Somente Santão (PSC) e dois outros vereadores votaram em favor das emendas que tiravam dinheiro da cultura
Nelson Bortolin
A Câmara Municipal rejeitou nesta quinta-feira (15) as três emendas ao orçamento de 2023 apresentadas pelo vereador Santão (PSC) que tiravam R$ 2 milhões do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) e remanejavam esses recursos para saúde, esporte e Guarda Municipal.
Produtores e trabalhadores da cultura foram à Câmara pressionar contra as emendas. Apoiadores do vereador bolsonarista também estavam nas galerias.
Em defesa das suas propostas, Santão alegou que há manipulação e doutrinação do povo por meio da cultura. Mostrou vídeos com pessoas sofrendo em filas por falta de atendimento em saúde. E apelou aos apoiadores que estavam nas galerias: “Você quer dinheiro para ser atendido na saúde ou para bancar um projeto dito cultural para um cara pelado dentro de uma redoma plástica no Lago Igapó?.”
Ele se referia a uma peça do Festival de Teatro (Filo) apresentada há mais de cinco anos no lago, na qual um artista se apresentou nu dentro de uma bolha de plástico de sete metros. Na época, houve quem procurasse a polícia para denunciar o “ato obsceno” e o artista quase foi preso.
O vereador ainda disse que “ninguém vai morrer se não assistir uma peça teatral”. E afirmou ser avesso “à política do pão e circo”.
Além de Santão, a também bolsonarista Jessicão (PP) foi a única a discursar em favor das emendas, usando argumentos parecidos aos do colega. Apesar de elogiar alguns produtores culturais da cidade, questionou: “Se alguém de vocês estiver com o filho doente, vai optar por ir ao cinema ou pagar um médico para o filho?”.
Para ela, destinar recursos do Promic à saúde é uma “questão de prioridade”. Para atacar os produtores culturais, Jessicão também lembrou da peça do “homem pelado”.
Líder do prefeito Marcelo Belinati (PP) no Legislativo, o vereador Madureira (PP) encaminhou votação contrária às emendas e criticou o colega Santão: “Consultei os secretários (da Saúde, do Esporte e Defesa Social) e ninguém deles estava sabendo das suas emendas.”
Já a petista Lenir de Assis citou números do Promic para justificar seu voto contra as propostas. “São mais de 900 projetos nos últimos dez anos”, disse. E lembrou que boa parte das inciativas são realizadas nas periferias de Londrina. “É lá que a cultura está. A cultura precisa de mais e não de menos recursos”, afirmou.
Durante sua manifestação em plenário, Lu Oliveira (PL) foi interrompida várias vezes pelos defensores das emendas. Apesar de pertencer ao partido do presidente Jair Bolsonaro, ela fez uma defesa enfática da cultura e do Promic: “Cultura significa teatro, cinema, música pintura, comunicação, dança, tradições, língua, comida e muito mais. Nós últimos anos, (os produtores culturais) se empenharam em levar cultura para escolas, centros de convivência, praças, ruas, vilas culturais, feiras, beneficiando nossas crianças, idosos, mulheres em situação de violência…”
Dos 19 vereadores, somente Santão, Jessicão, e Giovanni Matos (PSC) votaram contra o Promic.
A foto desta reportagem é de Fábio Alcover, tirada durante evento promovido pelo projeto Brisa, que realiza atividades culturais com moradores em situação de rua.
Leia também:
Amigas são vítimas de racismo em loja no Centro de Londrina
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX. A chave é o CNPJ 31.330.750/0001-55.
