No Dia Nacional da Visibilidade Trans damos luz a um aspecto cruel das vivências trans: o desafio de envelhecer em uma sociedade transfóbica
Cecília França
Foto em destaque: Christiane Lemes mostra livro sobre empregabilidade trans, uma das grandes dificuldades da comunidade T/Cecília França
Envelhecer. Um processo natural, que causa medo em alguns, sentimento de realização em outros. Fato é que alcançar seis décadas de vida representa um marco para qualquer pessoa. Para pessoas trans, envelhecer significa a superação de um desafio. Um não, vários.
Em uma sociedade altamente transfóbica, envelhecer ainda é raro para a comunidade trans, especialmente mulheres transexuais e travestis. Aos 40 anos elas já são consideradas longevas.
Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) mostram que, em 2023, 145 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, um aumento de 10,7% em relação ao ano anterior. A idade média das vítimas gira em torno de 30 anos. Os dados completos do dossiê foram apresentados no final da tarde desta segunda, 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans.

Além da violência, a falta de acesso a tratamento integral de saúde e de empregabilidade dificultam a chegada à velhice.
Christiane Lemes superou esses e outros desafios de uma travesti nascida na década de 1960. É uma sobrevivente, como já declarou em entrevista à Rede Lume em 2020. No caminho, perdeu muitas amigas para a transfobia, quando o termo sequer existia. Também viu muitas delas serem vencidas pelo HIV/Aids. Afastou-se do país para sobreviver a um governo ditatorial que queria eliminá-las.
Foram muitas as lutas. Chegar aos 60 sequer passava pela cabeça de Chris.
“Na vida trans, 35 anos é seu limite de vida. E a gente falava antigamente que a vida da mulher trans (no trabalho) vai até essa idade e depois acaba, é igual vida de modelo. Se você ‘se fez’ até essa idade, tudo bem, se não fez…”, diz ela. “Mas eu realmente não esperava chegar aos 60 anos. E olha as lutas que foram passadas, o sofrimento…Porque foi muto sofrido, a vida foi muito hostil”.
Foi após sair da casa da família, na região de Londrina, e ser ‘empurrada’ para fora da escola, ainda na pré-adolescência, que Chris descobriu no balé uma vocação e uma atividade profissional. Depois, veio o trabalho em salão de beleza. Naquela época, a união entre as travestis era grande e isso foi essencial para que elas enfrentassem o que estava por vir.

‘Caça’ às travestis
A epidemia do HIV/Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), que chegou ao Brasil na década de 1980, trouxe um pânico social. Apontada como uma “doença gay”, fez com que todos os holofotes se voltassem para a comunidade LGBT e as travestis se tornassem alvos.
Nas ruas, de onde a maioria tirava seu sustento, eram violentamente abordadas por policiais, levadas para delegacias, desrepeitadas em sua dignidade. As ações seguiam os moldes da Operação Tarântula, que ocorreu em São Paulo em 1987.
“As pessoas dependiam da rua para sobreviver, então elas enfrentavam a polícia se cortando com gilete. Porque era o sangue que eles temiam. As mais antigas se vangloriavam de quantos cortes tinham no braço, algumas até no pescoço. Era um tipo de sobrevivência. Nunca toquei nesse assunto, porque é uma coisa que estava apagada. Mas eu vi os braços dessas pessoas, o pescoço dessas pessoas”, relembra Chris.
Sobrevivência no exterior
Ela e outras amigas, num movimento de sobrevivência, buscaram refúgio no exterior.
“A gente era muito unida. Então, as lideranças doutrinaram a cabeça das travestis para que elas pudessem sobreviver a isso. Qual foi a opção? Ir para a Europa, porque se ficasse aqui a gente seria exterminada. Foi a época que eu saí no balé, me transformei mesmo, e fui para a Europa, em 1986”, lembra Chris.
Lá ela ganhou a vida como bailarina e retornava ao Brasil anualmente para o Carnaval, momento de luxo para as travestis.
