Aos jovens, a distopia dos livros          

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Quando a megalópole dos livros Amazon anuncia com antecedência seu Prêmio Geek de Literatura (as inscrições só começam dia 5 de setembro), é sinal de que a chamada para os jovens, tanto para a escrita quanto para a leitura, está em alta ou rende dividendos. Ou as duas coisas.

Fantasia e horror, ficção científica e quadrinhos são as categorias, e o prêmio para o primeiro colocado é de R$ 10 mil, além da publicação do livro pela Pipoca & Nanquim editora.  É o que se vê nas bienais: aquelas em que jovens de escolas públicas carregam vales-livros, podendo levar para casa as obras que escolhem livremente. Eles querem imersão nas histórias de reinos distópicos, e não se interessam por Machado de Assis e Lygia Fagundes Teles, autores empurrados goela abaixo por muitas escolas. O caso é polêmico: há quem ache que o ensino não pode prescindir dos clássicos, há os que prefiram oferecer o que dá prazer a esse público e possa “ensinar” a gostar de ler antes da leitura dos renomados.

Ao participar da Bienal Mineira do Livro, numa mesa sobre poesia, eu mesma abordei o hiato que existe para os jovens no que concerne e esse gênero literário. Crianças adoram poesia, rimas, ritmo, histórias construídas em versos rimados. E é bem provável, o que costuma acontecer, o retorno ao gosto pelo poético geralmente depois dos 25 anos. Mas nesse intervalo, na pré e na adolescência, são poucos os que escrevem e leem poesia.

Essa transição entre infância e idade adulta é o que analisa Freddy Gonçalves da Silva no seu livro Nostalgia do vazio: a leitura como espaço de pertencimento dos adolescentes, com ensaios em que relata experiências em clubes de leitura de países da América do Sul. Por mim, se os jovens querem ler fantasia, livros associados a séries da Netflix, Amazon Prime e similares, que seja. Melhor isso do que ficarem longe dos livros – defendo, como alguém que aprendeu a gostar de ler pelas revistinhas do Walt Disney na casa de um tio.

Mas os jovens escritores não se restringem a esse universo. João Gabriel Paulsen venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2019 com apenas 19 anos, e teve o livro O doce e o amargo publicado pela Editora Record. Do que se trata? Da contradição, uma história existencialista escrita sob influência do escritor Albert Camus, o francês nascido na Argélia.  Ou seja, pode ser lido por qualquer idade.

Quem sabe o neto do escritor Otto Lara Resende, o músico carioca Gab Lara, lançando um álbum com músicas que lembram o Clube da Esquina, vá se tornar também um jovem letrado com perfil destoante do Geek.  Jovens leem, jovens escrevem, e todo caminho para isso deve ser alargado.

*Leida Reis é autora de oito livros publicados – dentre eles o romance “A invenção do crime” pela editora Record e “A casa dos poetas minerais” -, sendo três para crianças. Criadora do Clube do Livro Infantil Solidário (Clis) e da Mercearioteca (biblioteca comunitária em BH), fundadora da Páginas Editora, com experiência em curadoria de eventos literários e jurada de prêmios. É também jornalista formada pela UFMG, com 27 anos de atuação.

2 comentários

  1. Perfeita essa visão. Eu sempre achei violento e desestimulante enfiar Guimarães Rosa e Machado de Assis goela abaixo dos jovens estudantes. É preciso algo intermediário (assim como a adolescência é um estágio intermediário) a fim de que os jovens sejam fisgados e desenvolvam o gosto pela leitura. Quando adultos vão apreciar os grandes autores.

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