Por Beatriz Herkenhoff, Ludmilla Camilloto e Maria Anita Brasileiro Falcão*

Foto em destaque: Pixabay

Em minha cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim (ES) o cinema era um ponto de encontro entre os jovens. Quem nunca iniciou um namoro no cinema? Lembranças que ficam para sempre.

Amo animação! Quando meu filho Stefano completou cinco anos criei um lindo ritual de ir ao cinema levando no mínimo dez crianças.

Com a maturidade passei a ter um diálogo mais crítico com os filmes, atenta à ausência de atores negros e às mensagens subliminares que fazem parte da constituição do sujeito e da formação de sua identidade.

Estudos publicados pela Universidade de Southern, na Califórnia, em 2016, indicam que brancos representavam 70,8% dos papéis (com falas) nos 100 títulos de maior bilheteria. Enquanto que os atores negros totalizavam apenas 13,6% em um universo de 4.583 personagens.

Fiquei impactada quando assisti Pantera Negra em 2018. Foi um marco para a representatividade negra nos filmes de super-heróis, no qual o elenco era majoritariamente afro-americano.

Quando li a proposta da tese de doutorado em Educação de Ludmilla Camilloto convidei-a para escrever esta crônica comigo, pois sua temática sobre cinema, identidade e racismo tinha a ver com minhas buscas.

A pesquisa de Ludmilla, intitulada “Espelhos identificatórios e os efeitos na constituição subjetiva de crianças – uma análise étnico-racial sobre os personagens do cinema”, articula três grandes eixos temáticos: a psicanálise Freudiana e Lacaniana com os conceitos de identificação e constituição subjetiva; as reflexões étnico-raciais com estudos críticos da branquitude (faz a interlocução entre psicanálise e racismo tendo como referência Frantz Fanon e Neuza  Santos Souza) e estudos sobre cinema e processos de subjetivação. 

Com a palavra, Ludmilla:

Minha motivação para o tema teve origem nos diálogos com meu filho Heitor, de 8 anos, uma criança branca. Ele coleciona bonecos de super-heróis e sempre foi muito curioso e questionador, pois desde muito cedo eu conversava com ele sobre questões raciais e de gênero. Heitor começou a perguntar porque sua coleção de heróis, assim como os filmes que assistíamos, não tinham personagens mulheres, negros e negras.

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Ao buscar no mercado super-heróis negros e femininos, descobrimos que a oferta era limitada. O mesmo valia para as tão conhecidas princesas da franquia Disney. Decidi, então, pesquisar sobre esse tema com o objetivo também de incluir meu filho no universo da pesquisa.

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Parti do pressuposto de que o cinema e a indústria cultural como um todo, exercem uma influência na produção de conhecimentos, no imaginário coletivo e na convocação de fantasias.

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Mesmo quando as pessoas não têm acesso direto ao cinema, tendo em vista o alto preço para a maioria da população brasileira, a indústria passa a comercializar camisetas, brinquedos, itens escolares, mochilas, etc, com imagens de heróis e princesas da Disney.

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Na elaboração da proposta da pesquisa, observamos que há uma ausência quase absoluta de protagonistas negros nessas narrativas. Ocorre um apagamento da cultura negra, da sua identidade e dos seus corpos. Ou, ainda, há uma representação negativa desses personagens, sendo retratados de forma subalternizada e até criminalizada.

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A Indústria cultural como um todo, as novelas brasileiras, os filmes hollywoodianos ganham salas de cinema no mundo todo e entram em nossas casas com histórias e personagens que enaltecem, a todo tempo, o poder da branquitude.  Atrela às pessoas brancas (quase que exclusivamente) características e virtudes ligadas ao belo, inteligente, corajoso, nobre, rico etc. Enquanto isso, o modelo de referência da negritude ocupa lugares de menor relevância, vinculados a papeis secundários.

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Quando as publicações de histórias em quadrinhos ganham a TV e o cinema por meio de animações, séries e filmes, passam a povoar o imaginário infantil. As crianças, comumente, brincam de faz de conta que são princesas ou heróis. Embora o foco da pesquisa seja o marcador étnico-racial, também observo no marcador de gênero a forma como as mulheres são retratadas nos filmes de princesas e a forma como os homens são representados como heróis.

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A pergunta central que conduziu a pesquisa é se a ausência de personagens cinematográficos negros poderia produzir algum efeito na constituição da subjetividade das crianças, principalmente na percepção da criança sobre o que significa ser uma pessoa branca e ser uma pessoa negra.

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A hipótese preliminar é de que quando apresentamos espelhos identificatórios positivos para as crianças negras, elas possam se nutrir de uma imagem mais positiva de si mesmas, com fortalecimento da autoestima, da autoconfiança, do reconhecimento racial de si e do orgulho de ser quem são. No caso das crianças brancas, o contato precoce com representações positivas da negritude pode produzir tensionamento na supremacia da branquitude e influenciar posturas antirracista ao longo da vida.

