Integrantes do Coletivo Entretons escreveram cartas aos seus familiares, motivados pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Neste sábado, publicaremos mais uma dessas cartas
Londrina, 03 de outubro de 2022.
Querida vovó,
Já são nove anos sem a sua presença física. Nove anos que eu não escuto mais sua voz doce, calma e acalentadora toda vez que preciso de um conselho. Nessa quase uma década da sua ausência brutal, muita coisa aconteceu. Você perdeu um filho, ganhou um bisneto, perdeu a última irmã que ainda era viva. Você e suas irmãs eram em cinco, hoje, não sobrou nenhuma. Mesmo assim, a força dessas cinco mulheres criadas por uma mãe solo, minha bisavó, abandona pelo marido, seu pai, para fugir com outra mulher muito mais nova, ainda é uma raiz fértil e viva, pois as vejo em minha mãe, em minha irmã e até mesmo em mim.
Eu escrevo esta palavras cunhadas com muita emoção um dia após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022. O Senado ficou mais conservador. As assembleias foram tomadas por fanáticos religiosos que usam da palavra de Deus para impor pautas conservadoras e usurparem direitos civis importantes conquistados nas últimas décadas. São falsos profetas guiados pelo presidente atual. Um capitão do exército reformado que entrou na vida pública há três décadas. Não conseguiu, enquanto ocupou o legislativo, aprovar projetos significativos. Mesmo assim, foi eleito em 2018 para ocupar a cadeira mais alta do poder executivo no país.
O mesmo capitão reformado, diz que defende a família, mas só se for a tradicional católica. Ele pede respeito, mas se você for mulher, LGBT+, preto ou índio, pode esquecer. Ele tem cinco filhos, uma é mulher (segundo ele, fruto de uma “fraquejada”), mesmo assim, perpetua o machismo e acha que política de igualdade de gênero não é pauta para o Estado. Em várias entrevistas e lives na internet ele diz cumprir uma “missão de Deus”, mas perceba o paradoxo: no alto de seus 67 anos, não consegue entender e muito menos colocar em prática um dos principais ensinamentos do cristianismo (doutrina religiosa que tanto usa de muleta para ”fazer política” num país laico): “AMARÁS AO TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO”.
Em época de eleição como a de agora, eu sempre lembro de você, vó. Não sei se vai recordar, mas a senhora me levava para lhe acompanhar na cabine de votação. Eu era muito pequeno quando me levou pela primeira vez. Você sempre dizia que o voto é o nosso maior direito. Direito esse que você não abria mão. Afinal, como relembrava, você vivenciou duas ditaduras: em parte da Era Vargas, nos anos 40, e na ditadura militar entre 64 e 85. Nessa última, foi testemunha ocular, pois morava no Rio de Janeiro naquele 31 de março de 1964. De madrugada, quase ao alvorecer, você e vovô ficaram assustados com a estranha movimentação de tropas e tanques militares pelas avenidas majestosas da cidade maravilhosa.
O momento que vocês pensaram que iria durar uma semana ou pouco mais, transformou-se em 21 anos, os anos de chumbo. Um pesadelo que hoje, em 2022, ainda assola o povo brasileiro, já que na memória de parte da população, mora o saudosismo desses tempos que foram de tortura, perseguição, privação de liverdades individuais e autoritarismo. Talvez, vó, agora, neste exato momento, eu, minha irmã, meus pais e outros integrantes da nossa família, estejam revivendo a mesma sensação que você e o meu vô viveram naquela madrugada de verão num passado não tão distante assim. Será que amanhã há de ser, realmente, outro dia?
Ontem, antes de dormir, anisoso e preocupado com o futuro inceerto e nebuloso, coloquei pra tocar uma apresetação de um show de Caetano Veloso junto de seus filhos, Moreno, Zeca e Tom, entoando “Todo Homem”. A música é uma homenagem de Zeca Veloso à mãe. Os verso “Eu sou cordão umbilical” e o refrão “Todo homem precisa de uma mãe” mostram que mesmo depois de crescidos, todos nós, sentimos falta de colo, de abrigo, de uma rede de apoio afetuosa. É o que todos nós, que resistimos contra o ódio, precisamos agora. E aí, lembrei, mais uma vez, de uma frase sua. Você dizia à despeito da História da humanidade, que é a história de exaltação aos homens, estava errada. Porque nada neste mundo é mais forte e poderoso que um ser vivo que carrega outro no ventre, que vê suas forças, suas vitaminas e seu corpo sendo tomados pelo outro. Nada é mais potente que uma mulher. Que tem o poder de escolher se quer dar à luz à uma vida ou não.
