Em Informe especial, Néias presta homenagem a Eduarda Shigematsu e outras vítimas e clama pela vida das meninas e mulheres

Cecília França

Imagem em destaque: Montagem a partir de memorial de Néias

Cerca de um mês atrás, quando nos reunimos para discutir os julgamentos que iríamos acompanhar do mês de março, eu e as demais companheiras voluntárias do Néias nos deparamos com uma infeliz coincidência: pelo segundo ano consecutivo, nas proximidades do Dia Internacional das Mulheres, teríamos um caso de feminicídio de uma criança.

Em 2023, Néias-Observatório de Feminicídios Londrina homenageou com o ato “Se essa rua fosse minha” a menina Sara Manuele da Silva, de 9 anos, cujo feminicida foi julgado no dia 7 de março daquele ano. Ontem, 7 de março de 2024, deveriam ir a julgamento o pai da menina Eduarda Shigematsu, de 11 anos, Ricardo Seidi, e sua avó, Terezinha Guinaia, mãe de Ricardo. Néias se preparava para um ato em frente ao Fórum, em homenagem a Eduarda e a todas as meninas vítimas da face mais cruel da violência de gênero. Mas o júri acabou adiado, pela quarta vez.

Não poderíamos, no entanto, deixar de lembrar Eduarda de alguma forma. Motivadas pela presidenta do Observatório, Martha Ramírez-Gálvez, construímos o Informe Especial “Infâncias silenciadas: meninas vítimas do feminicídio”. Nele, lembramos e honramos em um memorial Sara, Eduarda, e outras quatro meninas paranaenses assassinadas em 2023: Kameron Odila Gouveia, de 11 anos, Izabely alexandra Mariano, de 8 anos, Maria Cecília Silva de Souza, de 4 anos, e Ellen Craveiro, de 22 anos, encontrada morta ao lado dos filhos: uma menina de 4 anos e um recém-nascido.

Em nome delas construímos nosso grito de “chega!”. Chega de nos matar. Chega de nos violentar desde a mais tenra infância.

Ato de Néias em 2023/Foto: Arquivo Néias

Para Néias, “Contar um pouco sobre esses crimes e publicar suas fotos é uma forma de preservar a memória de Kameron, Izabely, Maria Cecília, Ellen e sua filha e filho, de ecoar os pedidos de justiça para que não nos matem desde meninas.”

“Precisamos pensar que uma sociedade que consente com a objetificação de suas mulheres, desde a infância, revela um problema que transcende a individualidade dos algozes, evidenciando a necessidade de uma luta constante, em todas as frentes, pelo direito das mulheres a uma vida plena e digna em todas as fases de sua existência”, acrescenta o documento.

‘Precisamos entender feminicídio dentro de um contexto maior’

O Informe do Néias traz dados do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) e do Fórum Brasileiro da Segurança Pública (FBSP). O Lesfem mostra que, em 2023, 69 meninas de até 14 anos foram vítimas de feminicídios consumados ou tentados no país; 5 no Paraná.

Os dados do FBSP reitera que o feminicídio faz vítimas desde a mais tenra infância, sendo a faixa dos 12 aos 17 anos a de maior incidência. Os agressores são, em sua maioria, homens conhecidos. Em muitos casos há histórico de agressões sexuais.

“Observamos que a misogonia se coloca desde o início da existência das mulheres. O fato de termos feminicídios de meninas de 0 a 11 anos, ou mesmo menores de 17, mostra que, de fato, temos riscos em todas as etapas da vida” destaca Martha Ramírez.

Ela aponta que em muitos casos o feminicídio é o ápice de um histórico de violências enfrentado por essas meninas. “Em muitos casos, estupros. Temos no memorial ao menos um desses casos, o da menina Sara. Elas são vistas coisas e não como sujeitos, o que é bastante doloroso”.

Martha explica que a violência feminicida precisa ser lida de uma maneira interseccional, que considere questões como o machismo, o racismo e até mesmo a infância.

“São todas condições que, de alguma maneira, tentam objetificar essas pessoas, tirando o status de ‘pessoas’, tirando o respeito à dignidade e o respeito à sua integridade física e emocional”, explica.

Em matéria publicada também hoje na Rede Lume, lembramos outra luta invisibilizada, a das mulheres indígenas por vida digna, pelo fim das violências nos territórios – violências contra o corpo e a alma de meninas e mulheres que têm levado a altos índices de suicídios.

Somos muitas, somos múltiplas, mas nossas vidas seguem sendo ameaçadas em todos os segmentos, como mostra levantamento do Lesfem da Universidade Estadual de Londrina (UEL) divulgado nessa semana.

Nosso 8M não é de comemoração, mas de luta para que meninas e mulheres vivam. E vivam com dignidade.

 

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