Um total de dez cartas foi escrito pelos integrantes do Coletivo Entretons, motivados pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Até dia 30, quando ocorrerá o segundo turno da disputa, publicaremos duas dessas cartas todo dia

Carta 1:

Àquela a quem muito foi negado

05 de outubro de 2022. Londrina, PR.

Comecei a lhe escrever faz uns dias, minha vó. Já falava até em termos vencido, afinal. Mas precisei recomeçar. Algo que você sabe bem: recomeçar. Estamos em luta. E luto. Ainda… Eu acho até que você sempre esteve.

Se soubesse como diferenciar ódio contra o Nordeste: sua casa… Saída da Bahia, criança, vinda para o Paraná encontrou, aqui, trabalho. E talvez, provavelmente, até trabalho análogo à escravidão em troca de casa e comida, ainda adolescente. Foi doméstica na dita (entre aspas) “casa de família”. Depois de tantos anos, minha vó, parece difícil acreditar que o governo seja lotado pelos que são capazes de escravizar, que para defender quem está no poder, tantas pessoas humilhem e deixem escorrer ódio contra o Nordeste.

A você, meu amor, foi negado tanto da infância e da adolescência. Foi negado ser menina criança. Você foi vivendo, sobrevivendo. Se encaixou na mulher mãe e criou seu “bolinho de virar”, que quando criança, eu achava delicioso. Ainda acho, mas agora sei o que o sabor dele carrega: sua tentativa de saciar a fome dos filhos quando faltava comida. Eu sei que vai te entristecer saber que hoje, mulheres tantas, estão tendo que criar seus próprios “bolinhos de virar” para alimentar seus filhos.

A você foi negado escrever. Uma menina nordestina? Não precisa estudar, provavelmente diziam, era para trabalhar. Mas você estudou. Você foi à escola depois dos 60 anos e conheceu outras mulheres. Vocês davam forças umas às outras, seguiam, juntas, no desafio escolar. E aprendeu: a ler, a contar… Aprendeu ainda que era muito boa em matemática. Sei que ficará muito triste em saber o quanto o governo atual sucateia a educação e a chance de tantas saberem que são boas em matemática, gramática, filosofia, ciências…

Costurava porque, durante um tempo, tinha que costurar para vestir. Mas criava. Era criatividade em meio ao trabalho e em meio à luta. A senhora sempre soube a importância de quem tem o poder. Dizia – brava: “O Presidente matou o seu avô!”. O presidente em questão confiscou o dinheiro ganho com muito suor e dor. Se você soubesse que essa frase tanto se repetiria nos últimos anos só trocando o nome do presidente e do familiar…

A senhora não integrou movimentos de luta, grupos feministas ou de classe. Nem sabe se foi lembrada por eles. Mas a senhora lutou por ti e por mulheres tantas: as vizinhas, as irmãs, as filhas… Se encaixou e desencaixou nas caixinhas de ser mulher.

A você foi negado tanto. E, como num grande ato de ironia, a vida lhe negou lembrar. O Alzheimer é seu companheiro diário agora. E, talvez, eu esteja romantizando um pouco: apesar de tanto o que a doença lhe nega, hoje você acorda a cada dia sendo a mulher que quer ser naquele dia. E são tantas.

E, mesmo que você não se lembre, eu lembro de você me contando que sua avó era uma indígena brava. E eu quero te contar uma coisa (agora algo bom, sem esquecer tudo que já é ruim): tem mulheres indígenas, e bravas, eleitas para o Congresso. Será que minha tataravó acreditaria nisso?

Lembra, vó, que você dizia que seu irmão foi construir Brasília? E você nunca mais o viu. Chegaram a você histórias fantasiosas de que os trabalhadores que colocaram Brasília de pé teriam sido levados para serem mortos. Não sei dizer o quanto essas histórias eram reais. Mas uma coisa a senhora sabia muito bem: Brasília foi construída por ele. Mas não para ele. Nem para você. Nem para mim. Nem para tantas mulheres. Nem para o povo. Não para nós.

Mas, apesar de eu ter começado essa carta com ar de desilusão, eu termino com a braveza que herdei de você e que, pelo jeito, você herdou de sua avó: Brasília pode não ter sido construída para nós, mas nós a estamos tomando. Estamos na luta, vó. Você sempre esteve. E agora eu estou. E não pararemos.

Com amor,

Beatriz Menani (a Bia, sua neta)

Carta 2:

Estou tão aos cacos e arrumando um jeito pra virar mosaico

Quando pequeno, criança peralta e viada que era, ao perder o controle, minha mãe atribuía minha filiação a Vitoriona: mulher negra, gorda e louca que passava pelo meio fio das ruas, sempre gritando… Esse fato era recorrente…

Eu chorava, porque não queria jamais ser filho da preta gorda e louca.  Minha irmã tripudiava em cima disso.

O tempo passou, me tornei quem sou e acabei percebendo que sou mais filho da outra, que filho da santa. Acabei dando razão a minha mãe biológica, pois, de fato, sempre fui muito mais marginal como a mãe da rua, louca, gorda, excluída e que bradava pelo meio fio, talvez por loucura, talvez para se proteger… enfim, gritava! Como eu, à margem, exilado em mim pelo mundo,  tão filho de Mãe Vitória.

E é para ela que escrevo essa carta, que sumiu lá em minha infância. Nunca mais tive notícia, nunca mais a vi passar pela rua da casa da mãe. Nunca mais. Talvez tenha morrido, talvez tenha se mudado, talvez, quem sabe…

Querida Mãe Vitoriona:

Ontem aconteceram as eleições 2022 para presidente da República, governador, deputades, senadores.