Olhe, vó, como o destino é engraçado. A senhora foi a primeira pessoa que me levou, ainda pequeno para votar em uma eleição presidencial. E eu, anos depois, fui o último que a acompanhou para votar em também uma eleição presencial. Os sinais do tempo já eram visíveis em seu corpo. As mãos enrugadas, a pele mais fina, a cabelo natural muito preto ficando branco, mais ralo. Os oitenta anos tinham chegado e você queria votar, mesmo com os primeiros sinais do alzheimer batendo à porta. Você já esquecia muita coisa. Nomes, lugares que passou, rostos que um dia conheceu. Nos piores dias, não lembrava a própria casa em que morava. Mas lembrou que um dia, não muito distante, mulheres não votavam e não ocupavam cargos públicos neste pais.
Na última eleição em que você votou, nessa mesma que te acompanhei mais uma vez, dois anos antes de sua morte, você votou pela primeira vez no PT. Você que flertava com Mário Covas e FHC, mas era dona de um senso de empatia e humanidade enorme, deixou suas convicções políticas de centro direita de lado, para votar na oposição. Porque a oposição era uma candidata mulher. Você saiu da cabine de votação emocionada. Pela primeira vez na história do Brasil, um mulher tinha grandes chances de liderar o país. Na posse de Dilma, você não tirou os olhos da TV. Era um momento sublime e histórico, a epifania de um sonho de menina que se concretizava.
Depois disso, muita coisa, como falei no ínicio aconteceu. Um golpe vestido de impeachmeant e um conservadorismo que saiu do ármario. O resultado é um hoje que até mesmo a ciência política encontra dificuldade de explicar, tal a complexidade e os tentáculos de uma rede assombrosa: um país que voltou a ter fome; um povo sem liderança; direitos civis de minorias à sombra de se desmantelarem. Tenho a sensação que uma escuridão avança. Não a bonita escuridão cheia de estrelas da noite…é uma escuridão densa, sufocante. Mas, há luz: nesta mesma eleição de ontem, mais mulheres foram eleitas em cargos públicos e pela primeira vez, no estado em que nascemos, São Paulo, uma mulher trans preta eleita deputada federal.
A revolução é LGBT+, vó. É travesti. É trans. É viada. É sapatona. É preta. É feminina. É indígena. É livre. Livre para ser o que se é, sem vírgulas ou ponto final. Eu sei que eu nunca te disse que era homossexual, não porque eu não queria, mas porque eu ainda não conseguia. Não deu tempo de te falar. Mas, falo agora e tenho convicção de que em algum lugar dentro de você, já soubesse, mesmo sem eu tocar uma palavra, uma sílaba. O maior ensinamento que você passou, que levo comigo sempre, é que niguém pode destruir o que somos. Você dizia que muitos vão tentar, mas cabe a nós deixar ou não. Essa fala é ancestral. Sua mãe, neta de uma mulher indígena, criou cinco mulheres sozinhas e dizia isso às filhas. Ela ensinou você a ser livre. Você ensinou a minha mãe, que ensinou minha minhã irmã e eu.
E é nisso que me apego, aconteça o que acontecer. Torço para que daqui algumas semanas, possamos vencer o ódio. Mas, também me preparo caso o pior se materialize. Seja o que for que o destino, esse substantivo do qual não conseguimos escapar, reserve, eu não me deixo destruir quem sou: um alguém que carrega consigo o amor, as dores, a força e a proteção de tantas mulheres ancestrais. Me despeço com os versos de uma música dos Tribalsitas que tem tocado muito aqui na minha casa. Você iria gostar, tenho certeza, lembra quando a gente cantava junto? Bom, então, aqui vai, não repare o tom, porque você sabe que eu não levo jeito pra cantar…
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for
Fique fique bem, vó. Porque eu vou ficar, seja como for, aconteça o que acontecer.
Te amo,
Seu neto caçula.
*Entretons é um grupo de pesquisa e extensão de gênero, sexualidade, teoria queer, feminismos, decolonialidades, na perspectiva das interseccionalidades de etnia, raça, classe social, etarismo, entre outras. Formado por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina – UEL e outres colaboradores de diferentes territórios de pesquisa e extensão, o grupo objetiva produções e ações implicadas com a realidades sociais diversas e seus movimentos.
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55).
