Falta de memória e de compromisso com dívidas históricas leva a situações surreais e excludentes que vivenciamos

Por Rede Lume de Jornalistas

Foto: Isaac Fontana

Desde a vitória de Lula no segundo turno das eleições, pessoas se mantêm em frente a batalhões pelo Brasil pedindo intervenção militar contra um comunismo imaginário. Na quarta-feira passada, Geraldo Alckmin, vice-presidente eleito e coordenador do gabinete de transição, encontrou-se com o atual presidente, Jair Bolsonaro, derrotado nas urnas, e, quando já deixava o gabinete, ouviu do mesmo: “Por favor, nos livre do comunismo”. Parece ficção.

Na última sexta-feira, dia 11, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou estudo que mostra a discrepância de renda e posição no mercado de trabalho entre pessoas negras e brancas no Brasil. Entre os 10% com menores rendimentos no País, 74,1% são pretos ou pardos. Nos postos gerenciais, negros representam apenas 29,5% e brancos, 69%.

Por que juntamos esses dois assuntos aparentemente sem conexão? O que os une é a falta de memória e compromisso com dívidas históricas que nós, brasileiros, temos.

Quando vemos pessoas pedindo intervenção militar, indo contra a democracia, para combater um mal imaginário que elas titulam “comunismo”, retornamos a 1964, à Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Naquele momento, milhares de brasileiros se insurgiram contra reformas econômicas e sociais promovidas e prometidas pelo então presidente Jango. O resultado já sabemos: mais de 20 anos de ditadura militar com censuras, cerceamento de liberdades, torturas e mortes.

Naquele momento, porém, o mundo vivia uma Guerra fria; o Ocidente capitalista, representado pelos EUA, opunha-se à União Soviética comunista. Havia um amparo histórico para o medo desse “mal maior” – embora saibamos que nenhuma experiência realmente comunista vigorou no mundo.

Isso nos leva a pensar que se tivéssemos feito a lição de casa e passado a limpo o período ditatorial, contextualizando, apontando criminosos e os responsabilizando, não teríamos hoje pessoas bradando por intervenção militar sem qualquer preocupação com suas consequências. Não fizemos isso. Torturadores morreram e morrerão sem pagar por seus crimes. Se tivéssemos feito talvez nem mesmo um governo Bolsonaro houvesse existido, já que o então deputado teria sido cassado no dia do impeachment da ex-presidenta Dilma, quando exaltou, em Plenário, um torturador, numa das cenas mais grotescas da nossa República.

Não comparando as temáticas, apenas nossa falta de compromisso histórico, a pesquisa divulgada pelo IBGE nos lembra o quanto devemos, como nação, à população negra. Não encaramos – pelo contrário, minimizamos – nosso passado escravagista e a abolição teórica que não se concretizou até hoje para muitos descendentes. Não nos desculpamos nem recompensamos as pessoas negras pela escravização como deveríamos. Apagamos seus passados, suas histórias e as recontamos pela ótica do explorador.

“Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém”, disse Bolsonaro, certa vez. Pensamentos limitados como esse perpetuam o racismo estrutural e dificultam a formulação de políticas públicas efetivas que libertem, de vez, a população negra. Os índices do IBGE, ano após ano, são um tapa na cara de meritocratas e liberais e não têm raiz em outra coisa que não nossa sociedade de estrutura colonial. Temos síndrome de colonizadores. E, pior, perdemos o medo e a vergonha de demonstrar nossos preconceitos.

Abafada a extrema-direita nas urnas, esperamos poder retomar o caminho da civilidade no próximo ano e viabilizar políticas importantes que, mesmo insuficientes, nos fizeram um dia (e farão novamente) ser melhores como sociedade.