Por Beatriz Herkenhoff *

Todo ser humano precisa de um recuo de tempos em tempos. Sair de cena para restaurar as forças, desligar-se do trabalho e dos desafios do dia a dia. Relaxar, rever suas escolhas, pensar sobre suas atitudes, sonhar com dias melhores, alimentar a esperança, viver o amor em sua plenitude.

Muitos conseguem tirar férias e viajar. Quando isso não é possível, podemos aproveitar um feriado prolongado para reencontrar nosso equilíbrio interior.

No último feriado, eu, minha mãe, meu filho e minha nora passamos cinco dias em Itacimirim, vila situada na cidade de Camaçari na Bahia. Uma belíssima praia do litoral norte a 48 km de Salvador.

Ficamos numa casa ampla e aconchegante. Com varanda, redes, quintal gramado, coqueiros, de frente para o mar com uma vista impactante.

Passávamos o dia em contato com a natureza, acordávamos com o nascer do sol. Ao sair de casa encontrávamos um mar lindo, transparente, formando pequenas piscinas com a maré baixa. A areia firme nos estimulava a longas caminhadas até chegarmos ao encontro do Rio Pojuca com o mar. Lugar paradisíaco. Amo água doce e sua harmonia com a água salgada é única.

À tarde voltávamos para a praia para apreciarmos o pôr do sol, mais um banho de mar nas águas quentes. À noite o espetáculo da lua cheia nos encantava.

Além das longas conversas afetivas que renovaram a energia e a alegria de viver. Ao observar a natureza em sua exuberância e potência senti-me convidada a ficar em silêncio, ser observadora de mim mesma. A ter momentos de oração em sintonia com o criador.

Nas piscinas naturais, a vontade era de flutuar, entregar, confiar, adormecer, perder o limite entre o meu corpo e o imenso mar. 

Ao contemplar a natureza pude ouvir a voz do vento, o canto dos pássaros, o mover das folhas, o ir e vir das ondas. 

Fui expirando e inspirando o ar com calma. Deixando sair o que é tóxico, que entristece, desanima e divide. Fui desligando de notícias que desestabilizam e estressam. 

Ao inspirar permiti que entrasse em mim a gratidão, a serenidade, o respeito, a admiração, as conquistas, as mudanças possíveis e necessárias para construirmos um mundo mais humanizado e justo.

Foram dias em que tive uma linda oportunidade de encontrar a minha essência ao lado de pessoas que amo e que possibilitam que eu seja melhor. 

Entrar em contato com o silêncio nem sempre é fácil. O mundo nos conduz à agitação, ao movimento, à intensidade, ao excesso de compromissos e de tarefas. 

Nossa mente é povoada por pensamentos acelerados, somos invadidos por fakenews, falamos mais do que escutamos. Temos dificuldade em ouvir nossa voz interior e também o que o outro quer nos dizer.

Fugimos de nós mesmos porque é mais tranquilo apontar o dedo para os defeitos do outro do que enxergar nossas limitações e contradições.

Quando silenciamos entramos em contato com a solidão que habita em nós. Mesmo quando estamos rodeados de pessoas, a solidão faz parte do nosso ser. 

Enfrentar a solidão e preencher nossos próprios vazios liberta para irmos ao encontro do outro sem expectativas, sem depositar nele a responsabilidade pela nossa felicidade. 

Só eu sou responsável por mim e pelas escolhas que faço com ousadia ou deixo de fazer por medo.

Silenciar é uma oportunidade de trilhar diferentes caminhos. Entre eles, identificar o que impede nossa paz interior. Precisamos perdoar? Pedir perdão? Aceitar uma perda? Ter um olhar mais amoroso sobre nós, sobre o nosso planeta e sobre o outro? Faço o bem porque quero receber algo em troca? Ou faço o bem para aqueles que não podem retribuir? Que raízes preconceituosas trago dentro de mim e que podem ser arrancadas? Que atitudes prepotentes? Que vaidades? 

Nesse contexto, sou chamada a encher meus pulmões de gratidão. A gratidão permite-me reconhecer as pessoas que contribuíram para eu ser quem eu sou. 

Poderia ter sido uma semana qualquer. Mas foi transformadora porque o coração, a mente, o corpo e o espírito estavam abertos ao convite da natureza. 

A natureza não é silenciosa, é barulhenta em seus questionamentos. E nos permite dançar com leveza, cantar, amar, voar, ouvir, ter sensibilidade, empatia, nadar e mergulhar.

Sinto-me estimulada a seguir em frente com Milton Nascimento cantando “Caçador de mim”

“Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo, medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim” (Composição: Luís Carlos Sá/ Sérgio Magrão)

O caçador de si mesmo aprecia a jornada, respeita seus instintos e nunca desiste de descobrir a si mesmo.

Que esse processo de busca seja permanente e nos permita ir ao encontro do outro que sofre, colocar-nos à serviço, sermos portadores de notícias boas e verdadeiras, construir uma vida ética e um mundo melhor. Aceitar o outro em suas diferenças.


*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

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