Alunos de Bandeirantes, cujo ônibus foi atacado por pedras em ato antidemocrático, voltam hoje (29) a se apresentar em Itambaracá

Nelson Bortolin

Adolescentes do Colégio Estadual Cyriaco Russo, da cidade de Bandeirantes (100 km de Londrina), terão de ser escoltados na noite desta terça-feira (29) para uma simples apresentação de fanfarra no município vizinho, Itambaracá. Eles vão repetir a viagem que fizeram na sexta-feira (25), quando o ônibus onde estavam foi atacado por pedras e supostamente por balas de plástico de uma arma esportiva (airsoft), como mostra foto em destaque, postada nas redes sociais pelos jovens.

“Estávamos voltando de Itambaracá, cantando e batendo instrumentos. Quando a gente passou em frente o Tiro de Guerra, a gente começou a cantar e bater mais alto”, conta uma das estudantes, de 18 anos, que estava no veículo.

Em frente ao Tiro de Guerra de Bandeirantes, assim como em muitas sedes das Forças Armadas pelo País, há um acampamento de bolsonaristas que pedem intervenção militar para evitar a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Nas redes sociais há relato de que alguns dos estudantes gritaram o nome de Lula para provocar os manifestantes. A jovem entrevistada pela Rede Lume não lembra de ter ouvido nenhuma referência ao presidente eleito dentro do veículo.

“O que a gente fez foi cantar mais alto e bater mais forte os instrumentos quando passou no local”, alega. A estudante diz ter visto um homem parado apontando uma arma para o veículo. Depois ouviu barulho de vidro sendo quebrado.

“Falamos com a diretora, que também estava no ônibus, e o motorista levou a gente para a delegacia fazer boletim de ocorrência”, conta. Somente a diretora e o motorista entraram na delegacia. “Não sei como foi lá dentro. A diretora não quis contar”, afirma.

A jovem não sabe dizer quantas pessoas estão acampadas em frente ao Tiro de Guerra. “Mas deve ser mais de dez.”

Outra aluna, de 17 anos, disse que havia cerca de 30 pessoas no ônibus, a maioria crianças e adolescentes. “A única imagem que eu lembro é de um homem com jaqueta preta e camisa branca. Foi tudo muito rápido. A gente olhou para o lado e viu as janelas quebradas.”

A Lume entrou em contato com a diretora da escola por meio do WhatApp, mas ela não quis se pronunciar. “A respeito do ocorrido, foi feito Boletim de Ocorrência. É o que posso informar por enquanto”, escreveu.

Por meio da assessoria de imprensa, a Polícia Civil do Paraná disse que instaurou inquérito para investigar o caso e que “todas as diligências cabíveis estão sendo realizadas”.

“Envolvidos e testemunhas estão sendo ouvidas. A princípio, o ônibus foi atingido por disparos de arma de airsoft e uma pedra. O autor dos disparos foi identificado”, diz nota enviada pelo órgão.

A Polícia Militar em Bandeirantes confirmou que vai reforçar a segurança na noite desta terça-feira, escoltando os estudantes e com efetivos no Tiro de Guerra e também em Itambaracá, onde ocorrerá o desfile de fanfarra em comemoração ao aniversário da cidade.

Casos de violência pelo País

O caso de violência em Bandeirantes se soma a uma série de ataques realizados pelo País por participantes dos atos antidemocráticos que ocorrem em sedes das Forças Armadas e nas rodovias. Há notícias sobre ofensas, coações, depredações de veículos e tiros.

Logo no início das manifestações, a Agência Publica mostrou passageiros de um ônibus sendo coagidos a assinar um documento pedindo intervenção militar, sob pena de ficarem retidos no bloqueio. O caso ocorreu em Vilhena (RO).

Em Mato Grosso, no último dia 20, dez homens encapuzados atacaram com tiros e coqueteis molotov a base da concessionária que administra a BR-163, onde há bloqueios dos atos antidemocráticos. A Polícia Rodoviária Federal acredita em relação entre os eventos.

Também no Mato Grosso, a cena de um pai desesperado em um bloqueio repercutiu em todo o País, no dia 23. Ele estava com o filho que precisava realizar uma cirugia no olho para não perder a visão, mas foi impedido de continuar a viagem por três horas pelos manifestantes golpistas.

No dia prova do Enem, também no MT, imagens chocantes mostram que golpistas barraram um ônibus de estudantes, que precisaram caminhar 5 km até os locais de provas.

Na região, jornalistas sofreram intimidação de golpistas em frente ao Tiro de Guerra de Maringá no dia da estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo. Não é o primeiro relato de agressão verbal a profissionais nesses atos.

Na última semana, o PL, partido de Jair Bolsonaro, tentou uma última cartada para colocar sob suspeição as eleições de 2022, questionando, porém, apenas as urnas eletrônicas no segundo turno. Em resposta, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral )TSE), Alexandre de Moraes, rejeitou a ação e ainda multou o partido.

O seguidores mais exaltados do bolsonarismo, no entanto, seguem questionando a lisura do processo eleitoral, atentando contra a democracia, a integridade física de opositores e privando cidadãos do direito de ir e vir. (Cecília França)