Benefícios sociais são insuficientes para as necessidades mais básicas da periferia

Nelson Bortolin

Foto em destaque: Entrega de alimentos pelo MST no bairro São Jorge nesta quinta-feira

Os congressistas aprovaram nesta semana a Proposta de Emenda à Constituição que ficou conhecida como a PEC da Transição, que vai permitir ao governo federal manter o Bolsa Família no valor de R$ 600 e um adicional de R$ 150 para cada filho com menos de 6 anos de idade. A medida representa um alívio para as comunidades mais pobres do País, mas não garante a superação da fome.

Quem vive nas periferias sabe bem que a conta pela sobrevivência não fecha. Mãe solo de três crianças com 2, 9 e 14 anos, Tamires Gonçalves Serafim necessita de muita ajuda todos os meses para manter a família. “Sem doações não tenho como viver”, conta ela, que mora na ocupação Aparecidinha (zona norte).

A cesta básica calculada pelo Núcleo de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Nupea), para uma única pessoa, custou R$ 521 em Londrina, em novembro. Ou seja, o benefício recebido por Tamires é suficiente para alimentar apenas uma das quatro bocas da família.

Tia Adriana (segunda da esq. para a dir.) na sede do projeto Wal Dias – Amigas do São Jorge

Conseguir um emprego está fora de cogitação, porque Tamires tem creche em tempo integral apenas para o filho menor. Os dois outros frequentam escola de meio período. Ela faz bicos numa empresa de festas, mas metade do dinheiro que entra por um lado sai rapidamente pelo outro. “Recebo R$ 90 a R$ 100 por festa, mas pago R$ 50 a R$ 60 para a babá.”

Tamires diz que uma assistente social da Prefeitura está tentando vaga em escola integral para o menino de 9 anos. “Aí eu posso tentar um emprego porque o de 14 anos já consegue ficar sozinho”, alega.

Embora o Aparecidinha não seja um bairro regularizado, muita gente paga aluguel para viver no local. É o caso de Aparecida, que prefere não divulgar seu sobrenome. Ela paga R$ 600 para o “proprietário” da casa. Com problemas de saúde, vive com um Benefício de Prestação Continuada (BPC), no valor de um salário mínimo (R$ 1.212).

Para acertar dívidas antigas, ela contraiu um empréstimo há um ano. Lá se vão mais R$ 446 para o banco todos os meses.

Seu único filho, de quase quatro anos, nasceu prematuro e enfrenta atraso de desenvolvimento. “Falta dinheiro. Tenho de comprar remédio para mim e para o menino.”

Aparecida faz uns bicos vendendo cosméticos para complementar a renda. “O pessoal do bairro me ajuda muito, meus clientes também ajudam.”

Gislaine Chaves da Silva mora com o marido e uma filha de 12 anos no São Jorge, bairro já regularizado ao lado do Aparecidinha. Paga R$ 550 de prestação da casa própria e vive num aperto danado. Ela e o marido estão afastados do trabalho, recebendo auxílio doença. Mas o pagamento dele foi suspenso em julho e uma nova perícia do INSS só vai ser realizada em fevereiro.

O benefício de Gislaine está garantido somente até 31 de dezembro. E, segundo ela, embora já tenha pedido prorrogação, a Previdência Social ainda não marcou sua perícia.

Operada da coluna, Gislaine aguarda uma nova cirurgia que pode ser agendada a qualquer hora.  “Não sei o que vai acontecer”, conta. “A sorte é que a gente tem muita ajuda aqui. O projeto dá muita força para a gente. A igreja também ajuda.”

O projeto ao qual ela se refere é o “Wal Dias – Amigas do São Jorge”. Confira neste vídeo como foi a entrega de presentes para as crianças nesta quinta-feira (22).

Bolsa Família sempre foi insuficiente

A líder comunitária Adriana Marcolino Cordeiro Camilo, mais conhecida como Tia Adriana, diz que o Bolsa Família sempre foi insuficiente para as necessidades básicas da população. E o aumento do custo de vida piora um pouco as coisas. “Está tudo muito caro.”

O Amigas do São Jorge busca combater a fome da comunidade e conta com parceiros como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) que, somente nesta quinta-feira (22), doou 170 cestas básicas para os moradores mais necessitados do local. Os alimentos são produzidos pelo próprio MST.

Há também muitos voluntários colaborando com o projeto, como a psicóloga Madalena Lanssoni (foto abaixo), que distribuiu centenas de presentes entre as crianças da comunidade.

Serviço

Quem quiser ajudar a Tamires pode contatá-la pelo telefone (13) 99678-3164. O número da Gislaine é o (43) 98422-0068. E o da Aparecida, (43) 98494-0700. Já o contato da Tia Adriana, líder do projeto, é o (43) 9685-3023.

Benefício federal chega a 29,4 mil famílias

Segundo a Secretaria Municipal da Assistência Social, há 29.445 famílias londrinenses que recebem o Bolsa Família, num total de R$ 17,1 milhões mensais. O BPC é pago para 15.450 pessoas, totalizando R$ 169,7 milhões.

Outro benefício federal, o Auxílio Gás, chega a 13.345 famílias da cidade – investimento de R$ 1,5 milhão por mês.

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