“Chegava final de ano a gente se preparava para Natal, Reveillon, esperava o Carnaval e, depois, embarcava de volta. Foram muitas idas e vindas. O Carnaval foi muito especial para a população trans”, relembra.
Ela acredita que a união das travestis antigamente tenha sido responsável por garantir os avanços conquistados até agora pela comunidade.
“Como a gente não tinha nada ainda, a gente queria alguma coisa. Porque lá atrás foi meio constragedor o aparecimento das travestis, mas agora já é normal. As meninas estão nascendo travestis dentro de casa. As coisas mudaram muito”, compara.
“Muitas da minha época desapareceram pelo mundo, ninguém sabe para onde foram e elas não tinham contato com a família”.
O envelhecimento
Sobre o processo de envelhecer, Chris comenta cantando: “‘Mas tudo passa, tudo passará’. Tudo que era durinho cai um dia”, brinca.
“Mas minha participação em tudo que vivemos foi muito boa. Quando olho para trás, vejo que sempre fui base. Tudo que aconteceu para as travestis aqui eu estive articulando junto”.
Chris recebe uma pensão governamental e faz artesanatos para se manter. A casa própria, fruto de seus anos de trabalho na Europa, lhe dá uma tranquilidade.
“Eu fui para lá com uma proposta na cabeça: ‘Quando eu voltar eu jamais vou voltar a dormir nesses bosques da vida. Jamais.’ Primeira coisa que eu fiz, quando voltei, foi comprar minha casa”, relembra.
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Aos 60 Chris diz que sente “Um peso eterno nas costas, por tudo que carreguei até aqui, mas eu fiz isso virar maravilhas e com isso sobrevivi, ri e curti a vida”.
“Porque quando eu saí da família eu não tinha expectativa de nada. Eu fui criando tudo: como eu ia viver, quem eu ia ser, o que eu ia fazer. Quando pisei na Europa eu pensei ‘É tudo que eu quero’. Se eu tivesse me privado do luxo que eu tive, o que eu faria com o dinheiro agora?”.
E ela espera conseguir cuidar de si até o fim da vida. “Eu vou tentar sobreviver até quando der. Se precisar de ir para uma casa de apoio eu sou bem fácil de acostumar nisso. Mas o que vou fazer é viver até quando der”.
Para garantir que mais e mais travestis e transexuais possam envelhecer, Chris aponta a necessidade de acolhimento.
“A sociedade precisa abraçar essas pessoas”.
Saúde, trabalho e acolhimento
Oliver Letícia Fernandes de Oliveira, da Frente Trans de Londrina, destaca a falta de acesso a atendimento de saúde decente, ao mercado de trabalho e a moradia como os principais empecilhos para a longevidade especialmente de mulheres travestis e transexuais.
Ele argumenta que o trabalho formal traz perspectivas de vida diferentes da prostituição, atividade para a qual a maior parte delas é empurrada.
“Na prostituição, sujeitas a violência, é um dos fatores que faz com que a expectativa de vida das mulheres trans e travestis seja de 35 anos. O fato de terem sido expulsas da escola e de casa muito cedo, tudo isso dificulta a empregabilidade”, explica.

Quando se trata de pessoas pretas, as dificuldades se agravam. “Quando a gente vai ver a história, temos vários simbolos de mulheres trans e travestis brancas, como a Roberta Close, que, na década de 1990 fez muito sucesso na TV brasileira e está viva até hoje. A gente percebe que teve um outro acesso”, comenta.
Quanto a homens traz, a estrutura patrarcal garante mais acessos, porém, o recorte racial também limita as possibilidades para homens pretos.
“Eu tenho consciência de que com essa passibilidade que eu tenho hoje, passo despercebido. Eu consigo um emprego formal. Mesmo não tendo uma faculdade, eu tenho essa passabilidade. Ainda assim, a gente não vê homens trans pretos nesses lugares também. No mercado de trabalho, estando como referência de corpos…”, questiona.
