O homem que alimenta e encanta pardais

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Foi numa manhã veraneada, onde o Sol não deu muito as caras, mas fez bonito por entre as nuvens, em mais um amanhecer numa empoeirada e calorenta Brasília – capital do país -, por falta de chuvas que já acumulavam ausência por tantos 15 dias, em janeiro de 2019, que percebi o São Francisco de BSB.

Encontrávamo-nos tomando café da manhã numa daquelas padarias tradicionalmente deleitosas, assiduamente frequentada por ele, aquela em que todos te dão bom-dia te chamando pelo nome e conhecem os seus gostos  especiais, ali na SQN, após uma sessão de fotos da alvorada brasiliense. Havíamos chegado, ainda na madrugada, no Congresso Nacional, para registramos os primeiros sinais do Astro-Rei junto às metades abobadadas sonhadas e realizadas por Oscar Niemeyer, de quem o Britinho, como é chamado carinhosamente pelos mais chegados ou Orlando Brito, como são assinados seus trabalhos, é fã incondicional.

Aboletados, confortavelmente, em cadeiras na área externa vermelho-alaranjadas, acompanhadas por mesas fazendo par de jarras, ricamente adornadas por porta-guardanapos em verde-neon, oferecimento da marca de goma de mascar Trident, papeávamos sobre amenidades, política, que ele conhece como ninguém. Estava na Capital Federal em sua inauguração ainda menino. Cobriu, praticamente, todas as posses presidencias por lá; foram muitas, catorze ao todo, inclusive durante a ditadura militar, de Costa e Silva a Bolsonaro.

Estávamos preparando o roteiro de visitas a alguns pontos turísticos e a ida até o Vale do Amanhecer, na cidade de Planaltina em Goiás, que abriga a Doutrina do Amanhecer, religião espiritualista cristã, para registrar uma ‘função’. Lá conheceu, pessoalmente, Tia Neiva, sua fundadora, trazida, alegadamente, pelo espírito de São Francisco de Assis – nada é por acaso –, reverenciado nesta doutrina como ‘Pai Seta Branca’, no ano que este, que vos escreve, nascia – 1959 e mantém amizades sinceras com os assessores de imprensa e frequentadores.

Após pedirmos a tradicional média, em copos americanos, com pão na chapa – ele optou pelo café puro coado como bom mineiro de Janaúba que é -, migalhas do pão torrado, deliciosamente ‘confeitado’ por generosa camada de manteiga das Gerais, começaram a se desprender daquela guloseima de encher os olhos de qualquer gourmet. Eram pequenas, porém gigantescas para os pardais que começaram a cercá-lo.  Como um ‘santo’ Brito começou a alimentá-los e a cada momento mais vinham e o cingiam à pequena distância. Havia um diálogo mental, uma troca de gestos, piados, olhares. Pairava no ar uma enorme sinergia, algo absolutamente astral em momento telúrico. Estávamos assistindo a um espetáculo sem par com exclusividade como são as imagens que produz. Quanto mais se aproximavam, os passarinhos, mais, propositadamente, era esfarelado o pão, trigo renovador da natureza, alimento energético com doses lautas e borbotoantes de amor e carinho.

Brito está e estará infinitamente vivo em meu coração, em nossos longos diálogos às sextas à tarde e no almoço dos sábados no Piantella, em suas incríveis histórias de jornadas fotográficas pelos rincões desta imensa Terra Brasilis, na grandiosa vivência, em 72 anos, de existência terrena. Da sua ‘implicância’ para que ficássemos sempre em sua casa, onde cedia a suíte, por si habitada, em nossas estadas na Capital, e das ‘brigas homéricas’ se assim não o fizéssemos.

Das narrativas acerca do trabalho magnânimo de Lúcio Costa, Burle Marx, Athos Bulcão e, o seu preferido, Niemeyer. Das citações e contribuições de Juscelino Kubitschek para a grandiosidade deste país-continente, do ‘círculo de fé’ do Templo da Boa Vontade e da incrível foto junto ao anjo nos vitrais, ângulo perfeito descoberto por ele, da visita ao Mosteiro Budista e o retine do címbalo em horas exatas que ele guardava de cor e salteado, da Capela a Nossa Senhora de Fátima pérola alada, da pirâmide em homenagem a Dom Bosco, das ‘cobranças’ de minhas crônicas para seu portal, “Os Divergentes”, do carinho e cuidado que tinha para sugerir alguma correção em alguma imagem ou texto.

Brasília não é mais a mesma sem vê-lo de Sol a Sol, segunda a segunda na lida fotográfica, nenhuma coletiva terá o mesmo sabor. O Brasil não é mais o mesmo sem as suas imagens grandiosas, quer sejam documental, política, indígena ou de paisagens paradisíacas.

Britinho é daqueles seres humanos tão únicos que O Criador dispensou a fôrma e só Ele tem a fórmula, guardada a sete chaves, cujo fiel depositário é São Pedro. Em paráfrase da querida fotógrafa Marlene Bergamo: “Brito e Dida (recém-falecido) devem estar agora planejando como fotografar Deus e dar um furo intergaláctico. Vocês fazer falta por aqui, meninos.” Nada traduz melhor estes sagazes rapazes latino-americanos.

Orlando Brito: o ser humano que alimenta e encanta pardais, como São Francisco de Assis, no Planalto Central. O Poeta da Luz que escreve com suas Leicas a história deste país. O amigo incondicional que gargalhou inúmeras vezes conosco e nós com ele. Brito: sinônimo de fulgor e paz!

*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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