Por Saraí Brito*

Foto: Saraí com o filho Pablo em evento da ONG Autimizar/Arquivo pessoal

Ser mãe atípica é viver na interseção entre o cuidado e a resistência. É amar incondicionalmente um filho que desafia padrões, diagnósticos e estruturas sociais — e, ao mesmo tempo, enfrentar um sistema que insiste em invisibilizar essas maternidades. A política, nesse contexto, deixa de ser algo distante ou abstrato: ela se torna pessoal, urgente, cotidiana.

A mãe atípica é política mesmo quando não deseja sê-lo. É política ao lutar por inclusão, ao cobrar acessibilidade, ao disputar o direito à educação e ao cuidado digno. É política quando enfrenta a negligência do Estado, o despreparo das instituições e o preconceito camuflado nas interações sociais. Sua maternidade é marcada pela presença constante de laudos, filas, terapias e burocracias — e pela ausência de apoio, escuta e representatividade.

Mas essas mulheres não se limitam à dor. Elas constroem redes, ocupam espaços, erguem pautas. São vozes que desafiam silêncios. Ao se reconhecerem como agentes políticos, elas reivindicam não só direitos para seus filhos, mas também um novo modelo de sociedade: mais sensível, mais justa, mais humana.

Por isso, falar de mãe atípica é também falar de transformação social. É entender que onde há cuidado, há resistência. E onde há resistência, há política viva.

*Saraí Brito é mãe atípica, fundadora da ONG Autimizar