Ludmilla Camilloto pesquisou a influência étnico-racial sobre os personagens
do cinema após uma conversa com o filho de 8 anos/ Arquivo Pessoal

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No entanto, as crianças negras não encontram esses signos de forma farta, seja nos livros, nas histórias de faz de conta, na televisão, nos espaços de poder no legislativo, no executivo e no judiciário.

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Tendo em vista esses objetivos, estou realizando oficinas com 23 crianças, entre cinco e seis anos de idade, negras e brancas de uma escola pública de educação infantil. Utilizo diversas dinâmicas de autoidentificação com espelhos, com bonecas e bonecos brancos e negros, com todas as princesas e super-heróis negros e brancos. Passo trechos de filmes e analisamos histórias de personagens negros, e também lemos livros como “O Pequeno Príncipe Negro” e “A cor de Coraline”. Discutimos, por exemplo, a questão do “lápis de cor de pele”, que não é somente aquele lápis rosinha ou bege, mas todas as cores de todas as peles.

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Com brincadeiras mais livres, menos direcionadas, a criança traz para o universo do imaginário fragmentos de sua realidade. Experiência que propicia o desenvolvimento cognitivo, linguístico e social. O objetivo é que tenham a compreensão e valorização de si mesmas.

Com a palavra, Beatriz:

Fiquei muito sensibilizada com todos os questionamentos levantados por Ludmilla. Voltei à minha infância, revisitei minha história. Como mulher branca nunca sofri discriminação racial. E não percebia o apagamento da cultura negra e de sua identidade. Nesse momento quero mergulhar nesses conceitos: como os reproduzo inconscientemente? Como posso contribuir com espelhos identificatórios positivos para que as crianças negras tenham uma imagem mais positiva e melhorem sua autoestima?

Convidei minha amiga Maria Anita Brasileiro Falcão para participar dessa crônica e falar sobre sua experiência como mulher negra.

Com a palavra, Anita:

Eu sofri muito com a questão racial. Eu tinha vergonha da cor da minha pele, do cabelo duro e do nariz largo. Como minha mãe e minhas tias foram maltratadas como empregadas domésticas, não contribuíam para a constituição da nossa identidade negra.

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A mãe negra tenta embranquecer os seus filhos. Querem protege-los da discriminação. Por exemplo, eu raspava os cabelos dos meus filhos. Hoje não faria isso, pois tenho consciência que assumir os cabelos significa assumir a identidade.

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Na escola para ser rainha, as crianças recebiam cartelas para vender, mas quem era preto não recebia as cartelas, só quem tinha cabelo liso. Nosso sonho era ser branca.

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Quando eu era criança meu desejo era ter uma boneca branca, de olhos azuis, de cabelos compridos e loiros. Nunca tive boneca de cabelo porque minha família era pobre. Eu tinha bonecas de plástico e amarrava um pano para fingir que eram cabelos.

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Uma amiga tinha um boneco negro, mas ele ficava jogado de lado, não era desejado, as crianças não gostavam de brincar com bonecos negros.

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Hoje tenho uma Barbie negra que comprei num Brechó, foi uma forma de trazer presente minha infância. Existem bonecas de pano negras lindas, mas como são artesanais são caras.

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Na minha juventude, éramos chamadas de macacas. Nossa humanidade sempre nos foi tirada ao sermos comparadas a bichos.

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A escola só começou a trabalhar a questão racial em 2003 com a lei 10639 que tornou obrigatória o ensino de história sobre a África e seus descendentes. Meus filhos estavam na sétima série quando conheceram a história de Zumbi dos Palmares. 

Gostaria de encerrar com Ludmilla, que fala sobre o desejo de que sua pesquisa contribua com mudanças: Que essa pesquisa se some a outras para o fortalecimento de uma pedagogia crítica emancipatória, antirracista, comprometida com o letramento racial e com uma  formação docente que se preocupe com a forma de transmissão de saberes e que proponha reflexões à branquitude como esse lugar hegemônico dentro da escola,  nos livros acessados, na bibliografia utilizada, na forma como a história do Brasil foi relatada como um país descoberto pelos europeus quando, na verdade, foi colonizado e explorado, trazendo pessoas escravizadas para trabalhar aqui.

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Que a história africana seja contada a partir do paradigma da riqueza e não tão somente a partir do lugar da pobreza, da dor e do sofrimento. É preciso mostrar a contribuição da população africana para o desenvolvimento humano, social, cultural e econômico do mundo. 

Beatriz entre a amiga Anita e a filha dela, Marcela/ Arquivo Pessoal

Eu, Ludmilla e Anita desejamos que essas reflexões tirem vocês do lugar do comodismo e da negação. Que sejamos tocados por essa realidade tão desafiante e presente em nosso cotidiano.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

*Ludmilla Camilloto é mãe do Heitor, psicóloga e advogada, consultora em Gestão da Diversidade e Educação Corporativa, doutoranda em Educação e Mestra em Direito.

*Maria Anita Brasileira Falcão é assistente social do SUS (Sistema Único de Saúde) e do Suas (Sistema Único de Assistência Social). Mãe de uma filha e dois filhos, avó de dois netos e bisavó. Militante do Movimento Negro e Sambista.

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