Muitas empresas postam vagas na internet e colocam avisos como “todas as nossas oportunidades são também para pessoas com deficiência”. “Aceitamos currículos de pessoas com deficiência” ou frases semelhantes. 

Não estou dizendo das vagas exclusivas para o público PCD, essas, nós sabemos, existem por força de lei em empresas a partir de 100 funcionários; estou mesmo falando daquelas vagas comuns ao mercado de trabalho. 

Bem, esses dias eu navegava pelo LinkedIn, aquela rede social para profissionais, quando me deparei com o desabafo de uma pessoa com deficiência que havia participado de um processo seletivo, mas não foi aprovado e tão pouco teve retorno do setor responsável pela entrevista, embora tenha, durante a mesma, sido questionado algumas vezes sobre sua limitação. 

Obviamente o rapaz se questionava em seu desabafo sobre o peso que sua deficiência teve na hora da empresa decidir em não dar nem ao menos um feedback do processo. Aqui vale um adendo, dizem que o twitter é tóxico, para mim o LinkedIn é o twitter de terno e gravata, pois os comentários no post diziam “você sabe porque perdeu a vaga” ou “isso acontece direto, dizem que a vaga é para todos, mas nunca contratam alguém com deficiência” ou “não adianta reclamar por isso, o mercado é assim mesmo”. 

É frustrante, além de ter que lidar com a perda da oportunidade e viver assombrado com o fato de que ela pode ter sido causada pela deficiência, você ainda precisa lidar com uma certa “normalização” da prática pelas outras pessoas. 

Na hora me lembrei de uma oportunidade que tive anos atrás. Fui elogiado ao telefone por ter um currículo tão completo e diferenciado. Na época estava com 30 anos e tinha acabado de concluir minha segunda pós-graduação. Quando cheguei para a entrevista, sentei na cadeira para aguardar. Quando a moça me viu, abriu um largo sorriso, mas enquanto eu caminhei entre a poltrona onde estava sentado e a porta em que ela me aguardava, vi seu semblante mudar. Talvez ela nem tenha percebido, para mim foi constrangedor. 

Situações de rejeição da pessoa com deficiência durante a disputa de vagas convencionais são mais comuns do que parecem. As empresas pregam ser inclusivas para todos e todas, mas não praticam seu discurso logo na entrada, o processo seletivo.

Afinal, a vaga é para quem? Se é para todos, pois que o processo seja legitimamente inclusivo. Não estou dizendo que alguém deva ganhar apenas por ser PCD, o que estou pedindo é que vocês, dos setores de recursos humanos, gestores e diretores de organização, parem de usar a inclusão apenas para serem bem vistos pelo mercado. Chega de hipocrisia e comecemos a incluir de verdade.

Vinícius Fonseca é pessoa com deficiência, jornalista, tecnólogo em gestão de Recursos Humanos com especialização em assessoria em Comunicação e M.B.A. em Gestão de Pessoas. Também é escritor de poesias e contos, além de um eterno curioso

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