PM procurava foragido, mas matou irmão, diz mulher

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Ana Caroline garante que marido estava longe do crime e não usava arma no momento da abordagem, em Londrina

Nelson Bortolin

Foto: Fábio Brateck/arquivo pessoal

Encarregado numa empresa de revestimento de piscina de Londrina, Fábio Brateck, de 32 anos, foi morto pela Polícia Militar, no último dia 15, numa perseguição que, na verdade, seria para encontrar um irmão dele. É o que afirma a viúva Ana Caroline Mariz, 27 anos.

Empregada num supermercado da cidade, a jovem alega que a PM passou o dia 15 no Jardim Paulista, zona Norte de Londrina, em busca do cunhado, que estaria foragido da cadeia desde novembro do ano passado. Ele teria se escondido na casa de uma irmã, no mesmo bairro.

Ana Caroline disse que Fábio saiu para o trabalho logo cedo. Por volta das 16 horas ela recebeu uma ligação da cunhada dizendo que havia acontecido uma morte na vizinhança e foi ao local, que já estava interditado pela Polícia. De longe, não conseguiu ver o rosto do marido já caído no chão, mas reconheceu seu tênis.

A jovem deu volta na quadra e se posicionou em outro ponto, onde conseguiu fazer o reconhecimento. Um policial deu a ela o nome do cunhado como da pessoa morta. “Eu mostrei a foto do meu marido e perguntei se era ele que estava morto.” Com a confirmação dada pelo policial, Ana Caroline teria dito: “Então vocês mataram a pessoa errada. Esse é Fábio, meu marido, irmão dele.”

A jovem conta que percebeu um constrangimento geral pelos PMs. “Fizeram uma barreira entre eles para eu não conseguir mais ver o corpo.”

Fábio foi levado para o Instituto Médico Legal (IML). “Fui para lá com meu compadre advogado e pedimos o exame de resíduo de pólvora na mão do meu marido”, afirma. O resultado, segundo ela, ainda não saiu.

A Rede Lume procurou a Polícia Militar, mas ainda não teve retorno. A programas de televisão, a corporação disse que Fábio reagiu à abordagem e teria feito disparos com arma de fogo. Os policiais teriam, então, atirado contra ele.

Para Ana Caroline, a arma foi plantada na cena do crime. Ela garante que o marido, que já cumpriu pena por tráfico, estava longe do crime desde 2014, quando foi preso. Ele saiu da cadeia em 2016. Desde então, segundo a mulher, tinha trabalho fixo, com carteira assinada e não usava armas.

Fábio deixa dois filhos, um de quatro e outro de seis anos.

INVESTIGAÇÕES

Carlos Enrique Santana, do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, diz que já foram levados ao Ministério Público, para esclarecimento, 48 casos de mortes em supostos confrontos com policiais em Londrina.

“Casos como do Raphael Bezerra da Silva (filho do jogador Zequinha) e do Gabriel Sartori levam a crer que não há punição possível para agentes de segurança pública que cometem irregularidades”, afirma.

Ele se refere a jovens mortos pelos policiais que foram considerados inocentes em juris populares.

Santana ressalta que o movimento tem pedido à Secretaria de Segurança Pública do Paraná (Sesp) que os policiais utilizem câmeras em seus uniformes para gravarem as abordagens que fazem, principalmente nas periferias. “Mas esse projeto não sai do papel.”

Em resposta à Rede Lume, a Sesp informou que participa de um grupo de trabalho liderado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, composto por secretários de Estado, que avalia a viabilidade de um projeto mais adequado em relação ao trabalho dos policiais.

“Sendo assim, no Paraná ainda não há consolidação sobre o uso de câmeras nos uniformes. A Sesp acredita que, antes de qualquer implantação, é necessário um estudo completo sobre o tema”, afirma nota da assessoria.

Segundo reportagem do UOL, a letalidade policial caiu 85% em batalhões de São Paulo com câmeras em uniformes. Leia mais

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