Você já percebeu os olhares?
Andando na rua
Despretensiosamente
E a sensação de ter alguém de olho em você.
Não só a sensação
A certeza!
Sentindo o peso dos mesmos
Desde quando se sai do conforto de sua casa
Em todos os caminhos pelos quais se passa.
E andando na rua eu vou
Sentindo um por um
Todos esses olhares.
Não é como se fosse uma proeza dantesca
Eles não se escondem
Carregam em si um letreiro luminoso
Visível a quilômetros mesmo em uma noite escura.
E não se engane
Eles não se prendem a olhares
Existem atos também
Movimentos tão sutis quanto um giro de uma bailarina
Mas que a mim são tão grotescos quanto o dançar de um pugilista.
Uma mão que se fecha
Um corpo que se contrai
Lentamente a postura defensiva surge
O medo toma o ambiente
Tão latente que sou quase capaz de cheirá-lo.
E esses olhares continuam a me perseguir
Eternamente
Onde quer que eu vá
Mesmo um conhecido me dirige tais olhares
Antes de identificar a mim como eu mesmo.
E no meu olhar?
Reside o medo também
Atento a tudo e todos
Perscrutando o ambiente
Em busca de qualquer ameaça
Mesmo que ela tivesse jurado me proteger.
Eu sou um homem livre
Mas os olhares me julgam como um condenado
E eu vivo como se andasse com correntes nos pés
Meu crime?
A pele de ébano que me foi conferida.
Dispensamos comentários hoje, apenas uma análise fria da vida diária de alguém que nunca sabe se vai poder voltar para casa, a alforria dos meus não foi escrita em uma carta muito menos redigida em uma lei. Ela apenas nunca aconteceu, um contrato velado de transmitir a mentira mais bem contada desse país.
*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me
