A advogada Thalita Tuma, de Londrina, sente falta de tempo para si, mas não lamenta a separação: “Me sinto orgulhosa“
Cecília França
Foto: Thalita e os filhos Leonardo (dir.) e Gustavo/Arquivo pessoal
A advogada Thalita Tuma acorda às 6h30 para iniciar a rotina de cuidados com os dois filhos e com o trabalho. Leva o mais velho para a escola, volta e toma café com o mais novo, sem saber se conseguirá voltar para o almoço. Costuma ficar no escritório até as 20h para dar conta de todas as demandas. Em casa, os filhos ficam aos cuidados de funcionários.
“Eu era casada e queria muito ter um filho. Engravidei e veio o Leonardo, que está com 13 anos. Aí passou um tempo ele começou a pedir um irmão e eu também estava com vontade de ter outro. Veio o Gustavo, que tem 8 anos”, conta Thalita.
“Logo depois que o Gustavo nasceu, passou um ano e eu me separei. Fiquei sozinha, o pai não dava suporte nenhum. Por um tempo ele deu um pequeno suporte financeiro e depois, nem isso. Pegava os filhos a cada 15 dias, mas até eu preferia assim, porque ele não tinha condições mesmo de ajudar”, afirma. Hoje o genitor dos filhos já é falecido.
Thalita conta com o apoio dos pais, das irmãs e consegue manter uma boa rede de atendimento, especialmente para Gustavo, que tem Síndrome de Down. Ao mesmo tempo que precisa dessa rede para conseguir se dedicar ao trabalho como advogada previdenciária em Londrina, ela precisa trabalhar para pagar todos os custos, que não são baixos.
“Eu sou autônoma e, como dizem, é igual a andar de bicicleta: se parar, cai”, compara.
O pai de Thalita acabou se tornando a figura masculina de referência para os filhos. Ela percebe, porém, que ambos sentem a ausência do pai, especialmente o mais velho.
“Ele sofreu muito com a separação, ficou uma criança mais retraída, ao mesmo tempo mais rebelde, questionadora. O Gustavo não sentiu tanto porque ele tinha só 1 ano. Mas mesmo assim sente falta, fala ‘saudade papai’. Eu tento suprir isso, mas não é a mesma coisa. O mais velho sente essa falta de poder conversar e ter essa figura masculina todos os dias apoiando. Meu pai já está mais idoso e quem supre um pouco são os tios”, comenta.
“Eu venho de uma família de quatro irmãs, meu mundo é muito feminino. Então eu tenho que pesquisar, conversar com outros homens, para me inteirar”.

Estudo da economista Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), divulgado no dia 12 de maio, mostra que em 10 anos (entre 2012 e 2022) o número de domicílios com mães solo cresceu 17,8% no Brasil, passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões. Além disso, a maior parte das mães solo (72,4%) vivem em domicílios monoparentais, apenas elas e seus filhos e filhas.
O estudo mostra que a renda das mães solo é cerca de 39% menor que a de pais casados, comparativamente. A situação se agrava entre mães negras e com menor escolaridade.
Casamento não garantiria suporte
Para Thalita, a separação não dificultou o exercício da maternidade e de cuidados com o lar porque o ex-marido nunca foi presente.
“Seria uma inspiração ter um pai em casa, mas, na verdade, esse pai nunca foi presente. Eu tenho consciência que mesmo se eu estivesse casada eu não teria esse suporte. Eu falo até que foi libertador, porque eu já cuidava de tudo. Hoje as pessoas reconhecem que sou que cuida de tudo, e antes não parecia”.
Por vezes a advogada sente o preconceito social por ter se separado do pai dos filhos, mas, em geral, sente-se apoiada.
“Na época ele estava doente, eu o acompanhei ao médico e ele falou ‘Minha filha, você tem que ficar casada’. Mas como foi um caso bem complicado, eu não senti muito, todo mundo me apoiou”, avalia.
O preconceito surge em alguns detalhes, perguntas como “Quem é o titular?”, quando está no clube. “As pessoas ainda se espantam que a titular do clube seja eu”.
“Outra questão é que tenho uma rede de apoio grande, mas até por isso, às vezes, sinto olhares de julgamento, porque não é a mãe que leva para a escola”, exemplifica.
Para Thalita, ainda estamos distantes, enquanto sociedade, de diminuir a cobrança sobre as mulheres para que sejam mães, profissionais e donas de casa de excelência. A sensação de insuficiência é constante.
“Já ouvi de terapeutas do Gustavo que eu não sou presente e, ao mesmo tempo, se eu começo a ficar muito presente eu estou largando o escritório. E cada um tem sua demanda, ninguém vai entender. É complicado. Às vezes me sinto assim: uma época me dedicando mais ao escritório, outra época me dedicando mais aos meus filhos. Quando estou mais no escritório me sinto em falta com meus filhos e quando estou com eles me sinto em falta com o trabalho”.
Falta tempo para cuidar de si
Thalita faz terapia há vários anos e esta tem sido uma das poucas atividades voltadas para si mesma. “Fico bem cansada. Queria fazer um esporte, mas ainda não consegui encontrar um horário. Preciso cuidar mais de mim, porque me deixei meio de lado”, lamenta.
Ainda assim ela tem plena certeza que não teria sido mais fácil se tivesse mantido o casamento.
“Acho que teria sido igual sem eu ter o reconhecimento por isso. Quem tocava o escritório era eu, mas todo mundo achava que era ele. Com as crianças ele ajudava zero. Sábado de manhã quem ia passear com meus filhos era eu, ele ficava dormindo. Foi um trabalho grande que tive com a terapia de entender que eu já era sozinha e que não faria diferença”.
Sair à noite, um programa que agrada à advogada, tem sido coisa rara. Com a entrada do filho mais velho na adolescência ele demanda mais atenção. O mais novo ainda acorda à noite e vai para a cama da mãe.
“É uma coisa que preciso fazer, tirar ele da minha cama, mas ainda não tomo coragem, porque vou ficar umas duas semanas sem dormir. Eu não dou conta de tudo, eu tento conciliar”.
Desde a separação Thalita não teve relacionamentos duradouros e busca preservar os filhos de conhecer eventuais novos parceiros.
“Eu prezo muito pelas crianças. Não me sinto à vontade para apresentar logo que conheço. Tive alguns relacionamentos, mas breves. Como eles são pequenos, o Gustavo mal fala, eu tenho um pouco de medo também”.
Desejos para o futuro dos filhos
“Eu espero que eles sejam homens que reconheçam o valor de uma mulher, que saibam tratar uma mulher bem, que saibam do papel deles de ajudar com os filhos e profissionalmente, dando apoio. E que eles tenham força e coragem para lutar pelo que eles querem. Que eles vejam que a mãe deles trabalha e que eles também trabalhem para conquistar o que eles querem”, declara a mãe.
“Hoje eu já sei que não preciso de homem nenhum para me ajudar. Só não aprendi ainda a trocar pneu”, brinca Thalita. “Mas o restante eu acredito que dou conta. Hoje me sinto feliz e orgulhosa”.
