Curta londrinense estreia nesta terça-feira (13) na 47ª edição da Sessão Kinopus; qual o impacto de uma precipitação cósmica? Ou de uma revolução?

Cecília França

Imagem em destaque: Os atores Rogério Francisco Costa, Chris Lemes e Maíra Kodama em cena do filme/Divulgação

Em 2013, Maikon Nery visualizou, em uma das manifestações de rua que tomaram conta do Brasil, uma placa onde se lia “Valeu, Herzog”. Capturou a simbologia daquele momento em imagem e passou a construir um filme mentalmente. O que viria a se tornar A Grande Nuvem de Magalhães partiu de uma ideia inicialmente documental sobre a ebulição que se iniciava no País.

Grande Nuvem de Magalhães é uma galáxia descoberta por Fernão de Magalhães em 1519. Nery se deparou com ela em algumas pesquisas durante a escrita do roteiro do filme.

“Achei interessante essa relação entre a política, que às vezes a gente pensa como algo muito restrito, mas e o macro? E o universo? Dizem que essa galáxia vai se chocar com a via láctea daqui muitos milhões de anos e vai abrir um buraco negro. Como a precipitação de um impacto cósmico pode influenciar também a vida? Mas a gente também está falando da precipitação de uma revolução. Como ela aparece, em que lugar ela aparece? Qual a condição para uma revolução acontecer?”, questiona o roteirista.

São mais perguntas que respostas. De documental o filme ganhou um tom ficcional ao criar um grupo de teatro que ocupa um espaço em ruínas. Impossível ignorar o fato de que, tendo surgido a partir da fagulha despertada por um cartaz referente ao jornalista Vladimir Herzog – torturado e morto pela ditadura militar em outubro de 1975 – o filme tenha sido rodado na antiga Casa do Jornalista, que sediou o Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná (Sindijor Norte PR) por mais de 30 anos.

“A gente foi na chácara, antiga Casa do Jornalista, e viu que era o lugar perfeito. Num processo de pensar a produção, a gente precisava de um local que estivesse abandonado e que essas pessoas desse grupo de teatro ocupariam. Filmamos lá e no teatro da AML (Associação Médica de Londrina)”, conta Diogo Blanco, diretor de produção do filme.

“No contexto da história tem muita mata e ali na chácara é dentro de um fundo de vale, então tem todas essas possibilidades que aparecem no filme. A princípio, no começo da produção, estava na nossa cabeça que seriam em lugares diferentes e aí, na montagem, a gente faria parecer que era um lugar só. A chácara propiciou realmente só um lugar”.

A semente d’A Grande Nuvem de Magalhães nasceu de incursões dos diretores Nery e Yan Sorgi nas manifestações de rua em Londrina. Além de 2013, quando viram a placa “Valeu, Herzog”, eles acompanharam manifestantes na época do golpe que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

“O filme nasceu de uma interrogação: ‘O que está acontecendo?’. O Brasil entrando nesses processos todos de manifestações, a rua ganhando várias vozes e tal. Em 2019 eu tinha um início de uma história que falava um pouco desse contexto, era quase um documentário. Só que depois, junto com uma ideia que eu tinha também de um grupo de teatro, um pouco inspirado no Canto do Marl, chegou essa ideia d’A Grande Nuvem de Magalhães”, relata Nery.

No filme o grupo ensaia uma peça que tem como protagonista um alquimista. Nesse processo surgem momentos da história do país, como o período da ditadura, e fatos do momento político atual, como o flerte com o fascismo, começam a interferir.

“Então existe uma quebra entre a ficção e a realidade. A gente começa a ver dentro da história elementos da história do Brasil entrando, coisas recentes, discussões do fascismo crescente”, explica o diretor.

A Grande Nuvem tem patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), direção de Nery e Sorgi, direção de produção de Diogo Blanco e no elenco Maíra Kodama, Rogério Francisco Costa, Chris Lemes e Luiz Cláudio. O lançamento será nesta terça-feira (13), a partir das 19h30, na 47ª sessão Kinopus, realizada no Sesc Cadeião (Rua Sergipe, nº 52). A entrada é gratuita.

