Objetividade e a lógica lusa – primeira parte    

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Dia desses conversava com um amigo que me relatava momentos engraçados e histórias vividas, absolutamente curiosas. Lembramos de sua primeira viagem à minha amada Portugal. Trago nas veias o sangue português com muito orgulho. Sabedor do carinho e da relação afetiva que tenho com o país além-mar, pediu-me referências e dicas de locais imperdíveis, comidas imprescindíveis e vistas incríveis para alvoreceres, entardeceres, cartões-postais registrados de forma autoral.

Debulhei um rosário de informações como se estivesse rezando o terço na Sé de Braga. Tascas, imperial, bica, fixe e gira, frigorífico, casas de fado, castelos, ascensores, eléctricos, Lavra, Glória, Bica, a Baixa, o Alto, Santa Justa, Santa Maria Maior a Mouraria, Chiado, Alfama, o 28, o 15, freguesias, Pastéis de Belém, Confeitaria São Nicolau, passadeiras, pastelarias, Casa Brasileira, telemóveis, Pombalinas, Convento do Carmo, Cais do Sodré, Torre de Belém, da Gare do Oriente, obra de Calatrava, do Arco da Augusta, calceteiros, Jardim das Pichas Murchas, Azinhaga da Bruxa, Alentejo, Algarvias praias, Matosinhos, Mindelo, Leça da Palmeira, Alfacinhas e Tripeiros, Amoreira, Évora, Porto, a história da Inês de Castro, São Jorge, a Vicentina, Tunas, Florbela, Camões, Ruy Guerra, Saramago, Café Magestic, Pessoa, a Bertrand, a diferença entre facto e fato, que a francesinha é um sandes típico do porto.

Falei do Teatro Nacional Dona Maria II, na Praça Pedro IV – Praça do Rossio, da Adega Machado e do Café Luso, da  Severa, da Amália, do Xutos & Pontapés, do Filho da Mãe, do Abrunhosa – gravado por Bethânia, “Quem Me Leva os Meus Fantasmas”, “…e a ursa maior eram ferros acesos…” -, Carminho, Zambujo, Ana Moura e Mariza, dos “Olhos Castanhos”, da “Casa Portuguesa”, da “Gaivota”, da “Mãe Preta”, de Piratini e Caco Velho, compositores brasileiros que em terra lusa, censurada pela PIDE do regime Salazarista – foi considerada subversiva por expor a triste realidade de seres humanos escravizados -, se tornou “Barco Negro”.

Gravada inicialmente por Maria da Conceição, fez sucesso na voz de Amália em 1955, para a trilha do filme “Os Amantes do Tejo”, com toda a letra alterada, adaptação de um poema de David Mourão-Ferreira. Em 1978 a fadista se redimiu e gravou a versão original. “…Enquanto a chibata batia no seu amor/Mãe Preta embalava o filho branco do sinhô…”.

Claro, não poderia perder a oportunidade de ensinar algumas bobagens. Nunca se deve dizer que vive a fazer freelas (bicos) ou broches, que paneleiros não são profissionais na arte da latoaria, que entrar no rabo da bicha não tem o mesmo significado do Brasil, que há uma diferença crucial entre o bombeiro e picheleiro, entre o banheiro e a casa de banhos.

Falei do duche, do autoclismo, da retrete e da sanita. Indiquei como se dirigir a um empregado de mesas, se me faz favor. Que pedir um gelado não é entrar numa fria. Que miúdos são crianças assim como os putos e que rapariga é uma moçoila. A canalhada é um grupo de putos a fazer algazarra. Do breque e dos travões, da porra recheada que é porreiro, das punhetas de bacalhau, da sopa de grelos, do cacete e da pastilha elástica. Caralho e caralhinhos não são pejorativos, e estar cheio de pica é um bom negócio. Cuidado com a rata crica.

(continua…)

*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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