Para Oliver nem mesmo os direitos básicos são garantidos à população trans. “Saúde, moradia, acohimento, ajudaria para pessoas que são expulsas. A gente vive numa democracia onde a Constituição prevê os direitos de viver, comer e morar. Poderia ter o acolhimento, o governo poderia promover a questão da empregabilidade para que elas acessem o mercado de trabalho; dentro das escolas poderia ter um atendimento com psicólogo – e isso não só para a população trans”, explica.
“Não é dificil trazer os pontos que precisam mudar, o dificil é ter um interesse do estado nos nossos corpos. É isso que interrompe nossas vidas. Estamos como Frente Trans muito atrás nas nossas conquistas porque o estado não tem essa preocupação”.
Oliver ressalta que faltam pessoas trans ocupando espaços decisórios e de poder e que acaba dificultando a criação de políticas públicas efetivas.
“Há décadas os movimentos batem no peito e dizem ‘Tenha orgulho, se assuma’, mas, ao mesmo tempo que a pessoa se assume, ela é expulsa e colocada no mesmo lugar de violência que uma pessoa enfretava nas décadas de 1970 e 80. Não é essa história que a gente quer continuar escrevendo.”
Ausência de estudos
A gerontologia, ciência que estuda o envelhecimento humano, padroniza esse processo cronologicamente, tratando pouco de especificidades como as da população trans.
“As mulheres transexuais e travestis têm expectativa de vida de 35 anos, se forem brancas, e de 28 anos se forem negras. A gerontologia não vai falar disso. Você pega qualquer estudo sobre o envelhecimento e ele vai manter o marco de 60 anos como a entrada na terceira idade”, explica o gerontólogo e comunicólogo Regis Moreira, colunista da Rede Lume.
A ausência de estudos cria um vácuo que dificulta a formulação de políticas públicas para essa população, “porque ela passou de 35 anos, não é uma idosa do ponto de vista cronológico, porém é uma sobrevivente. A gente diz que é uma longeva”, ressalta Regis.
“Isso vai denotar que todo o nosso estudo sobre envelhecimento humano está pautado no cronológico. Mas tem gente que vai ter um envelhecimento biológico, psicológico e sociológico, mesmo que não seja trans, antes da marca dos 60, 65 anos”.
“A Chris afirma que é uma sobrevivente, e é isso mesmo. Ela sobreviveu ao que se esperava que ela vivesse. Eu imagino o terror que deve ser ultrapassar a marca sabendo que tem toda uma estrutura esperando que você morra ou para te matar, porque não era para essa mulher estar viva”, questiona.
Quando o envelhecimento acontece, o gerontólogo questiona com qual qualidade se dá esse processo.
“Cerca de 90% das mulheres travestis e transexuais são empurradas para a prostituição e o fator envelhecimento, para essa atividade, é muito ruim. Então tem toda uma estruturação para empurrar para uma morte precoce. As que sobrevivem a isso têm uma dificuldade grande, por conta de aposentadoria, por exemplo”, afirma.
O gerontólogo ressalta, ainda, questões de sociabilidade, essenciais para o bem estar e, muitas vezes, distantes para pessoas trans e travestis.
“Esse cenário tem se modificado, mas, muitas vezes, essa menina que era colocada para fora de casa, empurrada para a prostituição, caía na mão de cafetinas; se colocava silicone de maneira muito precária, industrial; este silicone, ao envelhecer, começa a dar várias problemas de saúde. Essa travesti que passa dos 60 anos ela vai ter muita dificuldade de sociabilidade, porque às vezes o silicone deformou, ou foram vítimas do HIV/Aids e tem uma precariedade decorrente de tudo isso que é muto maior na terceira idade. Então elas saem muito menos, ficam confinadas. É difícil ver travestis e transexuais idosas nas ruas. Elas existem, mas a gente não as encontra”.
“Aí fica bem evidente que não é uma questão só cronológica. Tem uma questão social, econômica, do acesso à saúde, que fica totalmente vulnerabilizado”.
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