A escrita pela imagem

Publicado por

Fotos: Vera Godoi

Ao longo dos séculos, tentaram tanto aniquilar quanto valorizar o livro. Este ser transformador de vidas, capaz de parir um filme ou uma peça de teatro, dar origem a uma música ou minissérie, evocado na educação das gerações e agora legítimo também no digital, não morrerá nunca. Sobre o livro muito se escreveu, e um best-seller mundial é o da escritora espanhola Irene Vallejo, Infinito em um junco, contando histórias de disputa de bibliotecas entre imperadores e revelando a luta da mulher para assinar o próprio nome na capa dos títulos.

Pois é uma mulher, e de um livro de fotografias que falo hoje. Vera Godoi não se diz escritora, mas poetiza com imagens um tema sagrado de sua aldeia, daquelas que retratam o mundo. Durante longos anos, a fotógrafa dividiu seu tempo entre o trabalho em redação de jornal e os registros das festas e encontros da Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário do Bairro Alto dos Pinheiros, em Belo Horizonte. Resultado: um livro a ser lançado neste dia 5 de agosto, com recursos da Lei de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, editado pela Páginas Editora.

Os congadeiros estão espalhados nas páginas e suas cores são de dias de festa. As celebrações de coroação, as cantigas, a comida, as viagens, as bênçãos, os costumes que passam de pais para filhos só poderiam produzir um livro com energia tão alta quanto a fé do povo da Guarda de Moçambique. Belas fotos também na “troca de moeda”, quando as visitas são mútuas, e nas idas a Aparecida do Norte (SP), quando fica clara a vinculação do reinado à igreja católica. “Quando dois Rosários se encontram, une-se o céu e a terra, um só povo, um só coração, soa tambor, canta tambores”, diz o Capitão Geraldinho.

Vera Godoi já estava realizada com a fotografia, a arte que escolheu para sua vida, e agora se regozija com o livro, que será distribuído gratuitamente aos membros do Congado no lançamento. Ela quis, e conseguiu, eternizar em fotos a cultura de um povo no espaço urbano de uma capital de dois milhões e meio de habitantes. Afinal, desde os 9 anos tem contato com essa cultura do povo preto, pela qual se apaixonou.

Os 14 ritos da Guarda de Moçambique do Bairro Alto dos Pinheiros ficam agora, no foto-livro, para sempre retratados, e uma cultura oral e familiar passa a ter um registro físico. Dentre tantos livros publicados para contar os costumes do povo brasileiro, este é mais um a fazer sentido na eternização da memória brasileira.

Escrevo esta crônica no 25 de julho, Dia do Escritor/Dia da Escritora. Mesmo não sendo escritora, mas uma das melhores fotógrafas de Minas (quiçá do Brasil), Vera Godoi se apropria com legitimidade do objeto livro, cuja história é contada pela jovem autora espanhola Irene Vallejo. Ela fala de livros destruídos com ódio por quem deles tinham (ou têm) medo, quanto por aqueles copiados, lidos e relidos, compartilhados com paixão.

Falando em foto-livro, a Páginas Editora acaba de lançar o Prêmio de Fotografia “Das Minas às Gerais, pelo olhar do seu povo”, para tanto premiar quanto produzir um foto-livro revelando as belezas naturais e culturais do Estado. As inscrições, para profissionais e amadores, estão abertas no site paginaseditora.com.br. Viva o livro e salve a fotografia, a escrita pela imagem.

*Leida Reis é autora de oito livros publicados – dentre eles o romance “A invenção do crime” pela editora Record e “A casa dos poetas minerais” -, sendo três para crianças. Criadora do Clube do Livro Infantil Solidário (Clis) e da Mercearioteca (biblioteca comunitária em BH), fundadora da Páginas Editora, com experiência em curadoria de eventos literários e jurada de prêmios. É também jornalista formada pela UFMG, com 27 anos de atuação.

Deixe uma resposta