‘Xingu Terra’: um recorte da cultura indígena pelo olhar de Lúcio Kodato

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Exposição fotográfica aberta no Dia dos Povos Indígenas segue até 1 de maio em Londrina

Ana Maria Alcantara, especial para a Rede Lume

Neste 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, foi inaugurada no Mercadão da Prochet, em Londrina, a exposição Xingu Terra, que fica aberta ao público até 1º de maio, sempre das 10h às 18h, com entrada gratuita. São 20 arquivos fotográficos que o diretor e cinematógrafo paulista Lúcio Kodato, 75, captou em 1977, juntamente com a fotógrafa Maureen Bisilliat, na aldeia Mehinaku, no Alto Xingu (MT).

O arquivo original faz parte do acervo do instituto Moreira Salles, mas algumas imagens compõem o acervo pessoal de Pedro Rocha, lojista do Mercadão. As imagens foram captadas enquanto Kodato e Bisilliat rodavam o documentário Xingu Terra, filme que foi premiado no 14º Festival de Cinema de Brasília, na categoria fotografia.

Kodato relembra os dias no Alto Xingu e a experiência de conviver com a tribo indígena em um contexto histórico no qual se discutia a construção da Rodovia Transamazônica.

“Fomos para lá [aldeia] para documentar a festividade de Yamaricumã, uma celebração indígena que reconstitui uma lenda matriarcal na qual as mulheres assumem a posição do homem por um dia e até lutam como os homens. Era o começo da Transamazônica e não sabíamos o que ia dar isso. E estávamos muito preocupados que tudo aquilo deixasse de existir. Os Yanomamis, por exemplo, seriam extintos se a estrada passasse por lá”, relata.

Posicionamento no mundo

Kodato, que foi repórter fotográfico no Estadão, conta que sua experiência como fotógrafo foi lhe despertando para a importância de se posicionar no mundo e documentar o que estava acontecendo na Amazônia foi a maneira que encontrou de marcar seu posicionamento.

“Era uma situação que me preocupava. Eu sabia que se a estrada [Transamazônica] passasse, tudo aquilo [natureza] seria destruído. As pessoas estavam felizes da vida porque iam receber a estrada, mas comunidades inteiras iriam desaparecer”, conta.

“Outro documentário que rodei no Amazonas também foi ‘O Turista Aprendiz’, sobre uma viagem que o Mario de Andrade fez antes da Semana de Arte Moderna. Nessa experiência nós passamos 40 dias em um barco de Belém (PA) a Porto Velho (RO) e no percurso víamos toras de madeira descendo rio abaixo, resultado da exploração de madeira. Foi no Rio Madeira (RO) que vi, pela primeira vez, a exploração de ouro com mercúrio”, conta, entristecido.

A cultura dos Mehinaku

Para além de um olhar estrangeiro sobre o indígena, Lúcio relata o que aprendeu com a sabedoria dos povos originários e sua cultura.

“Na aldeia dormíamos em uma oca com um casal e seus 3 filhos e havia um costume que era muito interessante. Eles dormiam em redes, uma acima da outra, como um prédio e, na hora de dormir, na rede mais próxima do chão ficava o pai, na rede de cima a mãe, depois o filho mais novo, e assim sucessivamente. Então antes de dormir havia um momento de contar sobre o dia e começava-se pelo caçula, que falava, falava, falava, depois passava a vez para o segundo filho mais novo e depois para o terceiro, por último falavam a mãe e o pai. Até chegar neles os filhos já haviam dormido. Eu não entendia nada, mas percebia que eles contavam sobre o seu dia e era muito bonito ver essa tradição oral e o exercício da escuta entre eles”, relembra.

Kodato conta também que na aldeia a estrutura era patriarcal, mas no dia da festividade de Yamaricumã, as mulheres assumem as funções masculinas. Ele destaca ainda que, embora a maior parte das relações fossem monogâmicas, havia casos de poligamia, não só masculina.

“Na aldeia, havia, por exemplo, uma mulher que tinha dois maridos e isso era muito interessante. Quando o marido que morava fora chegava, o marido que vivia com ela na aldeia se afastava um pouco e dava espaço. Haviam casais homossexuais também e era tudo muito respeitoso. Não havia discriminações” relembra o diretor.

A exibição do documentário Xingu Terra compõe as atividades da exposição homônima. O filme tem 1 hora e 13 minutos de duração e pode ser visto diariamente no box 52 do Mercadão da Prochet, em sessões às 10h, 14h e 16h, com entrada gratuita.

Para compor a atmosfera da mostra foram usados adereços emprestados de uma reserva indígena da região, no entanto, no coquetel de lançamento para convidados e imprensa não havia a participação de nenhum representante dos povos originários locais.

A exposição tem apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Londrina e do Sesc Cadeião Cultural, para onde a mostra irá depois de encerrada no Mercadão da Prochet. Itinerante, ela vai circular em outros espaços culturais londrinenses.

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