‘Como Elas Fazem’ mapeia mulheres trabalhadoras da cultura em Londrina

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Banco de currículos servirá para articular profissionais da área técnica do setor na cidade; projeto também lançou podcast com histórias de produtoras culturais de destaque no cenário local

Mariana Guerin

“Como Elas Fazem” é um projeto idealizado pela produtora cultural Marina Bigardi, que pretende mapear e articular mulheres trabalhadoras da cultura em Londrina, com o apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). Uma das principais ações do projeto é a criação de um banco de currículos. A ideia surgiu enquanto Marina gravava um podcast com cinco produtoras culturais de destaque no cenário local.

“A ideia do projeto é ser um exercício de observação do cotidiano de trabalho, de perceber a escassez de mulheres nas fichas técnicas nos ambientes de trabalho da cultura, seja no set de filmagem, nas áreas técnicas de um festival, e notando, também, a dificuldade de mulheres que querem entrar na cultura, mas não conseguem”, resume Marina.

A primeira ação do “Como Elas Fazem” foi entrevistar mulheres de destaque na produção cultural local e disponibilizar este conteúdo por meio da gravação de um podcast. A escolha das participantes teve como critério diferentes linguagens artísticas, com o intuito de inspirar a entrada de novas mulheres no mercado a partir das experiências práticas de quem já atua na área, além de discutir a questão de gênero.

“A partir das conversas do podcast surgiu a ideia de fazer um grande banco de currículos, esse mapeamento das mulheres para a articulação, com envio desses currículos para coordenações de festivais e projetos e ONGs”, destaca a coordenadora.

O podcast foi lançado na última segunda-feira (7), com cinco episódios que contam a história das produtoras culturais Ana Karina Barbieri (teatro e música); Claudia Silva (cultura popular e tradicional), Danieli Pereira (dança e teatro), Fran Camilo (audiovisual) e Thalita Deldotti (música). Ele pode ser acessado nas plataformas Spotify, Youtube e Google Podcast.

A própria Marina foi quem conduziu as entrevistas. Em cada episódio, uma convidada compartilha suas experiências e, além de discutirem “como elas fazem”, elas debatem sobre os enfrentamentos de gênero na profissão e dão dicas para mulheres que desejam fazer parte do setor.

“A ideia é fazer uma frente de conexões e a articulação entre as próprias mulheres. Tem uma frente de formação e outra de distribuição de conteúdo. A ideia é que esse projeto se expanda e consiga virar oficina, consiga virar um festival produzido só para mulheres”, sugere Marina.

Ela destaca que o projeto não pretende excluir os homens, mas favorecer um cenário nunca visto, como um grande festival feito só por mulheres em todas as funções, por exemplo. “O objetivo do projeto é disseminar conteúdos relativos à produção cultural, é articular a entrada de novas mulheres no mercado, é ser referência em formação, enfim, fortalecer a própria rede de mulheres que já trabalham com isso.”

‘Como elas fazem’: Londrina é polo cultural gigantesco

Entre os pontos positivos da produção cultural londrinense, Marina destaca o fato de a cidade ser um “polo cultural gigantesco”. “A gente tem vários pontos de cultura, casa de cultura, temos uma universidade, então se produz muita coisa. Claro que a gente está numa retomada, mas normalmente existem eventos a semana inteira, teatro, show, enfim, é uma cidade muito articulada artisticamente e isso é muito bom.”

Já a parte negativa está na falta de financiamento, na opinião da produtora. “Muitas vezes, os artistas não conseguem meios para realmente articular os projetos como querem e isso vira uma coisa cíclica, de não conseguir entregar todas as pessoas que são necessárias para uma produção acontecer, desde uma fotografia, alguém para ficar na bilheteria, uma cenografia, figurino.”

“Outro ponto negativo é a formação de público aqui em Londrina, o que também se espelha muito na questão social, de como as coisas estão no país. A gente não pode pensar em pessoas atendendo aos espetáculos sem garantir um mínimo de sobrevivência e de condições de desfrutar a vida básica. Se a pessoa não consegue nem se manter, é muito difícil a gente pensar que haverá tempo, energia ou condição dela desfrutar dos produtos que a cidade oferece” avalia Marina.

“Com uma quantidade gigantesca de coisas acontecendo na cidade, mesmo gratuitamente, às vezes é muito difícil formar público e eu vejo como um reflexo da situação socioeconômica do país”, completa.

Formulário servirá de banco de currículos para a indústria cultural local

Para Marina, há muitas mulheres qualificadas para o trabalho na cultura, por isso a inclusão delas no mercado é importante. “Existe uma disponibilidade de mão de obra excelentíssima, que às vezes não é considerada por uma questão de gênero ou por uma questão de que, socialmente, isso foi construído dentro de um padrão de escolher sempre as mesmas pessoas, que normalmente são homens”, critica.

Para além da atuação ou interesse em trabalhar como produtora, o formulário também é direcionado às demais áreas técnicas da cultura: iluminação, cenografia, fotografia, contabilidade, assessoria de imprensa, assessoria jurídica etc., de qualquer linguagem artística. Esse formulário não visa compor um banco de artistas (musicistas, atrizes, artistas visuais etc.), mas formar um banco de informações de técnicas da cultura, para estimular o ingresso em projetos, festivais e atividades culturais.

O formulário serve para fazer esse mapeamento: ver onde estão as mulheres, o que elas estão fazendo, ou o que elas querem fazer, para mapear pessoas interessadas e distribuir isso para as coordenações e ONGs. No Instagram do projeto (@comoelasfazem), é possível encontrar um link para o formulário e outros conteúdos de apoio, como oficinas e materiais de estudos.

“A importância desse formulário é mostrar a disponibilidade dessa mão de obra, mostrar as possibilidades de trabalhar com essas mulheres, que há muitas pessoas e que elas estão prontas. Isso em termos numéricos pode ser bastante expressivo para a construção das políticas públicas, para começar a fazer exigências institucionalizadas, com condições dentro de projetos que sejam um pouco mais igualitárias e incluindo aí um percentual mínimo feminino”, propõe Marina.

A partir do mapeamento, o projeto também espera contemplar a diversidade na produção cultural, incluindo mulheres trans, pessoas negras, pessoas com deficiência. “Que isso também se expanda em termos de diversidade e como um todo, não em grupos minoritários. Eu acho que com o bom apontamento desses dados, a gente vai levantar as próximas ações”, finaliza.

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