No dia do Orgulho LGBTIA+ e Queer, mais Levante de Stonewall, menos Economia Rosa

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Por Régis Moreira, docente do Departamento de Comunicação da UEL, integrante dos grupos de pesquisa e extensão Entretons e DECO (Decolonialidade na Comunicação)

Não se trata de somente ter os tons do arco-íris colorindo monumentos, prédios, marcas, publicidade e propaganda e os programas de TV. Não basta o orgulho ser marcado com um dia ou mês, esvaziado de sentidos interseccionalizados por classe, raça, etnia, localização geopolítica…

A des-marginalização e a convivência com us LGBTIA+ e Queers é para além do direito às expressões de afeto, do amor entre iguais (se é que existe alguém igual a outro nesta vida). Do amor entre pessoas do mesmo sexo (e quando afirmamos isso, também só nos capturados pelas classificações binárias biologizantes, normalizantes e normatizantes).

A revolta de Stonewall, ocorrida há 53 no bar de Nova Iorque, que deu origem a esta data e inspirou Paradas LGBTIA+ e Queers pela diversidade no mundo inteiro, não nasceu propriamente por pautas LGBTIs somente, mas por pautas interseccionadas por muitas lutas em busca de direitos, num brado que o levante colocou contra as estruturas sociais opressivas e esmagadoras de vidas. A marcha de Stonewal teve como protagonistas duas travestis: Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera. Marsha assassinada misteriosamente ainda muito jovem, e Sylvia abandonada no ostracismo da velhice, pobre e sem o devido reconhecimento.

Seguimos na luta, no país que é campeão de assassinatos de mulheres transexuais e travestis, com uma expectativa de vida de vida de 35 anos, se forem brancas, e de 28 anos, se forem afrodescendentes. No país que mais mata pessoas LGBTIs no mundo, dos quais cerca de 70% das vidas ceifadas também são afrodescendentes.

Seguimos na luta no país que nos invisibiliza nos dados do Censo do IBGE de 2022. No país cujas pautas existenciais muitas vezes são taxadas por conservadores somente como pautas “identitárias”, inclusive por parte de uma esquerda progressista equivocada, que insiste em classificar como “identitárias” pautas fundamentais para a construção de outros mundos possíveis, menos opressores, onde o sexismo, o machismo, a misoginia… não existam. Causa-me repulsa a reprodução e atualização de que as ditas pautas “identitárias”, que eu considero existenciais, atravanquem a luta de classes. De qual luta de classes se fala quando não se considera existências? Qual luta?

Quem repudia as pautas existenciais, geralmente, são homens brancos e cisheteronormativos ou pessoas machistas, mulheres inclusive, mas que falam de seus lugares de privilégio. Qual luta de classes é possível ser garantida para existências plenas a todas as vidas e à vida de todes? Qual luta de classes finge não enxergar a matança de mulheres, mulheres trans, travestis, LGBTIA+ e Queer, indígenas, afrodescendentes? Não vou nem falar do absurdo da direita ou extrema-direita, mas do fascismo comum a todes, quando não garantem que todas as vidas valham.

E, mais uma vez, insisto, parem de falar em opção sexual. Atualizem-se, por gentileza. Não se trata de uma escolha, trata-se de uma orientação sexual. Caso orientação fosse escolha, opção sexual, perguntaria a vocês heterossexuais:

Quando vocês escolheram ser heterossexuais? Como foi a reação de suas famílias? Ser heterossexual os fez ser expulsos de casa? Ter escolhido ser heterossexual os expulsou do mercado de trabalho? Desde quando vocês optaram em ser heterossexuais, a existência de vocês passou a ser ameaçada?

Sim, hoje é dia de celebrar muitas conquistas, mas temos muito ainda pela frente a marchar, a nos levantar e reagir diante das atrocidades que ameaçam nossas vidas! Para que possamos viver num mundo em que todas as corpas importem, valham. Todes! Para dias 28 de junho mais inspirados no Levante de Stonewall e menos apropriados pela Economia Rosa.

*Entretons é um grupo de pesquisa e extensão de gênero, sexualidade, teoria queer, feminismos, decolonialidades, na perspectiva das interseccionalidades de etnia, raça, classe social, etarismo, entre outras. Formado por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina – UEL e outres colaboradores de diferentes territórios de pesquisa e extensão, o grupo objetiva produções e ações implicadas com a realidades sociais diversas e seus movimentos.

2 comentários

  1. EXCELENTE COMENTÁRIO SOBRE UM TEMA MUITAS VEZES INSTIGANTE . WUEM GANHA COM TANTA RECLIMINAÇÃO… COM TANTA VIOLÊNCIA E DESPREZO …
    NUM PAÍS MACHISTA COMO O NOSSO … NÃO EXISTE…..LIBERDADE DE SE EXPRESSAR SUA OPÇÃO SEXYAL .. INFELIZMENTE !!!!

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