Armamento e fim ilusório da corrupção seguem firmes no discurso de Bolsonaro

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Em Londrina, pré-candidato à reeleição mostra que deve repetir fórmula usada em 2018

Cecília França

Foto em destaque: Filipe Barbosa

O discurso do presidente Jair Bolsonaro (PL) – pré-candidato à reeleição – na 60a Exposição Agropecuária de Londrina, nesta sexta-feira (8), demonstrou que armamento e ilusão de fim da corrupção no governo continuarão a dar o tom de sua campanha em 2022, como foi em 2018. Ao declarar que “o tempo outrora da corrupção e desmando acabou”, o chefe do executivo ignora denúncias envolvendo o Ministério da Educação (MEC), da Saúde e investigações sobre ele próprio e sua família.

O esquema de pedido de propina, envolvendo pastores, para liberação de verbas federais do Ministério da Educação (MEC) – revelado pelo Estadão – levou à queda de Milton Ribeiro, então titular da pasta. Sobre a saúde, a CPI da Covid apontou indícios de superfaturamento em pretensos contratos com a indiana Covaxin para aquisição de vacinas, supostamente articulados pelo então líder do governo, Ricardo Barros (PP), que ontem dividia espaço no palanque da ExpoLondrina com o presidente.

Em março, o Ministério Público Federal (MPF) apresentou ação de improbidade administrativa contra Bolsonaro e Walderice Santos da Conceição, conhecida como Wal do Açaí, por desvio de recursos públicos referentes aos 15 anos em que Wal teria ocupado um cargo fantasma no gabinete do então deputado federal. Wal nunca esteve em Brasília durante todo esse período, fato confirmado pelo próprio Bolsonaro.

Esses fatos, porém, passaram longe do discurso oficial e a ilusão de um país livre da corrupção continua a embalar os apoiadores de Bolsonaro. Milhares deles se mobilizaram ontem no aeroporto e seguiram em carreata, com veículos ornamentados com bandeiras do Brasil, até o parque de exposições. Bolsonaro discursou aos gritos de “mito”.

A sensação é de que não se passaram mais de três anos de um governo desastroso, que negligenciou o combate à pandemia da covid-19, que avança sobre os direitos das populações tradicionais e favorece índices recordes de desmatamento. Não parece que a miséria aumentou, que estamos pagando mais caro para comer e nos locomover ou que acabamos de registrar a mais alta inflação dos últimos 28 anos.

Bolsonaro credita ao campo a sustentação da economia

No discurso, Bolsonaro creditou, corretamente, ao homem do campo a sustentação da economia. É fato que o setor agropecuário mantém, em grande parte, a economia brasileira e isso precisa ser exaltado. Alegou o fim de uma suposta “indústria da multa” e a liberalidade de um governo “que não atrapalha quem quer trabalhar”. Destacou, porém, como “mais importante”, a facilitação do armamento, não apenas no campo, mas de toda pessoa “direita”.

Jair Bolsonaro visitou a Expolondrina, onde falou para apoiadores paranaenses/Foto: Filipe Barbosa

“Conseguimos dar meios para que o homem direito e a mulher direita pudessem cada vez mais se armar. Povo armado jamais será escravizado”, declarou, seguido por gritos da audiência. De acordo com dados da Polícia Federal, em comparação com o ano de 2019, em 2020 o porte de armas aumentou em 91% no Brasil a partir de decretos presidenciais e atos normativos editados pelo atual governo.

Flexibilizar a posse o porte de armas trata-se de medida de segurança pública na opinião do governo Bolsonaro e seus apoiadores. Estudos mostram, no entanto, que não há correlação; pior, há relação entre o avanço do armamento e o aumento no número de mortes violentas.

O tom bélico usado na campanha de 2018 – quando simular tiros com a própria mão angariou simpatizantes e frases como “Vamos metralhar a petralhada do Acre” ou “O erro da ditadura foi torturar e não matar” não foram suficientes para causar asco em boa parte do eleitorado (não a maioria, vale lembrar) – segue presente no discurso bolsonarista.

Resta saber se o legado de destruição de seu governo será suficiente para conter o ódio que parece embalar seus súditos.

*Cecília França é jornalista em Londrina e editora da Rede Lume.

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