Mãe se revolta com declarações da PM sobre jovens em conflito com a lei

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Comandante diz que adolescentes entram para a criminalidade porque foram mal educados; mãe rebate que o Estado é o verdadeiro culpado pelo ingresso do filho no crime

Nelson Bortolin

Foto: Protesto de familiares de mortos em supostos confrontos dia 15 de julho, em Londrina/Mariana Guerin

A encarregada de limpeza hospitalar Iane Mendes está revoltada com o comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Nelson Villa, que durante entrevista concedida à TV Tarobá, responsabilizou as famílias pelo ingresso de adolescentes no mundo do crime. “Meu marido morreu quando meu filho tinha seis anos. Tive de arrumar dois serviços para poder sustentar ele e o irmão mais novo. Trabalhava à noite num hospital numa escala de 12×36 horas. E todos os dias das 8 da manhã às 5 da tarde”, conta ela.

Iane afirma que, na época, não conseguiu vaga em creche e não teve apoio nenhum para criar os filhos. Aos seis anos de idade, Victor Mendes começou a cuidar do irmão para a mãe poder trabalhar. Aos 12, ele estava envolvido com o tráfego de drogas e saiu de casa (clique aqui e leia mais).

Na entrevista (confira no vídeo abaixo), o comandante da PM deu declarações do tipo: “Eu sugiro que as pessoas prestem atenção em princípios mínimos básicos da honestidade, da higidez, e de caráter. Isso é o principal numa família.” “Se você não cuidar de seu filho, você pode perdê-lo para as drogas, para a criminalidade. E aí, o risco de que esse tipo de situação aconteça é grande.”

Villa estava comentando os protestos de familiares de mortos em supostos confrontos com a Polícia. Na semana passada, a Rede Lume mostrou que a região de Londrina é onde há mais esse tipo de óbito em todo o Paraná.

 “Interessante é você ouvir o depoimento de uma das mães que fala que conversou com o filho e ele só estava indo buscar um veículo bambuzinho (carro vendido por um preço bem mais barato por estar com financiamento não pago)”. Embora não cite nomes, ele se referia a Valdirene Inácio da Silva, mãe de Anderbal Júnior, 21 anos, morto em abordagem policial dia 6 de maio deste ano, próximo a UEL.

A polícia alega que o carro era roubado. A mãe conta que, antes de morrer, Anderbal passou em casa e disse para ela tratar-se de um veículo bambu. “Então você percebe que existe uma descaracterização de uma educação que tem por base princípios mínimos de convivência social. Uma mãe que fala que o filho estava só indo buscar um bambuzinho realmente educou mal o filho”, continuou o comandante durante a entrevista.

Esta não foi a primeira vez que Iane Mendes ouviu da polícia que a culpa é da família. “Um dia cheguei em casa do trabalho às 5 e meia da tarde. Estava exausta. Não tinha dormindo na noite anterior porque estava trabalhando. Um policial a paisana chegou com o Victor dentro de um carro muito bonito”, recorda. O PM teria se dirigido a ela aos gritos. “Estou com o saco cheio de ver seu filho vendendo droga todos os dias na rua. Ou ele está passando fome ou foi mal educado”, recorda a mãe. “Isso é muito dolorido para a gente.”

‘Ou eu trabalhava ou morríamos de fome’, diz mãe

Ela acredita que o fato de ter ficado parte do tempo ausente da vida dos filhos possa ter contribuído para Victor se envolver com o crime. “Mas eu não tive opção, ou eu trabalhava ou morríamos de fome.”

Até os 12 anos, o menino era amoroso e cuidadoso com o irmão. Mas quando passou a trabalhar para o tráfico, tornou-se violento. “Procurei ajuda no Conselho Tutelar, tentei interná-lo, mas, de novo, não tive apoio de ninguém.”

Para a mãe, devido à ausência de políticas sociais e educativas, o Estado é o verdadeiro culpado pelo ingresso dos jovens no crime. “Se eu tivesse encontrado apoio não teria acontecido o que aconteceu.”

Ela destaca que não compactua com nenhum tipo de ilegalidade praticada por quem quer que seja, muito menos pelo próprio filho. “O que eu ressalto é que as famílias brasileiras deveriam ter o apoio dos governantes para que pessoas como meu filho não se envolvessem em coisas erradas. E não há esse apoio.”

Durante anos, a vida de Iane foi um verdadeiro inferno. “Uma vez, vi no Facebook a foto de uma traficante abraçando meu filho dizendo que era filho dela. Como você acha que a gente se sente? Como você acha que é ter de tirar toda a roupa para ir visitar seu filho na cadeia? É desonroso. E isso não é culpa das mães”, declara.

Victor Mendes passou dois períodos internado no Cense – Centro de Ressocialização para Menores em Conflito com a Lei. Hoje, aos 18 anos, está fora do crime, trabalhando na empresa do cunhado em Florianópolis. Clique aqui para conhecer essa história.

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Um comentário

  1. Não queremos justificar os crimes dos nossos filho….e sim projetos q funciona d vdd a qual é direito d TD criança com deficiência em socializar… # acorda governantes do Brasil.

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