Quando o amor não se fecha

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Beatriz Herkenhoff*

Foto em destaque: Pixabay

Eu tenho um grande amor, ao mesmo tempo, eu tenho muitos amores. Amores que não se esgotam. Alguns surgem e ficam, outros surgem e continuam sua trajetória. Amores que se multiplicam, que deixam o melhor de si e levam o melhor de mim.

Eu tenho amores que se eternizam e se expandem. Amores que são únicos e múltiplos. Amores que deixam rastros de luz e de vida. Amores que ajudam a crescer, que aprendem e ensinam.

O amor não se prende a nada. Tudo pode e tudo dá. O amor liberta e é libertado. Voa como um pássaro. É livre em sua dinâmica e capacidade de ser, estar e amar. O amor precisa voar para ser pleno e plenificar. Para expandir e transformar.

O amor não amarra, não sufoca e nem oprime. O amor não é possessivo, nem ciumento. Por isso eu tenho muitos amores.

Falei que tenho muitos amores? Estou enganada. Eu não tenho ninguém, porque ninguém é propriedade de ninguém.

Eu tenho a mim mesma, porque nasci e morrerei como minha companheira. Por isso aprendo muito comigo. Aprendo sobre o desapego, a solidão, o preenchimento de vazios, a plenitude, a incompletude e o amor ao próximo. Aprendo a amar-me; a amar aqueles que cruzam meus caminhos e ser amada sem cobranças e expectativas.

Eu tenho um único filho. Ao mesmo tempo eu tenho inúmeros filhos que agreguei ao amar sem limites.

Ai do meu filho se ele fosse meu único amor. Ai daqueles que me cercam se eu me fechasse em seu amor. Por isso fui ampliando e construindo relações de trocas e aprendizados. Incluindo amores e  pertencimentos.

Ai de mim mesma se eu depositasse no outro a responsabilidade por amar e ser amada.

Eu tenho um grande amor. Um Deus de infinito amor que habita em mim. Um Deus que me completa mais do que todos os amores. Por isso eu amo sem limites, sem medo, sem amarras. Um amor cuidado, doação e serviço. Um amor que aceita o outro e convida a mudanças. Um amor que inclui o planeta terra em sua capacidade de amar.

Mas, o amor gera angústias e inquietações. Sensibiliza-se com o sofrimento do outro. O amor que não transforma não é amor. O amor deixa marcas, faz a diferença e muda a realidade.

O amor é generoso, transborda solidariedade e disponibilidade com aqueles que o cercam. Sente-se motivado a partilhar a alma, o conhecimento, a sabedoria e os bens materiais.

O amor generoso não segura nada. Se recebe algo bom e valoroso, sente-se motivado a dividir com aqueles que fazem parte do seu universo.

Ao mesmo tempo a generosidade pode nos levar a nunca estabelecer limites, nunca dizer não, e com isso, corremos o risco de colocar o outro em primeiro lugar.

Quem nunca diz não, tem dificuldade em ouvir não. Quem muito dá, muito cobra. Podemos generalizar ou cada um tem seu jeito de ser e de lidar com a generosidade?

Mas, o amor é também contraditório e limitado. O que dizer das mulheres que amam demais? Que aceitam o abuso físico e psíquico? Mulheres que não denunciam e não colocam limites. Esse é um tema para outra crônica.

* Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da Ufes. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

6 comentários

  1. O amor quando se personifica, passa ser AMOR a incansável FÁBRICA DE PURIFICAR OS HUMANOS. PARABÉNS!!! Te curto…longamente. Milton Leite um

  2. Uma maravilhosa crônica. Um tema de valor imenso. O Amor. Parabéns Beatriz pela belas palavras sobre o Amor. Parabéns e Obrigado. Deus te abençoe. Valeu.

  3. Bia , sempre amável , um dos seres humanos mais lindo que conheci , à você todo o meu amor 😍🥰

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