Uma esperança transformadora de sair da destruição tem tomado conta de mim desde que Lula foi liberto, do golpe da Lava-jato…

Estive no Rio à mesma época em que Lula esteve fazendo o comício na Cinelândia. Foi incrível! Comprei sacolas, camisetas, botons… por lá saí com os adereços, já que por aqui, no sul opressor, tenho medo de sair com minhas bandeiras. Trabalho com elas o tempo todo na universidade, mas daí a sair com uma camiseta do Lula… E no Rio saí de camiseta do Lula nas rodas de samba e certo dia, muita gente me dizia que eu era o próprio Lula, num mimetismo, que me gerava orgulho e medo. Entre tantos, um jovem me abordou, entre o pandeiro e um tamborim, dizendo da importância do Lula em sua vida. Foi emocionante demais perceber a diferença que Lula tinha feito na vida daquele jovem. Eu ali, personificado nesta figura que ele desejava fazer as potentes declarações, me emocionei e não me achava digno de recebê-las, pois eu mesmo tenho desejos de falar tanto para Lula… ao final, esse jovem e seu amigo pediram pra tirar uma foto comigo, como se Lula fosse e algo despertou em mim um medo, pois Lula tinha feito seu comício de colete à prova de balas e eu estava somente com uma camiseta de malha… no dia seguinte fui a uma barbearia e pedi pra mudar o cabelo e engavetei a camiseta vermelha Lula 2022.

Enfim, mãe Vitoriona, com a aproximação das eleições, bandeiras do Brasil tomaram conta da cidade onde vivo atualmente, que fica no sul do país e elege fascistas com orgulho. Da janela da sacada de casa, cada bandeira verde-amarela é como se fosse um soco em meu estômago, cara, alma… Eu consegui usar meus adereços só nas bolhas e mesmo assim com um pouco de medo ao entrar e sair do condomínio fascista onde moro…

Uma onda de esperança foi tomando conta de mim e de meus amigos de bolha, impulsionados pelas pesquisas que davam uma possível vitória de Lula em primeiro turno e seu adversário monstruoso com 36%.

Quando falo deste desgoverno, falo de um genocídio, que destruiu projetos de direitos humanos, demarcação de terras indígenas, liberação de porte de armas, destruição da Amazônia, do Pantanal, abandono das políticas da reforma agrária, moradia, direitos trabalhistas… com rachadinhas, machismos, racismos, sexismos, misoginias; usando deus, família, moral, bons costumes e conservadorismos, tudo banhado à política do ódio e à necropolítica.

Sábado aconteceu um show aqui na cidade, do Arrigo Barnabé, Tetê e Aminoácido, fui com a camiseta vermelha do Lula, pois estaria na bolha, porém para sair e entrar do condomínio, usei uma echarpe e lá no teatro, alguns bombeiros me olharam com ódio.

Dormi com esperançares, quase nem consegui dormir, de tanta ansiedade, pois seria a chance de mandar pra casa essa destruição que tratou as mulheres como lixo:

“- Só não te estrupo pq vc não merece;

– Mulher tem que ganhar menos pq engravida;

– Tive 3 filhos homens, dei uma fraquejada veio uma mulher”…”

Fui votar e ao digitar o 13, uma emoção tomou conta de mim e quase vazou pelos olhos. Com receio de molhar a urna eletrônica, mãe Vitoriona, segurei as lágrimas, mas fiquei tomado pela esperança em outros mundos possíveis, que incluísse você mãe, mulher negra, louca, pobre e gorda. Quantas interseccionalidades!

Na festa da apuração, que uma amiga abriu a casa para nos receber, coração na boca e olhos na apuração… e daí em diante uma angústia começou a tomar conta de toda atmosfera, que foram se desenhando, revelando o quanto ainda está vivo o fascismo. Que merda! E Lula não venceu em primeiro turno… apesar de ter sido o candidato à presidência com mais votos na história do Brasil até hoje.

Foi muito duro ver a quantidade de votos que o o projeto de morte teve. Pesquisas equivocadas, ele teve um percentual alto, pelo tanto de destruição causada.

Mãe Vitória, seu nome me inspira nesse momento. Que seja processo, mas que seja possível vencer no segundo turno esse projeto de destruição de mundos respiráveis. Quero respirar com um pouco de paz! Com mais igualdade, mãe.

Mal dormi, uma dor no peito denunciou uma angústia e um acordar com peso de uma ressaca do fracasso, da derrota, mas tudo por enquanto, pois temos outra chance pela frente. Mas não consigo entender quanto ainda o fascismo impera nas cotidianidades da vida.

Sim, temos eleições importantes de mulheres travestis e trans, homens e mulheres pretas, pessoas LGBTS… mas o amargo ainda está doendo no peito.

Mãe Vitória, os textos de Glória Azalduá, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro falaram de você, e minha mãe branca também, que foi tão oprimida a seu modo. Falou de mulheres subalternizadas, principalmente das mulheres negras, como vc.

Estou tão aos cacos e arrumando um jeito pra virar mosaico.

Perdão pelas notícias que trago nesta carta, mas quando foi fácil, justamente pra você, que viveu durante a ditadura militar…

Receba meu beijo e todo meu afeto, do lugar onde você estiver, receba minhas energias e vibrações.

Com carinho,

Seu filho branco                  

*Entretons é um grupo de pesquisa e extensão de gênero, sexualidade, teoria queer, feminismos, decolonialidades, na perspectiva das interseccionalidades de etnia, raça, classe social, etarismo, entre outras. Formado por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina – UEL e outres colaboradores de diferentes territórios de pesquisa e extensão, o grupo objetiva produções e ações implicadas com a realidades sociais diversas e seus movimentos.

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