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Quando o amor não coloca limites

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Por Beatriz Herkenhoff*

Foto em destaque: Pexels

Tenho escrito sobre a potência do amor. Amor que cura, transforma, liberta, valoriza, reconhece, solidariza, soma, multiplica, dá prazer, alegria, gozo e plenitude.

Amor que deixa um rastro de luz e de vida. Amor que não sufoca e não amarra.

Mas, o amor também pode oprimir, subjugar, controlar, desqualificar e machucar.

A violência destrói o amor, fere a alma, a mente e o corpo.

Muitas vezes as mulheres são agredidas e humilhadas e não conseguem colocar limites. Silenciam sua dor e adoecem.

Robin Norwood demonstra em seu livro que as mulheres amam demais quando: são incapazes de romper com relacionamentos insensatos, tóxicos e doentios; persistem em relações que colocam em risco seu bem-estar emocional e sua segurança física (“Mulheres que amam demais”).

Para a autora, essa é a face negativa e destrutiva do amor, a obsessão pelo outro. Isso acontece porque algumas mulheres amam tendo como base os seus medos, inseguranças e carências. O medo de ser abandonada e rejeitada leva-a a cuidar mais do outro do que de si mesma.

Certa vez testemunhei uma linda história de amor. Eles se conheceram no trabalho e imediatamente se apaixonaram. Eram cúmplices, gostavam de dançar, de ir à praia aos domingos, saiam com amigos, curtiam uma boa conversa. Até que as insultos começaram a acontecer. Inicialmente brincadeiras que desqualificavam o seu potencial como mulher, em seguida atitudes ciumentas, pressão para que parasse de trabalhar e discussões em alta voz. Mas, após cada briga, ele pedia perdão e dizia que aquela atitude não voltaria a acontecer. E ela dava mais uma chance.

Ela encarava as confusões como um momento difícil que estavam passando. Amava-o e ele precisava do seu apoio e compreensão. Quando as agressões psicológicas aumentaram, ela não teve coragem de denunciar por medo, por vergonha e para protegê-lo. Sentia-se culpada por tudo que estava acontecendo.

Com o passar do tempo, ela começou a ter insônia, a ficar triste, ansiosa, deprimida, mas, não tinha coragem de partilhar o que acontecia entre as quatro paredes de sua casa. Não tinha forças para pedir ajuda, para fazer rupturas e recomeçar a vida. Não se sentia merecedora de ser amada.

Interessei-me pela temática do “amor abusivo” quando assisti a série Maid (Netflix). A partir de então, passei a refletir sobre a realidade de mulheres que sofrem abusos físicos e psíquicos e não conseguem denunciar e afastar-se do abusador.

Essa série é baseada numa história real, Stephanie Land sofreu abusos psicológicos e viveu um longo processo de negação de sua realidade até buscar ajuda. Trabalhava com faxinas e começou a canalizar sua dor para a escrita. O livro foi publicado e virou filme.

Após assistir o filme e testemunhar a história que descrevi acima, comecei a questionar sobre as razões para as mulheres não denunciarem seus agressores.

Violência contra as mulheres

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública tendo como fonte os boletins de ocorrência das Polícias Civis das 27 Unidades da Federação constatou que entre março de 2020 e dezembro de 2021, ocorreram 2.451 feminicídios e 100.398 casos de estupro e estupro de vulnerável de vítimas do gênero feminino.

Em 2021, em média, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 7 horas.

A violência contra as mulheres é um tema complexo que envolve aspectos psicológicos, sociais, culturais, políticos e religiosos, bem como a questão legal de proteção.

Vivemos numa sociedade marcada pelo modelo patriarcal e machista, onde a mulher é vista como inferior ao homem. Isso se manifesta em diversos problemas, como: a desigualdade de direitos entre homens e mulheres, altos índices de violência, assédio, estupro, diferença salarial, entre outros.

Um aspecto cultural importante na formação das mulheres é o mito do amor romântico. A mulher necessita de um príncipe encantado para ser feliz. Nesse ideário, ela não se vê como sujeito, mas como alguém que precisa ser cuidada por um homem.

Por outro lado, o homem aprende desde a mais tenra idade que precisa ser: “forte”, “bruto”, “não chorar”, “dominar”, “ser o provedor”, “agredir para ser viril”.

O mito do amor romântico favorece relações abusivas, pois o homem age como se fosse o proprietário da mulher. Homens agressores não se conformam em perder o seu lugar de controle e dominação.

