Dizem que os poetas têm a capacidade de predições. Suspiram pelas alcovas em versos e trovas. Fazem odes às mais sutis realidades plenas, têm a capacidade infinda duma narrativa-descritiva parnasa às suas musas tropicais. São capazes de transformar a quimera em reais sonhos imaginários, num lirismo já mais visto. Como são líricos os versejadores.

Não é à toa que a palavra ‘vate’, quando consultada no “Aurélio”, apresenta dois significados: “Indivíduo que faz vaticínios, profecias; profeta, adivinho, vidente. [Por Extensão] Aquele que compõe poesias; poeta, versejador”. Não é (qui)mera coincidência.

Pessoa afirma que bardos são fingidores, fingem até os males da dor que porventura e deverasmente sentem. Cecília os catapulta, de forma absolutamente surpreendente, ao sentimento mais sublime que orbita entre a tristeza e a alegria, também os coloca por entre os canteiros escondendo-os da melancolia.

Drummond não pensa em mundos caducos, conhece os futuros, mas não os canta. Leminski escreve sem ter um por quê. Escreve e pronto. Todos os poemas ‘que’ o anoitecem. Coralina ensina que fazer da vida um poema, nos faz viver corações jovens.

Caeiro os coloca como místicos que dizem que as flores sentem, — e sentem mesmo não é Mestre Cartola? — e que as pedras têm alma, — Drummond também o fala —, e que os rios têm êxtases ao luar. Bilac vai além e conversa com as estrelas. Levitam?

Quintana afirma que não… eu tenho cá minhas dúvidas. Espanca tem alma violeta assim como as violetas as têm. Lispector vê estrelas na poesia dos poetas que sofreram doçura e terneza. Moraes andou por céus e mares vendo poetas e reis. Queria saber o que era o amor, teve esperança de sabê-lo. Em verdade vos digo: soube!

Ah esses rapsodos, como poetam, espelho de Homero! Como são sutis, leves, enigmáticos e primorosos os menestréis e os trovadores. Eternizam as melhores lembranças e os mais singelos gestos em palavras doces. Vencem as pedras que, às vezes, teimam em ficar pelo caminho, as tais pedras pisadas do cais da solidão, com uma facilidade invejável a qualquer alpinista. Fazem das portas sol e das gavetas arquivos que esvaziam a alma que nunca é pequena.

Quero-te fazer-me poeta. Quero ser-te sutil nestes olhos tão fluídicos, nessa doçura de tuas águas, nesse terno e tenro olhar verde-alencariano das tuas matas verdejantes, pura seiva de alecrim. Quero-te me declarar diuturnamente quão grande é meu amor por ti, quão grande tenho carinho e admiração por teus poemas, por tua tonadilha destalada.

Esse teu olhar boscaniano de joia derramante que reflete o mar e cintila o sol, luminosa manhã que chegastes. Praia deserta, alva areia. Viestes do nada, viestes do tudo para o meu mais profundo amor. Esse amor crescente, envolvente, marcante, daqueles que nunca se desfarão, daqueles que nos tornam eternos querubins.

Como eu te amo, como eu te quero bem, como o bem-querer habita em minha existência por ti! Estar ao em ti é estar feliz sem fim, é bilaquiar com as estrelas todas as manhãs, é saber que a lua se apequena minguante diante de tua beleza, que o sol se põe porque ofuscas seu brilho, é rir de janeiro a janeiro.

Rio, Deus, em sua infinda bondade, me dadivou nascer aqui. Viestes Oxóssi. De olhos postos no Páramo, agradeço ao Pai diariamente essa benesse. Quanto orgulho tenho de ti nestes tantos 64 que cá estou e terei em outros tantos e mais tantos, já que és quadringentésimo quinquagésimo oitavo.

O dia amanheceu natalício em primeiro de março! O dia amanheceu um aplauso só! Tens os olhos de Deus! És o almoxarifado de Deus de Lobato. Parabéns!

*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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