A cidade pulsa

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Por entre carros, automóveis, motocicletas, lambretas e caminhões, fumaça, alcatrão, fumos e betão, lá vai o malabarista, lá vem o acrobata em seu malabar diário, equilibrista da vida, bastão pirográfico. Lá vai, no vai e vem das avenidas, constante farfalhar, sonoros Paulinhos. Sinal, sinaleira, farol, saber, semáforo semafórico, aforismo funâmbulo. Assim, todos os dias na mesma encruzilhada, esquina esquecida em um canto qualquer da cidade, que já foi encanto e, no entanto, o cantar da ave brejeira, pássaro matinal, cala-se ao alvorecer. Lá vai entre faixas, recuos e meio-fio, guia, talvez sarjeta, catador encantador cotidiano de míseras moedas. Divide seu pequeno picadeiro, com os olhares atentos às mensagens via Intelsat, telas luminosas em miniatura, tal qual letreiros que anunciam um diuturno ocorrer.

Ciclovia, faixa especial, velocidade estonteante, por entre carros, árvores, buracos, crateras lunares, poças lagunares, pedestres distraídos, corredores afobados, lá vai o ciclista, pedalar cadente, estrela cintilante quando chega a noite. Acrobata em duas rodas, malabarista divinal, protetor atroz da natureza. Longas retas, paralelas passagens, despidas em pistas avermelhadas, corrente-pedal, lá vem, lá vai. Domingo garantido.

Paredes, empenas, laterais edificadas, vitrais em tinta e andaimes, arte, pura arte latente, caiadas, contam histórias, memórias da cidade, homenagem, tributo, alerta. No vai e vem ensurdecedor, são monolíticos coloridos, erguidos em paredes solidificadas por mãos calejadas, latifúndios verticalizados urbanos. O Cobra é cobra, arco-íris, talento em perfeição. Pelo labirinto de concreto, ruas são cobras esgueirando-se dentre a argamassa desarmoniosa e, às vezes, ‘blasé’. Abençoai-vos, oh Pai, eles sabem o que pintam!

Epitáfio modernista, consolação em meio ao caos, silêncio sepulcral, lápide polida, brilhante, lá vem o gato preto, lindo, intenso ébano vívido. Em 22 são 100. Tarsila, Mário, Oswald, Olívia. Encravado, sutilmente encastoado, marchetaria cuidadosa de Brecheret, Meneses, Giorgi, Franceschi, Prati, Bernardelli, Brizzolara. Necrópole Consolação que se traduz Francivaldo Gomes Popó, ávido vigilante, coração que bate mais forte, pura paixão, vencedor-professor, deixou Crateús para ser mestre em súplica cearense, sensibilidade à flor da pele, choramos juntos Militão, pai da arte em nitrato de prata, chapas delineadas em poesia luminescente.

Espelhada capital, avenida augusta, elegância em quadriláteros tórridos, magnífica, solene, majestosa, faustosas calçadas dominicais, sons crepusculares inebriantes por ti caminham. Tens a ‘narcisidade’ nas vitrines-pátio colegial, templos atuais, tempos modernos. MASP, MIS, febris, plásticos-artísticos. Trianon, verde que te quero phoenix. Zimbro, deidade serenal, verte gotas d’alma aos primeiros acordes de tua deusa Lee: “E lá vou eu”.

Ibira, empurra, Bienal, sacerdotal, total, Achiropita, Genaro, Cecília, Calvário, Sé, Bento, Lancellotti e haja fé; nunca falha. Metrô coloreado, quimeras, priscas eras, priscus primus, priscila cidade. Karijós tupinikins, maromomis, guayanás, tupinambás, kaiapós. Tibiriçá, Bartira, Ramalho, Anchieta, Nóbrega, São Francisco. Copan, Niemeyer, Cerqueira Lemos, Giuseppe, Lacombe(s), Martinelli, Lasar Segall. Chá, Efigênia, Tatuapé, Moema, Mooca, Pacaembu, Tucuruvi, Congonhas.

Rock galera, Joelho de Porco e a comédia paulistana, Angra a ira do titã mutante, meu Céu. Adoniram, flechadas oculares, Demônios Jassanienses, Mathias tanta ginga no asfalto do Pari. Nenê, quem é da Vila, conhece a Matilde e não vacila. Vai-vai levar o Tom Maior. É Gaviões, ‘orrrrra’ meuuu, loucura!

São Jorge é carioca, mas faz história no Parque. Viva Matheus, vai no embalo agradecido à Antarctica, pelas Brahmas que mandou, de graça, pelo aniversário do Timão. Parla Menino Travesso Mazzoni, Juventus, juventude Palestra Itália da rua Javari, alva-grená.

Sujinho, Bar das Putas, bela bisteca, Pinacoteca, Cinemateca. Chic bauru, Paissandu, Ita, bacalhau, pudim. Mortadela, Mercadão, virado, esfirra, coxinha, bolovo, ‘polpeta’. Maria e a feira; dois de carne, se me faz favor. Anhangabaú, Bolinha, feijão. Riviera, quase um francês de tão charmoso.

Liberdade, diversidade, prosperidade, arigatô Tomie Ohtake! Cidade convertida, Apóstolo Tarso, Sant’Ana padroeira fostes até 2008. Sampa, Essepê, garoada terra, és bela cidade que pulsa.

*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.              

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