Codependência – um conceito importante

A mulher agredida torna-se codependente do abusador. Codependência é um transtorno emocional em que ocorre uma dependência excessiva de um indivíduo em relação a outro.

Um amor que aprisiona. A mulher suporta qualquer tipo de comportamento e suas consequências. Não percebe que está abrindo mão de sua própria vida e de seus sonhos.

É comum sujeitos que crescem em famílias disfuncionais desenvolver um perfil codependente. Utilizam esse mecanismo para lidar com a dor do desamparo e da baixa autoestima.

O perfil codependente atrai parceiros que estabelecem relações tóxicas e abusivas.

Por que as mulheres não denunciam?

Nesse contexto, muitos são os motivos para as mulheres que sofrem abuso físico e psíquico não denunciarem: Têm medo do agressor. Dependem financeiramente do mesmo. Têm receio de não conseguirem criar os filhos. Não têm onde morar. Sentem vergonha em admitir que são agredidas. Dão mais uma chance diante da promessa do agressor de mudar o comportamento. Têm um relacionamento codependente, amam demais. Têm esperança de mudá-lo. Constatam que nada acontece com o agressor quando denunciado.

Dessa forma, as mulheres não conseguem interromper o ciclo de agressões. Sentem-se culpadas e são culpabilizadas pela sociedade.

Passam por diferentes etapas até buscar ajuda. Inicialmente negam a realidade por medo de denunciar. Sentem-se responsáveis pelo companheiro. Priorizam o cuidar do outro, querem garantir o atendimento de suas necessidades.

Quando iniciam um processo de ajuda terapêutica sofrem recaídas. Mesmo recebendo proteção judicial, voltam atrás e dão mais uma chance ao agressor. Precisam, muitas vezes, chegar ao fundo do poço para tomar a decisão de se libertar e romper definitivamente com a situação.

O abuso é muitas vezes geracional. Vítimas de violência reproduzem gestos e ações de seus pais, tornando-se abusadores. Aquelas que veem suas mães sendo agredidas e maltratadas, muitas vezes, escolhem companheiros que irão repetir comportamentos semelhantes.

O apoio da sociedade faz a diferença

Nossa sociedade nega a realidade da violência doméstica. Julga, ignora e desqualifica a dor das mulheres. Contribui, assim, para que atrocidades continuem acontecendo.

Ao abordar esses conceitos desejo ajudar mulheres a superar o medo. Não existe nenhum julgamento. O jeito codependente de amar é um aprendizado disfuncional do amor em que a vida do outro é colocada em primeiro lugar. É uma defesa para não entrar em contato com sentimentos de abandono e rejeição. Por isso precisa ser compreendido e analisado em sua complexidade pela sociedade e pela mulher que pede ajuda.

É preciso quebrar o pacto de silêncio da mulher. Oferecer ferramentas para que tenha um espaço para falar dessas questões. Ser acolhida, amada, respeitada, apoiada e compreendida.

Precisa de segurança e proteção para se conhecer como pessoa que merece ser amada e valorizada.

Quando as mulheres identificarem as razões que orientam seu comportamento poderão buscar alternativas para se amar e se colocar em primeiro lugar.

Desejo ter tocado seu coração e sua mente para essa realidade de sofrimento tão dura.

Que possamos sair do comodismo e da indiferença. Fortalecer as redes de apoio que ainda são frágeis.

Que a sociedade dê respostas efetivas e crie cada vez mais medidas protetivas e serviços acolhedores, sem julgar e sem culpabilizar a mulher. Que possamos discutir e desconstruir conceitos sobre o significado do ser homem, concepções estruturadas que justificam subliminarmente as agressões.

A violência é estrutural, fruto da própria sociedade. Comportamentos codependentes são identificados em vários contextos de relacionamentos. Por isso demandam um enfrentamento individual e coletivo.

É fácil apontar o dedo para famílias disfuncionais, mas, quando faço isso, aponto três dedos para a minha família. É preciso sair do lugar da onipotência e da prepotência e sentir-me parte desse universo.

Cresci ouvindo dizer que em briga de homem e mulher não se mete a colher. E hoje eu digo, é preciso meter a colher sim, uma vida está em risco.

Não se omita. Ligue 180 para denunciar abusos contra as mulheres.

Darei continuidade a essa temática refletindo sobre a necessidade de políticas públicas efetivas de conscientização e combate à violência de gênero. Identificando as leis de proteção às mulheres vítimas de violência.

Estão sendo garantidas medidas que permitam um controle do agressor e assistência às vítimas? O SUS oferece acompanhamento terapêutico para as vítimas de violência?

* Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

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