Hip hop encontra cultura indígena no Centro Cultural Kaingang

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Evento intercultural idealizado pelo DJ Damião Milianos marca o Dia dos Povos Indígenas em Londrina

Cecília França

Foto em destaque: Filipe Barbosa

O Dia dos Povos Indígenas foi celebrado, nesta terça-feira, 19 de abril, com um evento intercultural no Centro Cultural Kaingang de Londrina. Idealizada pelo DJ Damião Milianos, a ação reuniu integrantes do Freestyle de Rua e Slam Voz das Minas LGBT PR, com o apoio do Levante Popular da Juventude. Paramentados, indígenas interpretaram cantos Kaingang.

Renato Kriri, vice-cacique da aldeia Água Branca, de Tamarana, e coordenador do centro cultural, conta que a parceria com o DJ Milianos já aconteceu em anos anteriores e acabou pausada durante os dois anos de pandemia. Segundo ele, em 2022 não foi possível trazer parentes da aldeia, ainda assim foram realizadas danças tradicionais e expostos artesanatos e bebidas típicas.

O DJ Damião Milianos conta que a curiosidade de juntar o hip hop à cultura indígena o levou a conhecer os moradores do Centro Cultural e da aldeia Água Branca. “Eu pesquisei que dentro das aldeias tem rappers, tem MCs e isso criou uma curiosidade. Em 2017 foi o primeiro evento. Tínhamos mais suporte”, comenta.

Milianos chegou a conhecer a terra indígena para levar sua arte. “Convidaram para eu ir para Água Branca. Então a gente levou o rap também para lá. Foi uma experiência de vida. Já passei por muitos rolês com essa cultura, mas a aldeia me impressionou mesmo”.

Assim que as limitações da pandemia estiverem totalmente superadas, Milianos tem planos para desenvolver junto com a comunidade do centro cultural. “Assim que liberar a gente quer montar atividades aqui dentro, fazer oficinas de cultura”, revela. “Nós somos formiguinhas, um tem que dar a mão para o outro e somar”.

Para ele, a cultura hip hop tem potencial de salvação. “Cultura hip hop salva bastante gente. Ela me tirou do álcool, quase cheguei a morar na rua. Por isso me dedico ao máximo ao que eu faço. Não faço pela vaidade, mas porque a gente vive e a gente ama”, finaliza.

Realidade local precária

O Centro Cultural Kaingang foi fundado em 1999, no governo de Antonio Belinati, e encontra-se abandonado, nas palavras de Renato Kriri. O local serve de abrigo para indígenas nos períodos em que permanecem na zona urbana. “Ele (Belinati) viu indígena dormindo debaixo das árvores, do pontilhão, sem segurança nenhuma para as crianças. Ele conseguiu esse espaço aqui e colocou essas casas, com banheiros, sete tanques de lavar roupa, chuveiro, energia, tudo. Com estrutura, novinho, entregou a chave para o cacique. E o que aconteceu? Desestruturou tudo, abandonou totalmente. Mas os indígenas estão aqui, resistindo, aumentando a população”, ressalta.

Para ele, o abandono das gestões posteriores se deve ao preconceito do poder público com a cultura indígena. Kriri lamenta a situação precária em que vivem os povos indígenas. “O dia do índio é todo dia. Agora, se for para a gente dizer ‘vamos comemorar’, comemorar o quê?”, questiona.

Para o vice-cacique, 19 de abril deveria ser feriado nacional. Ele critica a desigualdade a que são submetidos os povos originários no País. “Se for pra gente ver na lei os direitos, não era para ser assim, essa desigualdade com a gente dentro do Brasil, onde a gente é o primeiro brasileiro. Era para ser um dia de feriado nacional. No descobrimento do Brasil foi quando começou o preconceito em cima do nosso povo e a discriminação”, ressalta.

Para Kriri, as violações a que estão sendo submetidos os povos indígenas são um desrespeito à Constituição Federal e vêm se agravando. “Direitos iguais estão assegurados na Constituição e o poder público, os políticos, não cumprem. Para eles a Constituição de 1988 não é nada, estão pisando. Hoje você vê na mídia o desrespeito, prostituição de menores (indígenas), e o governo não está preocupado. É gente entrando e saindo (das terras indígenas), invasão, e a gente tem lei que tem que ter autorização, é uma área federal. Eu vejo que nos outros governos a gente não teve essa discriminação, o preconceito e esse desrespeito que está tendo”, avalia.

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