coração…”.

Hoje olho para a imagem que captei, num amanhecer, na praia de Copacabana, encantadora de Dick Farney. Olho fixamente para a “Moça dos Sonhos Sonhados”, mais uma guerreira em devaneios. Ali em seus pensamentos perdidos no horizonte solar da manhã, suas esperanças num futuro de igualdade e sabedoria, suas quimeras. Torço que não sejam utópicas, que representem realidades de vida e existências soberanas.

Hoje homenageio Dona Margarida, minha mãe, que tanto orgulho me traz pela luta em prol da inclusão a surdocegueira em nome de todas as mulheres!

Hoje apenas resumirei meu bom fim de semana a uma única palavra; RESPEITO!

*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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