Manifestantes fecharam o trânsito em ao menos quatro pontos; na Bratac, ato foi reprimido com balas de borracha

Cecília França e Nelson Bortolin

O início da noite de terça-feira (10) foi marcado por protestos contra a letalidade policial em diversos pontos de Londrina. Um deles, a entrada do bairro Nossa Senhora da Paz, a Favela da Bratac, na zona Oeste. Moradores impediram o trânsito na Avenida Brasília com barricadas de pneus em chamas e empunharam faixas pedindo justiça, mas o protesto foi logo dispersado pela polícia com tiros de balas de borracha. Alguns revidaram atirando pedras. Acuados, os moradores transferiram as barricadas para as ruas de acesso às casas, segundo eles, para se proteger.

Os protestos voltaram a acontecer após a morte de Gabriel Felipe Dalbello, de 22 anos, no último dia 6, pela polícia, na zona Leste de Londrina. Segundo a PM, Gabriel tinha mandado de prisão em aberto e teria apontado uma arma para os agentes durante abordagem. A família classifica a versão como mentirosa e diz que a arma foi plantada.

Enquanto o protesto começava na Bratac, onde Gabriel morou quando criança, a família dele se concentrava próximo ao viaduto da Avenida Dez de Dezembro. Barricadas com pneus em chamas impediram o trânsito na avenida e Theodoro Victorelli, em frente ao shopping Boulevard, nos dois sentidos. A mãe de Gabriel, outros familiares e amigos usaram um microfone para discursar contra o que consideram execução.

Outro Gabriel, de apenas 11 anos, estava no grupo e também fez uso do microfone. À Rede Lume, ele contou que chorou muito quando soube da morte do Gabriel Felipe. Mas essa não foi a primeira vez que o menino viveu essa experiência traumática. “Mataram um tio meu, tem uns cinco anos”.

O protesto na Dez de Dezembro durou cerca de quarenta minutos, de forma pacífica. Apenas após a dispersão dos manifestantes policiais apagaram o fogo dos pneus.

Opressão na Bratac

Desde a morte dos jovens Wender Natan da Costa, de 20 anos, e Kelvin Willian Vieira dos Santos, de 16, a Bratac não tem sossego. “Você tem que provar o tempo todo que seu filho é trabalhador, que não mexe com nada. Isso não é vida não”, desabafa Sirlene, mãe de Kelvin.

Ela conhece a família de Gabriel, morto na semana passada. E argumenta que matar não soluciona o problema da criminalidade.

“Quer acabar com a criminalidade? Ressocializa o preso. Não solta a pessoa mais revoltada ainda. Quer acabar com a criminalidade? Faz projeto social, ajuda a comunidade mesmo. Porque quem faz por nós é a própria comunidade, senão não tem nada”, afirma.

Silmara, outra moradora, contou em vídeo os fatos da noite e explicou como se sente sendo moradora do bairro e mãe de dois jovens. Assista: