Júri condena Marcos Bisterso por feminicídio e fraude processual

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Elaine Cristina de Brito foi morta por enforcamento em fevereiro de 2019, em Londrina, e feminicida tentou simular suicídio

Cecília França

Foto em destaque: Família de Elaine em manifestação promovida pelo Observatório de Feminicídios/Cecília França

O Tribunal do Júri condenou, na tarde de hoje, Marcos José Bisterso pelo feminicídio de Elaine Cristina de Brito, ocorrido em 3 de fevereiro de 2019, na zona Norte de Londrina. Bisterso foi considerado culpado pelo feminicídio por meio cruel e fraude processual, por ter alterado a cena do crime para simular o suicídio de Elaine. A sentença imposta foi de 19 anos de reclusão, 1 ano, 1 mês e 2 dias de detenção e 28 dias de multa.

A família de Elaine compareceu ao Fórum, onde pediu justiça e falou sobre a personalidade da mulher, assassinada aos 44 anos. Mãe de quatro filhos, Elaine é classificada pela mãe, irmas e filhas como trabalhadeira, amável e carinhosa. “Ela era uma moça muito feliz, ela se maquiava, se penteava, gostava muito de dançar. Ela era uma pessoa que trazia vida para todo lugar triste. Não tinha tempo ruim com ela. Tudo era motivo para ser feliz. Era uma mãe super amiga, defendia a gente de alma e paixão. Ela dava a vida por nós”, disse à Lume Vitória Beatriz Brito Brandão, 22, uma das filhas de Elaine.

“Espero que ele pague pelo que ele fez. Ele tirou a nossa mãe. Filho e mãe sempre tem discussão, mas a gente amava ela”, completou Beatriz, sobre a expectativa em torno do julgamento.

Elaine em foto de arquivo

Néias-Observatório de Feminicídios Londrina realizou um ato por justiça e em memória de vítimas de feminicídio em frente ao Fórum. Após a sentença, a organização emitiu nota ressaltando o apagamento do caso pela sociedade e por parte da imprensa.

“Elaine não pos fim à própria vida, como, incansavelmente, defendia sua mãe, dona Elenita, desde a data do crime, que não teve qualquer divulgação pública na época. A voz de Elaine, mulher negra e periférica, silenciada pelas vulnerabilidades em que se encontrava e também após sua morte, finalmente se fez ouvir pelo Tribunal do Júri.”, observam.

A organização comenta estratégias da defesa, utilizadas neste e em outros julgamentos, que podem vir a revimitizar as mulheres agredidas. No caso de Elaine, foi dado destaque para seu histórico de uso de entorpecentes.

“Néias observa com preocupação as tentativas (já ocorridas em júris anteriores) de associar a vítima, a partir de argumentos apresentados como “científicos”, a premissas de desequilíbrio, euforia e uso abusivo de drogas, o que teria, supostamente, contribuído para sua morte. Contudo, a mãe de Elaine ocupou este cenário com o objetivo de repor a honra de sua filha, demarcando outras narrativas sobre ela. ‘Uma mulata sadia e muito bonita’ (sic), trabalhadeira, fazia ‘bicos’ de carpinteira, manicure, pedreira e também de cuidadora de seu padrasto cadeirante.”

Para Néias o silenciamento em torno do caso decorre, em parte, da posição social ocupada por Elaine. “O silêncio da imprensa sobre o caso e a morosidade da Justiça, que levou mais de três anos para dar resposta à família, escancaram lógicas que estruturam a sociedade brasileira e que se apresentam de modo interseccional, ou seja, o machismo, o racismo e a desigualdade social.”

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