Personagem ganha outra dimensão

“Dentro do texto a gente tinha uma parte que chamamos de ‘parte dos generais’. Aparece as imagens de todos os generais presidentes da ditadura, do Castelo Branco até o Figueiredo, e a personagem ia batizando cada um desses generais com nomes de drag queen e pintando com batom em cima. Isso estava na personagem da Maíra, uma das protagonistas do filme”, detalha Nery.

Durante o processo de criação, o diretor assistiu à peça “Transtornada eu”, da qual a ativista Chris Lemes participa. “Eu falei ‘Tem que ser a Chris para fazer’. E daí você cria uma atmosfera de mais um personagem, daria um outro caldo interessante, uma outra dimensão para o filme”, relembra.

Chris tem história no ativismo pelos direitos das mulheres trans e travestis em Londrina e incursões nas artes cênicas, mas foi sua primeira vez em um set de filmagem.

“Eu me senti muito bem, com os aparatos de filmagem e todo tratamento disponível. Espero aproximar do grande público o modo engraçado das travestis de encarar a vida. A alegria da vida mesmo diante da tamanha crueldade. Deboche e veneno!”, diz a atriz à Lume.

Chris ajudou a reescrever a cena em que batiza os generais com “nomes de guerra” e fala sobre a simbologia de uma mulher travesti interpretando a personagem.

“Para mim é oportunidade de levantar a voz que não tínhamos na época. É jogar tudo no ventilador!”.

Sua personagem acabou ganhando um outra dimensão na trama. “A Chris, na teoria, só apareceria nessa cena. Ela pegou esse texto e retrabalhou, deu ideias e acabou escrevendo essa cena junto. Ela criou uma micro história só para essa cena. Depois a gente colocou ela em outras, como uma presença ali mesmo. A participação dela foi muito especial”, diz Nery.

Diogo Blanco e Maikon Nery durante entrevista à Lume

Expectativa de impacto

Durante as filmagens o roteirista precisou abdicar de alguns desejos e aprender a lidar com a realidade que se impunha. A Grande Nuvem… recebeu patrocínio do Promic em 2019 e deveria ter sido filmado no ano seguinte. A pandemia, no entanto, atrasou os planos. As gravações acabaram ocorrendo no inicio de 2022.

“Você negocia com a realidade. Dá para fazer da forma como a realidade condicionou aquilo. As pessoas que chegaram ali como atores e atrizes, a arte, a fotografia e também a condição do tempo. É uma eterna negociação entre o texto ideal e a realidade se impondo.” – Maikon Nery.

“São muitas energias ao mesmo tempo no set, é uma coisa muito intensa. É bom e ruim. Muito legal quando as coisas fluem, mas, muitas vezes, não fluem, tem várias questões do acaso mesmo. Mas eu acho que isso faz parte também da beleza no instante. Porque se você fica também muito preso com uma coisa que é ideal, não dá para fazer cinema, eu acho”, opina Diogo Blanco, que já escreveu e dirigiu outras produções.

“Por isso também essa coisa do set é um pouco viciante, porque gera uma adrenalina, uma intensidade que é difícil encontrar em outras coisas”.

Nery diz que a realização do filme supriu sua expectativa individual de cinéfilo que realizou o sonho de roteirizar e dirigir um filme. Nos espectadores ele espera gerar questionamentos.

“Eu gostaria que percebessem essas relações de discussão política e social que está impregnado no filme. É um filme muito imagético, tem várias referências de outros filmes, então também está discutindo cinema, discutindo história, política, o próprio teatro… É uma experiência estética, mas também política”, afirma.

“Eu, Maicon e Yan estamos nesse filme há três anos, já estamos pensando nele há muito tempo, então a gente já pensou sobre isso muitas vezes, discutiu. Mas outras pessoas da equipe não participaram disso, só do set, e elas estavam impactadas nos momentos que a gente estava filmando. Isso para mim já é um indicativo muito bom”, finaliza Blanco.

O choque da Grande Nuvem de Magalhães com a Via Láctea pode demorar milhões de anos para ocorrer e seu impacto é totalmente incerto. A exibição do filme, porém, tem data e hora marcada. E uma coisa é certa: ele vai te impactar.