Quem tem direito à humanidade na guerra?

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Tenho pensado muito sobre as guerras. Digo guerras no plural porque, de acordo com dados da ACLED*, só em janeiro de 2022 estavam em andamento 28 conflitos armados no mundo. Seja entre rebeldes, ou entre rebeldes e forças do governo, ou ainda entre governos, o mundo vive sob intensos conflitos.

Quando falo em guerra, talvez o primeiro cenário que venha à mente seja o atual confronto entre Rússia e Ucrânia que toma os jornais todos os dias, mas há dezenas de outras batalhas acontecendo, ainda que não estejam sendo noticiadas.

Só no continente africano 14 países enfrentam conflitos: Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Egito, Etiópia, Líbia, Mali, Níger, Nigéria, Quênia, Rep. Democrática do Congo, Senegal, Somália e Sudão do Sul, totalizando milhares de mortes, fome, devastação, genocídio…, mas o mundo não parece se importar. Estas guerras não estão nos trend topics das redes sociais. Não há hastags sobre isso. Elas sequer são noticiadas na grande mídia. Mas o fato de a mídia não noticiar, não quer dizer que não existam.

A minha pergunta é: quem tem direito à humanidade na guerra? E por que o mundo não se sensibiliza com conflitos envolvendo pessoas negras como se sensibiliza com conflitos que envolvam pessoas brancas?

Não quero relativizar nada, mas veja a repercussão da guerra entre Rússia e Ucrânia nos telejornais e na mídia em geral. Penso, com muita tristeza, nas pessoas mortas, nas famílias desabrigadas e em quem perdeu tudo. Ou quase tudo, afinal, a humanidade de pessoas brancas ainda é preservada. Diferente de pessoas negras, que por terem suas humanidades negadas, continuam enfrentando dificuldades, até hoje, para deixar a Ucrânia.

Observe, não estou falando dos impactos políticos, financeiros ou econômicos de uma guerra. Estou considerando aqui apenas as vítimas do conflito e, olhando sob esse recorte, a cor da pele determina quem pode ou não viver e quem pode ou não ser salvo das zonas de conflito.

Em termos humanitários, por que a guerra envolvendo Europa desperta comoção e as outras não? E mesmo nesta guerra, porque apenas pessoas brancas são tidas como as “verdadeiras” vítimas e as pessoas negras não?

No jornal uma brasileira orgulhava-se de ter gasto 20 mil reais para ajudar uma família ucraniana. Sorte da família, todos querem viver, mas me pergunto porque não há a mesma comoção pelas pessoas negras que morrem todos os dias aqui mesmo no Brasil, vítimas também da guerra e da perseguição. Porque sim, pessoas negras enfrentam guerras diárias e ouso dizer que a mais violenta, com certeza, é a do próprio estado contra corpos negros. Aqui somos mortos pelo simples fato de existirmos e essa violência que nos mata todos os dias não gera comoção porque culturalmente a vida das pessoas negras importa menos.

Dia desses li uma declaração do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Thedros Adhanom Ghebreyesusem, em uma coletiva de imprensa, na qual ele dizia, com pesar, que “o mundo não dá a mesma atenção à vida das pessoas negras”. Uma realidade triste, desumana e cruel.

E quando se trata de cenário de guerra, por que só pessoas brancas têm direito à humanidade?

Humanidade não é algo finito. Reconhecer a humanidade do outro não diminui a nossa própria, pelo contrário, isso só nos torna mais humanos. Parece óbvio, mas é algo que vale a pena ser lembrado e relembrado.

Infelizmente existe muito mais que uma guerra acontecendo no mundo nesse momento e para as pessoas negras da África, do Brasil, da sua cidade ou do seu trabalho, a guerra é diária. Estamos bem aqui, tentando sobreviver e vendo nossos semelhantes serem exterminados das mais violentas formas.

Enquanto a humanidade nos for negada, o corpo negro sempre será deixado para trás na guerra. E o problema é que estamos constantemente em guerra.

Fontes:

Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas

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