Por Laura Mendes Grosso* e Jaqueline Vieira**

Montagem: fotos da AROL (agência UEL) e Centro Cultural Kaingang Vãre/Filipe Barbosa

Nos últimos meses, parte da população londrinense tem feito uma contagem regressiva para o aniversário de 90 anos da cidade (Globo, 2024). Campanhas participativas foram lançadas em prol dessa comemoração, como o projeto “Londrina 90 anos e CML – A História que Constrói o Futuro” e o projeto “Vamos pintar Londrina”. Este último consiste em um mapa a ser colorido, com os principais pontos turísticos, comerciais e históricos do município definidos pelo projeto. A proposta incentiva pessoas de todas as idades a colorirem essa história, com distribuição prevista nas escolas municipais. Para a atual gestão municipal, essa é uma iniciativa interessante, pois o mapa sintetizaria os 90 anos da cidade, proporcionando uma sensação de pertencimento para os londrinenses e recuperando o orgulho de fazer parte desse território (Jornal União, 2024; Folha de Londrina, 2024).

Ao refletirmos sobre os 90 anos de Londrina e analisarmos as campanhas celebrativas que tentam sintetizar e tornar esse marco parte do mito de “identidade municipal” que a cidade constroi, surgem questões inevitáveis que nos convocam à reflexão e ao questionamento. Essas questões dizem respeito não apenas ao passado da cidade, mas também aos futuros que ela projeta, especialmente quando as narrativas sobre sua história e memória foram construídas com base em apagamentos e silenciamentos das populações negra e indígena presentes no território.

Onde estão os “outros” na narrativa oficial sobre a história de Londrina? A pergunta, que à primeira vista pode parecer simples, revela uma estrutura bem organizada de exclusão, similar à lógica da plantation. Afinal, uma “zona pioneira” como essa só pode produzir uma subjetividade monocultural. Um simples mapa produzido como maneira de homenagear a cidade demonstra essa cartografia da exclusão. A permanência dessa narrativa é evidente, por exemplo, quando os diferentes povos indígenas presentes em Londrina e região são representados por imagens estereotipadas e legendados como “outros”, sem qualquer outra informação.

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Ao consultar o portal da prefeitura de Londrina, em busca da história da cidade, encontramos uma narrativa baseada na publicação comemorativa do cinquentenário da Companhia Melhoramentos do Norte do Paraná (CMNP), responsável por colonizar a cidade e que se valeu do slogan: “a mais notável obra da colonização que o Brasil já viu”. A Companhia se descreve como resultado de um “espírito curioso e empreendedor, inerente à natureza de certos homens e manifestado de maneira tão viva naqueles que o destino escolhe para dilatar fronteiras e descobrir novos caminhos” (Londrina, 2024; CMNP, 2013).

Essa narrativa ignora as tensões e violências que marcaram a fundação da cidade, mas que não passaram despercebidas por um importante antropólogo que esteve na região em 1934. Claude Lévi-Strauss, em seu livro Tristes Trópicos (1955), descreveu cenas dessa colonização recente e questionou os limites desse suposto progresso. Ele pontua as consequências desastrosas à paisagem da região, além do destrato da sociedade nacional figurada pelo antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) com os povos indígenas aldeados nos arredores da cidade.

As pesquisas que analisam as narrativas sobre Londrina e sua relação com as diferentes populações que coexistem no território apontam críticas aos “discursos oficiais” que buscaram moldar a identidade da cidade sob uma perspectiva universalizante e eurocêntrica. Não à toa, houve a necessidade de uma retomada do espaço institucional do Museu Histórico de Londrina, exigindo que as palavras “vazio demográfico” fossem retiradas da placa instalada na entrada. Em seu lugar, foi informado que a região sempre foi habitada por povos indígenas há mais de três mil anos. Esse discurso oficial, que menciona o mito do vazio demográfico, oculta o genocídio dos ancestrais e perpetua o etnocídio dos grupos indígenas que vivem atualmente na cidade (Panta, 2018; Silva, 2013; Silva; Panta; Souza, 2014).

Print feito pelas pesquisadoras mostra indígenas como “outros” em mapa da campanha “Vamos colorir Londrina”

Construídas em torno da exaltação do “pioneiro desbravador”, os mitos desenhados em torno da fundação da cidade também reforçam a ideologia da democracia racial e do embranquecimento populacional, ignorando as desigualdades históricas e culturais, enquanto perpetuam a imagem de Londrina como um ‘El Dourado’ idealizado (Panta; Silva, 2020; Oliveira, 2002).

No processo de construção histórica, é impossível ignorar os atores que a moldam, os contextos onde ganham força e as relações de poder que as sustentam — e isso não é exclusividade de Londrina. As desigualdades que permeiam a produção das histórias nos remetem à forma como o silenciamento foi utilizado historicamente como ferramenta do colonialismo, definindo quem pode falar e em quais condições. Trata-se de um instrumento sofisticado utilizado como tecnologia meticulosa de apagamento sistêmico de vidas racializadas. Isso nos leva a refletir sobre o que acontece quando falamos, como falamos e quais vozes são autorizadas a ocupar esses espaços (Trouillot, 2016; Kilomba, 2019).

Os discursos sobre a história oficial da cidade foram reforçados durante o jubileu de prata de Londrina, quando completou 25 anos. Enquanto parte da população reafirmava a grandiosidade da cidade com discursos que exaltavam sua colonização violenta, o clube negro local, a AROL, preparava-se para uma das primeiras manifestações públicas contra a segregação racial no território. Com cartazes que proclamavam: “AROL, pelos povos livres, sem preconceitos”, a associação também promovia bailes, desfiles de beleza, eventos culturais e desfiles de escolas de samba, fortalecendo a resistência negra na cidade (Leme, 2013; Diniz, 2010).

