E, não se fez a luz!

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E não se fez o dia, tão triste dia…

O amanhecer na Floresta Amazônica se fez como na natureza onde nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, a famosa Lei de Lavoisier. A noite se transformou em dia, as estrelas não se perderam no firmamento, apenas foram salpicar vagalumes em outro hemisfério.

A tristeza se abateu sobre os curumins, como a Lua apaixonada que, de tanto verter lágrimas e mais lágrimas, acabou criando os rios e os mares, salve Jaci!

Indígenas incansáveis que são em seu fulgor, sua luminescência, sua cintilação chora os defensores das matas e todo o bioma amazônico. Choram enlutados na luta, choram por Dom e Bruno. Choram Caboclos, choram indígenas, choram Orixás, choram deuses.

Há uma transformação diária, faça chuva ou sol, seja qual for a estação, o dia se transforma em noite, a noite se transforma em dia sucessivamente, comprovando que, de fato, tudo passa por uma renovação em si, numa espécie de metamorfose ambulante diurnal.

O que não se modifica é a ganância, o mais-valer, a discórdia humana, o mal querer ao meio ambiente e ao semelhante, realidade crua, insensatez plena, arrogância contumaz.

O francês, criador da lei, acabou perdendo a cabeça, literalmente, numa guilhotina afiada. Seu crime? Ser cientista! Sua sentença? A morte! Proferida pelo algoz, a frase que marcou para sempre: “a França não precisa de cientistas.”. Nada mais atual, nada mais tenebroso, nada mais perverso.

Na madrugada fria daquele domingo o amanhecer se fez frio. O sol não chegou sol, clave, quinta na quarta, uma oitava acima. Não chegou e se foi a prantear.

Os pássaros sustenido bemol, quarta aumentada, gorjearam como nunca. Gorjeiam mais por lá que acolá. E como chilram. Não foi de festa, mas da dor mais sentida das arapucas e alçapões. Jaçanã empoleirada na melancolia, plena de dor, em tentativas vazias de se defender dos anajés traiçoeiros, não voou; pousou na vitória-régia, prostrada num igarapé qualquer, embevecido por sua cor e aroma magistral inebriante, padeceu ali, vitimado pelos predadores, insensatos corações.

As florestas se transformaram em brumas, estão em brumas, jângala hemolinfada pelas mãos dos homens. Queimadas, torturadas e devastadas pela cupidez humana, ávida e mesquinha.

Dom e Bruno eram akãraku pelo caá e caapuã. Pensavam anaití. Ekove embaixo da cajaty, anati anajá, se transformaram em anahi. Aos caris aibás resta a cainara de Tupã que os levará ao aña retã e lá arderão no anicê como fizeram com a cambajura.

*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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