Por Beatriz Herkenhoff*
Foto em destaque: Pixabay
Vivemos um longo período de isolamento (2020-2022) com consequências para o nosso corpo, mente e espírito.
Estudos comprovam que aumentou o grau de ansiedade, medo, insegurança, tristeza, pânico, depressão e melancolia ocasionados pela morte de pessoas queridas, pelo aumento do desemprego, da fome, da pobreza e pela não convivência com familiares e amigos.
Aos poucos as pessoas voltam a se encontrar. As crianças ficam radiantes por poder comemorar seus aniversários e conviver com amigos de sua idade. Casais podem finalmente celebrar sua união com festas.
Os abraços, beijos e gargalhadas nos fortalecem e estruturam nossa existência.
Mas, outros obstáculos surgem nesse meio tempo. A campanha eleitoral dividiu familiares e amigos. Concepções opostas sobre o rumo do país são postas à mesa. Os argumentos são acompanhados de palavras que ferem, afirmações que minam e quebram a confiança construída ao longo de uma vida. Ocorrem decepções e rupturas, grupos se desfazem e irmãos se afastam.
Alguns conseguem conviver respeitando as diferenças, fazendo acordos de não discussão política quando o grupo tem olhares e perspectivas distintas. Preservam assim o amor e a amizade.
Mas, os ânimos estão acirrados e pessoas adoecem em ambientes agressivos. A tristeza, o medo, a ansiedade e o isolamento voltam a fazer parte do cotidiano.
E nesta hora, somos chamados a cuidar do nosso eu interior. Aprender a nos proteger para preservar a saúde física e mental nossa, daqueles que amamos e das famílias do Brasil.
Minha história de vida levou-me a cuidar mais do outro do que de mim. Mas, com ajuda terapêutica há alguns anos eu aprendi a estar atenta às minhas necessidades.
Aos 65 anos realizei uma grande conquista pessoal que é frequentar academia todos os dias, também faço Pilates. Preciso fortalecer a minha estrutura óssea, o equilíbrio corporal e uma mente mais saudável.
Ficar atenta para o corpo que fala e pede socorro.
Não pensem que é fácil manter uma disciplina diária para o exercício físico. O corpo convida a desistir, as tarefas se impõem. E nesse instante ocorre uma luta interior, é preciso persistir, não desistir e não desanimar.
Esse é o grande convite que a vida nos faz: nunca desista.
Cerco-me de profissionais da saúde que fazem toda diferença nesse momento tão difícil do Brasil. A terapia contribui para eu sair da cena em momentos de conflitos, evito cair em armadilhas que ferem e machucam.
A homeopatia possibilita o equilíbrio físico, psíquico e emocional, cuida dos sintomas na hora em que eles se manifestam, evita a queda da imunidade.
É um espaço para ouvir o que o meu corpo está falando com sua fadiga, cansaço, desânimo, dores, problemas psíquico-emocionais, respiratórios, de estômago, de coração, de pele, entre tantos outros.
Na administração do meu tempo reservo também momentos para orações diárias, além de um grupo quinzenal de espiritualidade que fortalece todo o meu ser e reacende a fé, a esperança, o amor e a caminhada em busca de um mundo mais justo, igualitário e humano.
Cuido dos laços, priorizo também encontros com familiares que renovam o amor e a alegria, bem como encontro com grupos de amigos que resgatam a esperança.
Não sou modelo de nada, mas, a convivência com amigos que estão angustiados, sem esperança e desanimados me motiva a partilhar essa experiência.
Cada qual tem sua trajetória, o importante é não desistir. Não consigo ficar indiferente ao sofrimento alheio. O meu investimento para ficar bem não visa apenas o bem estar pessoal. As pernas precisam estar fortalecidas para caminhar de mãos dadas com uma multidão.
No contexto em que os conflitos, as agressões, os confrontos e atitudes violentas se acirraram, trabalhar essas questões pessoais contribui para um equilíbrio interior e para protegermos nossa energia e contribuir para o coletivo.
Faço também acupuntura toda quarta-feira com Dr Marco Vago. Agulhas potentes que relaxam, restauram o sono, a saúde e integram e equilibram meu ser.
Enquanto aguardo na sala de espera, sinto-me atraída pela frase:
“Não há amor fora da experiência do cuidado. A vida requer cuidado. Então cuide-se”.
Penso que o cuidado é inerente ao ser humano, precisamos do cuidado deste o nascimento até a morte. Quem ama cuida. Sem o cuidado o ser humano definha e morre.
A experiência do cuidado é ampla, requer sensibilidade, altruísmo, atenção em todas as áreas de nossa vida: física, afetiva, psíquica, emocional, espiritual, amorosa, sexual, familiar, social, profissional, financeira, lazer, cultural, entre outras.
Quando cuido responsabilizo-me, envolvo-me afetivamente, sou solidário, busco relações cooperativas, desenvolvo a compaixão. Fico inteira para o outro: acolho, sinto, ouço, penso com ele, inquieto-me com sua dor, coloco-me no seu lugar.
Você já parou para pensar sobre isso? Como é a sua experiência de cuidado? Como você cuida daqueles que o cercam? Como cuida da natureza e do nosso planeta? Como cuida dos mais pobres e abandonados? Como cuida da saúde e educação da nossa população? Como cuida da garantia dos direitos humanos e da democracia? Como cuida das crianças? Como cuida de si mesmo/a?
E as perguntas brotam: Como construo uma coerência entre uma sociedade mais humana e justa e as posturas pessoais e coletivas que exigem cuidado e respeito?
Pode aparentar que estou escrevendo para uma classe social com melhor poder aquisitivo para cuidar da saúde, mas, o SUS oferece homeopatia, acupuntura, entre outros serviços psicossociais. Viva o SUS!
A população em geral não pode pagar uma academia, mas, existem atividades gratuitas ao ar livre como hidroginástica, yoga, alongamento, musculação, futebol, entre tantos esportes que renovam a alegria de viver.
Vamos viver com intensidade a experiência do cuidado.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).
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