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Chegando até aqui, podemos concordar que Londrina tem uma grande problemática em sua relação com a história e a memória. São notáveis os esforços para preservar a memória da cidade, mas apenas de um grupo específico e de uma história específica. Em contrapartida a esse processo, as trajetórias e presenças invisibilizadas têm sido preservadas por meio da memória oral de suas comunidades e de pesquisas que se tornaram meios para contribuir com o resgate dessas histórias.

Esses movimentos têm permitido não apenas reescrever as formas de apresentar o passado, mas também recuperar memórias como as dos Pás e Picaretas, Manoel Cypriano, Dr. Oscar Nascimento, Dona Vilma Yá Mukumby, Agenor Evangelista, do Zumbi Bar, da Mostra Afro-Brasileira Palmares, da AROL e das mais de 22 escolas de samba que, ao longo de seis décadas, desfilaram pelas ruas de Londrina, criando suas próprias premiações e enchendo o centro da cidade de vida e cultura (Grosso, 2024). Além disso é importante ressaltar a presença dos habitantes do Vãre Kaingang (aldeia provisória na língua kaingang), às margens da Avenida Dez de Dezembro, que já se tornou um Emã (aldeia fixa), demonstrando que Londrina também é terra indígena.

Ao celebrar seus 90 anos, Londrina tem a oportunidade de redirecionar seu olhar e reconstruir sua história. Cabe a nós decidir o que queremos — e, sobretudo, o que devemos — lembrar, e refletir sobre os motivos dessas escolhas. Inspirando-nos na filosofia Sankofa, podemos seguir em frente, mas sem deixar de retornar ao passado para recuperar o que foi propositalmente silenciado. Como ensina Agenor Evangelista: “ninguém morre enquanto perpetuar sua história”, lembrando-nos de que registrar é também existir. Diante disso, se momentos celebrativos e marcos temporais abrem precedentes para revisitar essas narrativas, aproveitemos essa ocasião para recriar a história de Londrina de forma mais honesta, incluindo a agência daqueles que sempre estiveram presentes, mas que foram deliberadamente ignorados.

*Laura Grosso é Cientista Social (UEL) e Mestra em Sociologia (UFSCar)
** Jaqueline Vieira é Cientista social (UEL) e Mestranda em Antropologia Social (Museu Nacional – UFRJ)

Referências

BORGHI, Eduardo Baroni; DINIZ, Larissa Mattos. A População Negra em Londrina: uma luta por reconhecimento. In: XIV Encontro Regional da ANPUH Rio: Memória e Patrimônio. Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1276743030_ARQUIVO_ANPUH _ AROL.pdf. Acesso em: 12/06/2023.

COMPANHIA MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ (CMNP). Colonização e desenvolvimento do norte do Paraná: depoimentos sobre a maior obra do gênero realizada por uma empresa privada. 3. ed. 24 set. 1975. Londrina: Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, 2013.

FOLHA DE LONDRINA. CML lança campanha participativa pelos 90 anos de Londrina. Folha de Londrina, Londrina, 6 set. 2023. Disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/cidades/cml-lanca-campanha-participativa-pelos- 90-anos-de-londrina-3264663e.html?d=1. Acesso em: 9 dez. 2024.

GLOBO. Faltam 6 dias para o aniversário de 90 anos de Londrina. Globoplay, [s.d.]. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/13156709/#:~:text=Faltam%206%20dias%20para%20o%2 0anivers%C3%A1rio%20de%2090%20anos%20de%20Londrina,-Detalhes. Acesso em: 9 dez. 2024.

GROSSO, Laura Mendes. “O negro toca, o negro canta e o negro dança, foi lá no meu terreiro que aprendi desde a infância”: a prática cultural do samba enquanto uma encruzilhada de experiências e agências afro-diaspóricas. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). São Carlos, 2024.

JORNAL UNIÃO. “Vamos pintar Londrina” é lançado em homenagem aos 90 anos da cidade. Jornal União, Londrina, 24 jul. 2023. Disponível em: https://jornaluniao.com.br/noticias/londrina/-vamos-pintar-londrina-e-lancado-em-ho menagem-aos-90-anos-da-cidade. Acesso em: 9 dez. 2024.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. Tradução de Jorge Constante Pereira e revisão de Ruy de Oliveira e Henrique Fiuza. Lisboa: Edições 70, 1986 [1995].

LEME, Edson José Holtz. O Teatro da Memória: o Museu Histórico de Londrina: 1959-200. 2013. 276 f. Tese (doutorado) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Filosofia Júlio de Mesquita Filho, Ciências e Letras de Assis, 2013.

LONDRINA. História da cidade. Disponível em: https://portal.londrina.pr.gov.br/historia-cidade. Acesso em: 10 dez. 2024.

OLIVEIRA, José Donizetti B. de. O Mito da Democracia Racial: um olhar sobre os movimentos negros em Londrina – 1940-1990, 2002. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

PANTA, Mariana Aparecida dos Santos. Relações raciais e segregação urbana: trajetórias negras na cidade. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Filosofia e Ciências, 2018.

PANTA, Mariana e SILVA, Maria Nilza. Cidade, branqueamento e colonialidade: A construção dos matizes da identidade de Londrina e os impactos sobre a população negra. Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 10, n. 1, 2020.

SILVA, Maria Nilza. A cidade de Londrina: Desigualdade, território e pertencimento étnico-racial. In: XXVII Simpósio Nacional de História – ANPUH. Natal (RN), jul. 2013.

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TROUILLOT, Michel-Rolph. [1995] Silenciando o passado: poder e a produção da história / Michel-Rolph Trouillot; tradução de Sebastião Nascimento. – Curitiba: huya, 2016. 272p.