Abuso ocorreu no primeiro dia do ano e teria sido filmado pelo estuprador; suspeito ainda não foi ouvido pela polícia
Cecília França
Foto em destaque: Molly Merrol/Unsplash
O ano começou angustiante para D., 40 anos, moradora de Apucarana, norte do Paraná. Sua filha A., de 24 anos, desapareceu no início da noite do dia 1º e só foi encontrada, perambulando por um bairro vizinho, na tarde do dia seguinte. Ao ser encontrada a jovem relatou à mãe que havia sido abusada sexualmente. A. tem deficiência intelectual e necessita de cuidados em tempo integral.
D. já havia registrado boletim de ocorrência do desaparecimento e espalhado a foto da filha na internet com a esperança de encontrá-la. Quando soube do abuso, levou a filha à delegacia para registrar o crime de estupro de vulnerável e foram encaminhadas à Delegacia da Mulher. O abusador seria um conhecido do pai de A., que mora em outra residência, e estaria rondando a casa da jovem nos dias anteriores ao crime.
“No dia 30 de dezembro ele chegou a passar mais de dez vezes na frente de casa, só que a A. estava para dentro. No dia 1 ele chegou a passar no horário de almoço e ela fugiu 19h. Só a encontrei no dia 2, por volta das 14h30″, detalha a mãe.
“Ele abusou dela e a soltou no meio da rua. Ela passou a madrugada inteira andando. Quando parou em frente a uma igreja, aí a acharam. Na delegacia, tomaram o depoimento meu e dela separado, no dia 2. No dia 3 marcaram para ela fazer o exame de corpo de delito”, relata D.
Segundo a mãe, a jovem saiu de casa nos poucos minutos em que ela estava no banheiro. “Ela não é de sair de casa. Em dezembro ela sumiu, mas voltou. No dia 1 foi coisa de minutos. Eu moro no mesmo quintal dos meus pais, mas eles não estavam. Eu só fui ao banheiro, voltei e ela não estava mais”, conta a mãe, angustiada.
“O suspeito é amigo do pai dela. Ele já começou a dar em cima da menina, sabendo que ela era especial, na casa dele. Eu comentei com o pai, mas ele não ligou”, garante D.
Na delegacia a mãe soube dos detalhes da violência, após ler o depoimento de A. colhido em escuta especializada. “Ela estava na rua, ele a encontrou, levou na residência dele, abusou dela, filmou, ligou para um primo e depois gravou o abuso”.
O suspeito ainda não foi ouvido pela polícia. “Acabei de voltar da delegacia e eu fico indignada porque até agora não fizeram nada”, desabafou D. à Lume na tarde desta sexta-feira (6). “Disseram que está em andamento, que ainda está no prazo”.
Em contato com a Delegacia da Mulher, a reportagem foi orientada a buscar informações junto à assessoria da Polícia Civil, que confirmou a oitiva apenas de vítima, mãe e testemunhas.
Mãe e ativista apontam negligência no protocolo
A ativista Renata Borges acompanhou as buscas por A. e quando soube do estupro, ainda no dia 2 de janeiro, questionou a mãe sobre o protocolo de prevenção a doenças. D. não havia recebido orientação.
“Ninguém falou nada de medicação na delegacia. Quem me deu apoio foi a Renata, que me acompanhou até a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) para a médica me dar o coquetel (de medicamentos). Depois minha filha fez teste rápido no posto perto de onde eu moro”.
As medicações de profilaxia das ISTs e HIV e anticoncepção de emergência fazem parte do protocolo de atendimento a vítimas de abuso sexual.
“A falha foi justamente da delegacia não encaminhar para nenhuma unidade de saúde. Eu acompanhei porque já conheço o protocolo de atendimento a vítimas de violência”, explica Renata.
A ativista denunciou o caso a órgãos de defesa dos direitos humanos e das mulheres, como ONU Mulheres, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Organização dos Estados Americanos (OEA), que já sinalizaram recebimento da denúncia.
Segundo a assessoria da PC, a vítima foi encaminhada ao IML e à UPA, “que são os órgãos responsáveis por prestar orientações a respeito das medicações”.
Espera por justiça
Além da tristeza pela filha, a violência tocou em uma ferida pessoal da mãe, abusada aos 10 anos por um conhecido da família. Ela fez a denúncia na época e o abusador acabou preso. Quando deixou a cadeia, o homem passou a procurá-la para se vingar.
“Ele não conseguiu me encontrar. Hoje já está morto. Foi 30 anos atrás, mas para a gente que sofre esses traumas, qualquer gatilho, volta. Para mim está sendo isso”, desabafa.
D. teme que o culpado não seja responsabilizado pelo crime contra a filha. “Espero justiça, que ele seja preso, porque não quero que aconteça com a minha flha como em outro caso daqui, que teve três envolvidos e eles estão soltos”.
A mãe se refere a um caso de estupro coletivo ocorrido em Apucarana em 2020, quando quatro homens violentaram uma jovem de 19 anos com deficiência intelectual. Presos por apenas três dias dias, acabaram soltos para responder em liberdade.
